
Sonhos Doro

Jos de Alencar


         Fonte:
ALENCAR, Jos de. Sonhos Doro. 2.ed. So Paulo : tica, 1998 (Srie Bom Livro).

Texto proveniente de:
A Literatura Brasileira  O seu amigo na Internet.
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         Texto-base digitalizado pela voluntria:
         Maria Fernanda Amado Morillo de Andrade - So Paulo/SP

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I

O sol ardente de fevereiro dourava as lindas serranias da Tijuca.
Que formosa manh! O cu arreava-se do mais puro azul; o verde da relva e da folhagem sorria entre as gotas de orvalho, cambiando aos toques da luz.
Frocos de nvoa, restos da cerrao da noite, cingiam ainda os pncaros mais altos da montanha, como pregas de vu flutuante, ao sopro da brisa, pelas espduas das 
lindas amazonas, que durante o vero costumam percorrer aquelas amenas devesas.
Seriam sete horas.
Um passeador solitrio seguia a p e distraidamente por um dos muitos caminhos que se cruzam em vrias direes pela encosta ocidental da montanha. Levava ele embaixo 
do brao esquerdo um lbum de desenho, naturalmente destinado  cpia das magnficas perspectivas, que oferecem a cada passo as quebradas da serrania.
Era moo de 28 anos. Seu rosto de traos nobres no tinha decerto a beleza correta e artstica do tipo clssico, nem a faceirice de certos casquilhos, prncipes 
da moda: apresentava porm uma fisionomia simptica e distinta. O olhar sobretudo, que  o sol d'alma, lhe esclarecia a larga fronte pensativa de reflexos inteligentes.
Trajava com extrema simplicidade. Tinha um vesturio completo, ou no jargo parisiense dos alfaiates, um costume ainda bem conservado e decente, apesar de um tanto 
fanado na gola. Notava-se a ausncia completa do ouro: a abotoadura era toda de marfim; e no se via sinal de relgio.
Depois de alguns minutos de passeio, o moo, cujos olhos iam percorrendo com indiferena as bordas do caminho, de um e outro lado alternadamente, desviou-se do trilho 
batido e seguiu por dentro do mato. Mal tivera tempo de sumir-se entre a ramagem do arvoredo, quando ouviu-se o tropel de um cavalo que passou a galope. Enfiando 
o olhar por entre as folhas, pde ver o cavaleiro, o qual era rapaz de 21 anos, de belo parecer e maneiras agradveis. Montava um cavalo castanho.
- Fbio!
- O cavaleiro colheu prontamente as rdeas, fazendo estacar a montaria, e voltou-se duvidoso para ver se com efeito o haviam chamado, como lhe parecera. A rapidez 
do galope e a repercusso do solo tinham impedido que ouvisse distintamente a voz do passeador a p:
- Que milagre!... Hoje madrugaste!...
- Ah! s tu, Ricardo?! Exclamou o cavaleiro retribuindo o sorriso. Vou  Vista dos Chins com uns rapazes que esto a no hotel do Jourdain. Convidaram-me ontem 
 noite.  um piquenique! Queres ir tambm?
- S se partssemos ao meio o Galgo, observou Ricardo, alisando a linda anca do cavalo.
- Dou-te garupa! Replicou Fbio gracejando.
- Obrigado!... Luisinha teria cimes.
- Bem; vai romantizar com as flores, que os sujeitos esto  minha espera. Talvez j chegue tarde! Digam l o que quiserem. Um homem deve se dar a respeito, e no 
comparar-se com os animais e os carroceiros que deitam de dia e acordam-se de noite.
Atirando esse gracejo, Fbio deu de rdeas ao animal e partiu a galope.
- Olha o Galgo, hem! gritou Ricardo.
- Com efeito!... nem de Bela tens tanto cuidado!
Ricardo sorriu e, acompanhou com os olhos o amigo at que sumiu-se na volta do caminho. No era porm o cavaleiro, apesar de elegante, o que prendia a teno do 
passeador, e sim o cavalo cuja fina roupagem castanha brilhava aos reflexos do sol. A esbelteza das formas esgalgadas e o garbo dos movimentos fceis e vivos, lhe 
tinham merecido o lindo nome dado pelo dono.
Quando o vulto airoso do cavalo encobriu-se por detrs da folhagem de uma rvore que interceptou-lhe a vista, Ricardo, abafando um suspiro involuntrio, desviou-se 
novamente do caminho ao qual voltara para falar com o amigo.
s vezes o pensamento do moo vagava de um a outro objeto, desta quela moita, do ramo ao tronco, da folha  raiz, como se procurasse um ponto qualquer onde se fixasse, 
distraindo-se das idias e recordaes do ntimo. Outras vezes, depois de adejar como uma borboleta, o esprito do solitrio passeador recolhia-se insensivelmente, 
e abstraa-se de quanto o cercava, para envolver-se nos refolhos dalma.
Alguma coisa porm chamou por momentos sua ateno. Foi a pequena flor silvestre de um arbusto que se encontra nas matas da Tijuca.
No sei o nome do arbusto, nem mesmo se j foi batizado pela cincia.  natural que no tenha escapado s pesquisas dos dois ilustres freires da flora brasileira, 
o Veloso e o Alemo; mas, como apesar de tanto dinheiro esperdiado pelo governo, as letras andam entre ns abandonadas  indiferena e ao charlatanismo, que so 
a medusa e o minotauro do talento, no me pude socorrer  cincia dos dois clebres botnicos.
A este respeito Ricardo no era menos ignorante. O modo porque ele admirava a pequena flor revelava o tato do artista ou do poeta. Seu exame nada absolutamente se 
parecia com a fria dissecao que o botanista opera nas diferentes partes de uma planta, para conhecer o seu gnero, classe e famlia.
A flor tem a forma de um junquilho, mas  de uma bela cor de ouro, e aveludada como a aucena. Falta-lhe o perfume, que  o corao da flor, a sua respirao.
A corola tubular, com cinco lbulos agudos de lana, surge de um clice que parece coralina. Cada haste sustenta comumente trs clices dispostos como as aspas de 
um leque; a dentro desses clices formam-se os botes, como pequenas pontas de ouro no seu rseo engaste.
Pelo conhecimento que fizemos, a planta e eu, durante o vero passado, notei-lhe duas particularidades. Talvez recebesse eu dela outras confidncias se no nos separssemos 
to cedo, e to no princpio ainda de nossa amizade.
Os botes, que despontam em dezembro, por muito tempo se conservam estacionrios, sem crescimento aparente.  s dois ou trs meses depois, em fevereiro e maro, 
que as gemas douro se elevam como aljfares, e desabrocham para murchar em um dia. Mas as trs flores irms no crescem, nem abrem ao mesmo tempo; vm solitrias, 
uma depois da outra.
Eram estas justamente as observaes que fazia Ricardo, examinando a linda corola e os botes nascentes aninhados ainda no fundo do clice nacarado. Muitas vezes 
em seus passeios tinha ele notado o arbusto coberto das lindas prolas douradas. Cansado de esperar o desabrochar, sups a florescncia j passada, e naquilo que 
via, o embrio do fruto.
Depois de olhar a flor agreste com enlevos de artista, o moo, que procurava qualquer modelo, lembrou-se de copiar o arbusto em uma das pginas do lbum. Escolheu 
a posio, aproveitando os acidentes do terreno em ladeira, para servir-lhe de mesa. De joelhos na grama, debruado sobre o declive de um barranco, traou rapidamente 
a lpis o esboo da planta.
Enquanto descansava, examinou de novo a flor do ramo que tinha quebrado:
- Que bela cor de ouro! murmurou.
Ento com as impresses poticas da flor agreste se enlearam outras cismas que absorveram completamente o esprito de Ricardo. Como a seiva exuberante de uma rvore, 
que rompe a casca e borbulha aqui e ali pelo tronco em fios de resina, assim os pensamentos que enchiam a alma do mancebo se escapavam de vez em quando nas palavras 
entrecortadas de um monlogo.
- Ouro!... ouro!... s o rei do mundo, rei absoluto, autocrata de todas as grandezas da terra! Tu, sim, tu reinas e governas, sem lei, sem opinio, sem parlamento, 
sem ministros responsveis!... No tens nenhum desses trambolhos que arrastam os soberanos constitucionais.
Lei?... Que lei  a tua, seno o capricho com que escarneces dos homens? Tu dizes ao pobre, cobia; ao opulento, gasta; ao ladro, rouba; e a todos, grandes e pequenos, 
adorai-me...
Opinio?... Quem faz esse rumor que nos atordoa os ouvidos e a que chamam pomposamente opinio pblica? Tu, que sustentas os jornais, pagas os jantares, ofereces 
lindos presentes, estreitas as amizades, e nutres a admirao e o entusiasmo!
O monlogo expirou nos lbios do moo; porm a expresso de seu rosto indicava que o esprito seguia mentalmente o sucessivo desenvolvimento da idia.
- Todos ns, bons ou maus, somos sditos de tua majestade, com a diferena que os maus te bajulam e se arrastam a teus ps para satisfao de ignbeis instintos; 
enquanto que os homens honestos te respeitam como um grande poder, te servem para se robustecerem com tua fora, mas no te sacrificam a dignidade e a virtude.
Um sorriso amargo pairou nos lbios de Ricardo:
- Por isso, como todos os reis, tu repeles quase sempre essas almas de rija tmpera, que no se dobram a teus caprichos. Preferes os lisonjeiros, os coraes de 
cortia, as almas de esponja, que  vontade se embebem ou se encharcam daquilo que te apraz ou te repugna.
A sombra de algum pensamento mais desanimador perpassou-lhe na fronte, e derramou-lhe pelo semblante uma expresso de melancolia. As plpebras cerraram-se como se 
a luz do sol ofendesse a penumbra dalma em que dormiam as mgoas ntimas e as queridas reminiscncias:
- Minha felicidade, a felicidade de uma famlia inteira, depende de ti, de um teu bafejo!... Vinte contos!... Uma migalha das tuas imensas riquezas. Dizem que milionrios 
j deram mais, muito mais, para terem direito a um nome de cinco letras! Quatro contos cada letra! H mulheres que levam ao baile algumas noites, durante sua vida, 
jias que valem dez vezes mais do que essa quantia! Quanto no custa cada hora daquele prazer! Entretanto no so cinco letras, so oito criaturas, no so horas 
apenas, so anos, so vidas de amor e ventura, que eu obteria com esta miservel quantia... miservel para os opulentos; para mim um tesouro, um futuro!...
Sob a influncia da profunda cisma, Ricardo tinha a pouco e pouco mudado a posio, que tomara para desenhar. O corpo debruado anteriormente sobre o declive, que 
servira de mesa, inclinou-se insensivelmente para o lado, firmando-se no cotovelo. Assim com a cabea apoiada na mo esquerda, quase deitado sobre a relva, como 
sobre um div, prosseguia o moo nos seus devaneios, com os olhos fitos na flor, que embalanava-se lentamente aos movimentos dos dedos.
- Bastava uma tira de papel, um bilhete de loteria, ou uma carta de jogar, para dar-me essa quantia, o preo de minha felicidade, a sade de minha me, o casamento 
de Luisinha e... Ah! Quantas vezes no me tenho embalado nestas iluses sedutoras, nestes sonhos douro! So como tu, linda flor, os meus sonhos douro. Brota uma 
tnue esperana, assim como o teu boto; vai crescendo lentamente, no meio de nsias e dvidas; afinal desabrocha em flor; mas  flor do vento, que logo murcha. 
Tambm tu no vives mais que um dia!... Nisto nos parecemos bem; constante a preocupao; o sorriso efmero; tua preocupao  vegetar, a minha, pensar!
Decorrido um momento, o semblante de Ricardo expandiu-se:
- H tanto tempo que vejo esta planta, e no lhe conhecia a flor!... Quem sabe? Talvez seja o anncio do primeiro sorriso da fortuna!
Logo zombou de sua lembrana, e da puerilidade daquela superstio. Mas, longe de a repelir, embebeu-se na iluso. Todos ns temos em nossa alma um cantinho, que, 
apesar dos anos, da experincia e dos trabalhos, fica menino at que enfim o homem volta  primeira infncia. Nesse cantinho dormem as iluses ingnuas, as esperanas 
infindas, a f robusta e sobretudo certos laivos de loucura que tonificam a razo.
 a,  justamente nesse santurio da infncia, que a alma viril do homem costuma-se refugiar nos momentos de crise, quando sustenta alguma luta com a fortuna; ou 
vencedora para fortalecer-se com a seiva primitiva, e renovar o combate; ou vencida para escapar ao desespero, que a invade.
Ricardo deixou-se ir  merc da fantasia, que recortava arabescos em seu esprito. Era um desses sonhos acordados, em que as noes confusas se agitam num claro-escuro 
do esprito. Esse jogo da luz e das sombras dalma, junto  extrema volubilidade dos pensamentos, no deixava destacar-se cada uma das idias. Bilhete de loteria, 
jogo de cartas, heranas inesperadas, a proteo de um milionrio, o trabalho abenoado por Deus, e mil rasgos e acidentes da fortuna; tudo isto misturado com a 
imagem da flor se baralhava na mente de Ricardo, apagando-se e luzindo alternativamente, como os fogos-ftuos em noite escura. Mas todas essas fosforescncias iam 
derramando nalma como que uma linda miragem, a abastana, a posse dos vinte contos de ris.
- Ento!... Como havamos de ser felizes, Bela! Que beijos, minha querida me, que eu te havia de dar para te beber nas faces as lgrimas de prazer! Porque tu havias 
de chorar de alegria, como choraste de dor. E tambm a ti, Luisinha! A todos!...
A cada uma dessas palavras o moo, completamente possudo e dominado por suas recordaes, inclinava-se sobre a flor agreste que tinha na mo, e beijava-a com ardor, 
vendo naquela gentil criatura da natureza a imagem das pessoas a quem amava.
- Oh! ento lhes pagaria em beijos as saudades que sentem por mim!..
O trino mavioso de um riso fresco e argentino arrancou subitamente o moo  profunda cogitao.
Aturdido um instante pela completa alheao do esprito, que andava bem longe dali, atravs dos mares, Ricardo voltou-se para ver quem to bruscamente o havia chamado 
 realidade.
O quadro que tinha diante dos olhos era digno de uma das folhas de seu lbum, ornado de finas aquarelas.

II

Entre o arvoredo tecido de grinaldas amarelas aparecia uma esfera do azul do cu, como tela fina de um painel, cingido por medalho de ouro. A sombra de uma nuvem 
errante infundia ao horizonte suave transparncia.
Debuxava-se na tela acetinada o vulto airoso de linda moa, que montava com elegncia um cavalo isabel.
A alvura de sua tez fresca e pura escurecia o mais fino jaspe. Nem os raios do sol, nem o exerccio acenderam uma rosa mesmo plida em sua face, cndida como a ptala 
do jasmim. A seiva dessa mocidade, o vio dessa alma, no se expandia no rubor da ctis, mas no olhar ardente e esplndido dos grandes olhos negros, e no sorriso 
mimoso dos lbios, que eram um primor da natureza.
Admirando aquele rosto encantador, ningum reparava na sua palidez; ao contrrio parecia que os tons rosados maculariam a alvura do lrio. A alma que se derrama 
assim em ondas no olhar e no sorriso, est no ntimo, no corao, donde se desprende em centelhas; no pode tingir as faces.
Um roupo de caxemira verde-escura, debruado a cairel de seda preta, com abotoadura de ao, moldava um talhe esbelto, que parecia talhado em mrmore, tal era a correo 
das linhas e a harmonia dos contornos. O gracioso chapu de castor cor de prola, em vez de cobrir-lhe a cabea gentil, pousava como um pombo na rica madeixa negra, 
que lhe descia caprichosamente pelo pescoo em opulentas cascatas.
Calava luvas de camura amarela, cujo longo canho afunilado cobria-lhe uma parte do brao, mas deixava admirar o pulso delicado, cingido por um punho de cambraia 
lisa, igual ao colarinho rebatido sobre a gola do roupo.
A mo esquerda sustinha as rdeas tranadas com bastante firmeza, porm com a graa fcil que teria segurando no baile o leque ou o ramalhete. A direita suspensa 
apertava pela haste um chicotinho, cujo cabo de madreprola parecia machucar nos lbios o sorriso faceiro, que ali brincava, e de vez em quando trinava como um canrio.
Da cintura de menina ou de silfo nasciam as amplas dobras do roupo de montar, roagante sobre os flancos do belo animal. Como na constante ondulao do mar percebe-se, 
por uma inflexo mais forte, a vaga nascente que se empola, assim no meio das largas pregas do vestido sentia-se o relevo suave da perna esbelta e nervosa, que esticava 
o loro, enquanto o p, despeitado por no se mostrar, agitava impaciente o estribo.
O cavalo era digno pedestal daquela esttua de Diana. Alto, airoso, de uma estampa soberba, respirava a elegncia altiva e serena, que lhe imprimira a educao britnica. 
O cavalo do Cabo, de boa raa, tem alguma coisa do lorde: a mesma fleuma aristocrtica, o mesmo garbo frio e impassvel, a mesma sobriedade do gesto, caracterizam 
os dois fidalgos.
Tenho para mim que um cavalo do Cabo olha para os cavalos de raa diferente com o mesmo polido desdm que sentia Lorde Derby pela nobreza das outras naes. O lorde 
ingls apropriou-se do antigo mote dos senhores do mundo, civis sum. O cavalo do Cabo, parodiando a divisa, diz equus sum; eu sou o cavalo por excelncia, o fidalgo 
de raa, o gentleman da estrebaria.
Por isso na atitude do lindo animal montado pela gentil amazona no se via a impacincia fogosa, a vivacidade sfrega, que sem dvida ressumbraria no filho da raa 
brasileira, apesar de muito afastado de sua primitiva estirpe rabe. O lindo isabel, sentindo a doce presso das rdeas colhidas pela mo da senhora, estacara imvel, 
com a firmeza correta de uma posio acadmica. As pernas lanadas pisavam o cho com rgida elegncia; a cauda e a crina conservavam a artstica ondulao que lhes 
imprimira a mo do escudeiro; a cabea erguida com a arrogncia inclinava-se ligeiramente para despedir o olhar oblquo do orgulho desdenhoso.
Pitt, o grande Pitt, parando no meio de um discurso eloqente, ao influxo da sbita inspirao de um epigrama, que seu lbio sarcstico ia desferir contra Fox, devia 
ter no parlamento ingls aquela atitude soberba.
Se a linda moa ficasse ali horas, creio que o seu impassvel cavalo no daria sinal de impacincia, nem levantaria a unha aristocrtica para escavar o cho. Podiam 
tambm as moscas impertinentes pousar na anca; ele no se preocupava com a ral. Apenas, muito importunado, agitaria o corpo com um movimento semelhante ao do fidalgo 
que levanta os ombros em sinal de tdio.
Eis o quadro original que Ricardo viu de relance. O vulto da moa, esclarecido por um raio do sol coado entre a folhagem, se estampava no fundo azul, com vigor de 
colorido e animao de tons admirveis. Atravs da nvoa sutil que h pouco envolvia seu esprito, o desenhista podia supor um instante que via uma paisagem de Delacroix 
atravs da iluso difana de um diorama.
Chegando-se ao arbusto para examinar-lhe a flor, no reparou o moo que, seguindo por dentro do mato, se aproximara do caminho no lugar onde este fazia uma curva. 
Deitara-se pois voltando costas ao trilho, que lhe ficava a duas braas de distncia.
A linda amazona, que vinha ao passo do animal, descobriu o solitrio passeador, e pressentiu nele algum desses eternos sonhadores que se chamam poetas ou artistas: 
gente por quem as mulheres tm o mesmo fraco dos meninos pelas bolhas de sabo; coisa para se ver um instante, enquanto brilha.
Disfarando a sua indiscrio com o pretexto de esperar algum que a acompanhava, fez a amazona parar o animal. O vento, volvendo as folhas do lbum, mostrava as 
aquarelas, que os olhos curiosos tentavam espiar, enquanto a mo afastava o longo vu cor de havana. Esguardando os desenhos, no esquecera a moa o artista que, 
entregue a seus pensamentos, murmurava palavras soltas.
Quando o viu beijar com ardor, uma e muitas vezes, a pequena flor agreste, no pde se conter, e deixou escapar-se a risada harmoniosa, que ainda se desfolhava em 
sua boca travessa, como uma rosa desabrochada naquela manh. Debalde quis ela, pousando nos lbios o cabo de madreprola do chicote, trancar aquele cofre de prolas 
e rubis: as jias se desfiavam rorejando as melodias de uma voz suave.
O riso fresco de uma linda boca, ainda quando borbulha dele alguma malcia,  sempre doce e saboroso. Por isso Ricardo, apesar de reconhecer que a moa ria-se dele, 
em vez de zangar-se, riu-se para ela.
O vu caiu imediatamente, ocultando em uma nuvem espessa o rosto encantador. A uma vibrao da rdea, o soberbo isabel desatou o passo elegante em um trote largo, 
de suprema correo hipitrica. O quadro arrebatador se tinha apagado de repente, deixando a tela azul erma da imagem sedutora.
Em compensao porm outro quadro mais cheio desenhou-se no claro do arvoredo. Era formado por uma inglesa gorda, de meia-idade, dessas mulheres que teimam em no 
envelhecer, e por um portugus magro, desses homens que aos quarenta anos envelhecem sem cerimnia.
Estas duas criaturas eram o epigrama vivo uma da outra. Montada a cavalo, com um chapu de abas enormes, a inglesa parecia, relevem a comparao, um queijo londrino 
posto em prato alto e coberto com a tampa de cristal. O portugus, esguio e curvado sobre a mula que o levava, com um chapu afunilado, era a perfeita imagem de 
uma salsicha assada num espeto.
Para que o contraste fosse perfeito, a mulher falando ao homem, estropiava o portugus de uma maneira horrvel; e o homem, escutando-a atentamente como se a compreendesse, 
arranjava de vez em quando no fundo da garganta um grunhido que tinha pretenso de ser um yes, como uma careta tem a pretenso de ser um sorriso.
Ricardo vendo o segundo painel sentiu na vista uma sensao igual  do paladar que, saboreando a polpa deliciosa de um cambuc, sentisse de repente o gosto do pepino. 
Fechou os olhos enquanto o mtuo epigrama em carne e osso passava, acompanhado por um pajem de libr.
Um novo gorjeio de riso melodioso derramou-se pela solido; porm Ricardo no ouviu mais do que um eco remoto.
- De que se ri, menina? perguntou a mestra em ingls. Why do you laugh, baby?
- Bonito romance, Mrs. Trowshy! respondeu a moa na mesma lngua.
- Que ttulo tem?
- Ttulo!...replicou a moa rindo. No est escrito ainda! Se agora mesmo eu vi o primeiro captulo!
- No entendo.
- Ande l, Mrs. Trowshy! E a senhora bem caladinha!...
- Mas o que ?
- No viu um moo que estava recostado na grama ao lado do caminho?
- Onde?... No vi nada!
- Sim? No me engana! Pois o moo tinha uma flor na mo, creio que era um girassol, e pensando que eu no o via, ou talvez que era outra pessoa, dava tais beijos 
na flor, que de cada beijo comia um pedao.
- Oh! Oh! engraado! Exclamava a mestra com um riso puro cockney.
- Espere; o mais interessante  que ele no cansava de dizer enquanto beijava o seu girassol: My love, my soul, my darling Harriet, my pretty Mrs. Trowshy!
- Baby, baby!... repetia a mestra afogada em riso.
O portugus no entendera meia palavra do dilogo travado em ingls; mas ele julgava que, sendo incumbido de acompanhar a moa e a mestra na qualidade de criado 
grave, devia compor-se  feio daqueles de quem estava constitudo a sombra.
- Voc tem idias, menina!
-  srio, Mrs. Trowshy. Palavra que vi o moo. E a senhora tambm; no disfarce.
A mestra voltou-se gravemente para o criado, e com os dentes cerrados para destrinar as palavras portuguesas, como se fossem cabeloiro, disse mais ou menos isto:
- Senhor Daniel, ns ver young gentleman?
- Iuh!... iuh!... iuh!... respondeu o Sr. Daniel que ficara em branco.
- No disse? exclamou a moa desatando a risada com extremo prazer.
- Iuh!... iuh!... fez a mestra arremedando o portugus. Que quer dizer iuh?...
Neste momento um cavaleiro a galope assomou na curva do caminho, e encontrou-se de frente com a moa e sua comitiva. Era Fbio que voltava do seu passeio gorado; 
ao avistar o grupo, moderou o andar do animal para melhor examinar as pessoas, com especialidade a gentil amazona.
Cumprimentou respeitosamente a moa, que retribuiu-lhe com uma inclinao da fronte, bastante graciosa para revelar a fina educao, mas to reservada e altiva que 
no permitia a quem recebesse dirigir-lhe uma palavra, ou aproximar-se.
O Galgo e o formoso isabel tambm se cortejaram: o cavalo brasileiro, vivo, ardente e prazenteiro, enfreando-se garboso e soltando um ligeiro nitrido de prazer; 
o cavalo do Cabo, com o cumprimento protetor que um ministro enfatuado se digna deferir a um deputado novel.
Como o jovem deputado, o jovem corcel, vendo aquela fatuidade, sentiu certo prurido na pata, mas pelo respeito ao cavaleiro que o montava, pela decncia devida  
boa sociedade, e sobretudo pela educao que lhe dera o dono, desprezou a arrogncia do colega.
-  este o moo, menina? perguntou a inglesa motejando.
- No, Mrs. Trowshy. Este  outro:  rival do primeiro, replicou a moa. No viu que cumprimento lhe fez? Creio que teremos duelo!  como h de acabar o romance!
E o riso que se escondera nas covinhas da face, quando se aproximara um estranho, voltou de novo ao lbio da moa.
- Hop! hop! exclamou ela, desaparecendo em um tempo de galope.


III

A pouca distncia, Fbio tendo apressado a marcha do animal, ouviu uma voz sua conhecida que recordava  surdina um tema da Norma.
- Ainda ests por c, Ricardo? disse ele. Parece que no te lembras do almoo?
Ricardo, que estava embrulhando os lpis e fechando o lbum para ir-se, ergueu a cabea surpreso.
- Oh! E o piquenique?
- Ora! No me fales! Os tais sujeitos fiaram-se uns nos outros, e afinal querendo ser muito espertos ficaram todos logrados, e me lograram a mim. Apenas percebi 
a coisa, mosquei-me a toda pressa para no perder o magro cafezinho da tia.
- E vieste num galope desesperado? disse Ricardo passando a mo pelos peitos do cavalo, umedecidos de suor, assim como o ventre.
- Qual? Isso  calor: o sol est muito quente e o Galgo  to fogoso! Sua por nada.
- Eu creio que tu ainda s mais fogoso que ele, Fbio! Disse Ricardo ganhando o caminho na direo em que viera.
Fbio apeou-se, e atirando as rdeas ao pescoo do Galgo, seguiu ao lado do amigo.
- Viste quem passou aqui?
- Uma moa? disse Ricardo sorrindo.
- Conheceste?
- No.
-  a Guida!... A filha dos Soares.
- Soares... Um ricao?
- Um milionrio, um bezerro de ouro, uma espcie de Midas, que tem o dom de transformar tudo em dinheiro.
- Comeando pela prpria conscincia? observou Ricardo.
- Ah! Ele era capaz de vender-se aproveitando a alta, para comprar-se depois na baixa, ganhando alguns contos de ris na operao.
- J vejo que  uma grande cabea em finanas.  pena que no se aplicasse  poltica; seria o criador de uma situao!
- Mas vem c, Ricardo. No fim de contas hs de confessar que isso de conscincia  traste de pobre. Eu a comparo a uma mala de couro, ou uma canastra de pau. Numa 
casa rica seria sumamente ridculo!...
- Queres ento dizer...
- Entendo que ningum pode enriquecer, deixando-se levar pelos conselhos da tal velha rabugenta, que se agasta com a menor coisa e de tudo se aflige.
- Pois eu penso ao contrrio que a conscincia  indispensvel  riqueza, justamente para cont-la e coibir os seus excessos. A pobreza tem para reprimir-se a prpria 
fraqueza; mas a opulncia, servida pela justia e at cortejada pela lei, carece de um freio, a fim de no precipitar-se: esse freio  a conscincia; no h outro.
- Bela teoria!... A moral prtica  muito diferente!
- No decores com este nome a tolerncia do abuso e a transao cmoda que muita gente faz entre o seu interesse e o seu dever. A moral prtica no pode ser outra 
coisa, seno a virtude nos atos da vida. Seriamente, me entristeo, Fbio, quando te vejo defender o que no fundo de tua alma reprovas, estou bem certo!
- Foi um gracejo!
- O ouro  a pedra de toque da conscincia; o prumo que lhe sonda a profundidade. Creio que sou um homem honesto; mas no tenho a certeza disso, porque ainda no 
me vi  prova, entre os escrpulos da probidade e os lucros certos de uma ao menos digna.
- Pois eu confio mais em ti, do que tu mesmo. Se por acaso o tal milionrio, o Soares, te oferecesse vinte contos de ris para comprometeres a causa de alguns dos 
teus quatro clientes de meia cara, estou convencido que o repelirias com indignao!
- Tambm creio, replicou Ricardo sorrindo. Entretanto tu sabes o que vale esta soma para mim, para ns, Fbio.
-  verdade! Quando eu me lembro que para sermos felizes bastava-nos o que esse Midas ganha enquanto dorme a sesta!
- Exageras tambm!
- Dizem que ele tem um rendimento anual de mais de duzentos contos, o que d vinte e cinco mil-ris por hora. Ora ele costuma dormir duas horas, e trs quando janta 
feijoada; portanto a tens, cinqenta mil-ris, o que no ganhars, meu Ricardo, nem quando fores ministro e senador.
- Ests bem servido!
- Hs de ser! Mas v o que  este mundo. Viste o cavalo do Cabo em que ia a Guida, um lindo isabel?
-  um bonito animal.
- Pois enquanto ns, dois cidados brasileiros, duas esperanas da ptria, vamos almoar o magro caf com po, o tal fidalgo antes de sair a passeio j saboreou 
um pau de chocolate fino.
- Chocolate? Ora, Fbio!
- No  brincadeira; chocolate marquis! Ah! tu  no conheces a Guidinha. Um dia o tal cavalo do Cabo, que  delicado como um rapazinho da moda, constipou-se aqui 
na Tijuca, numa manh de chuva, e sobreveio-lhe uma tosse. A menina entendeu que o seu querido isabel estava sofrendo do peito, e que portanto devia tomar chocolate 
todas as manhs.
-  luxo que o nosso Galgo no lhe inveja.
- Sim, mas o teu Galgo chegando  casa, se quiser enxugar o corpo, h de rolar-se no cho: no tem como o fidalgo a seu servio um criado, melhor pago do que dois 
advogados do nosso conhecimento. Esse criado, depois de enxugar-lhe o corpo, com uma toalha de rio, veste-lhe uma camisa de brim de linho, mais fino do que o de 
minha cala. Isto quando o isabel no transpira; porque nesse caso vem uma garrafa de vinho para esfregar-lhe o plo: vinho generoso, como ns s bebemos uma vez 
por outra, nalgum banquete.
- Admira-me que andes ao fato de tudo isto!
- Compreendes! Moa bonita e rica!...
-  uma celebridade, como a Lagrange ou a Ristori; pertence ao pblico, que tem o direito de saber as particularidades de sua vida.
- Justamente; so os prprios amigos da casa que referem estas coisas como prova da graa e esprito da moa. Queres saber uma que me contaram h poucos dias?
- Ds tanta importncia a esses caprichos?
- Rio-me; e acho uma fortuna quando os ricos nos divertem, e no nos afligem como tantas vezes sucede. Mas ouve, que  engraado.
- Conta.
- Foi com o doutor... Um dos primeiros mdicos da corte... Esquece-me agora o nome... o doutor...
- No importa.
- Pois bem. Uma noite, seriam duas horas da madrugada, chovia a cntaros, quando batem-lhe  porta. Era um chamado a toda a pressa para a casa do Soares; a carta 
era instante; o carro estava  espera. O velho doutor consultou todas as juntas do corpo para ver se no tinha algum travo de reumatismo, que o desculpasse com o 
capitalista e a conscincia. Achando-se perfeitamente lpido, no teve remdio seno erguer-se e partir.
- Fez sua obrigao.
- Sem dvida. Chegando o doutor foi recebido pela Guida...
- A filha?
- Sim; a qual muito aflita comunicou-lhe que o incomodara quela hora da noite para ver Sofia, que estava muito mal, a decidir, de uma molstia do corao. O doutor 
conhecia melhor o dinheiro do que a famlia do capitalista; no sabia pois de quem se tratava; pensou porm que devia ser uma pessoa importante da casa. Acompanhou 
a moa a uma alcova frouxamente iluminada por uma lamparina, onde havia um leito envolvido em alvos cortinados de fil. O doente parecia uma criana; estendendo 
a mo para tomar-lhe o pulso, sentiu o mdico um plo macio; aproximou a vela e ento distinguiu perfeitamente uma cachorrinha, deitada em travesseiros de cetim 
e coberta com uma colcha de damasco.
- Ser exato isto?
- Asseguro-te que . Faze idia de como ficou o doutor, arrancado  sua casa  uma hora da noite, e rebaixado do seu pedestal de mdico do que h de mais ilustre 
e elevado na corte, a mdico de co. Se a graa fosse de qualquer outra pessoa, ele decerto no a suportaria; mas era de uma moa bonita. O velho assentou que o 
melhor meio de sair-se do caso era lev-lo em tom de galhofa... Ah!  sua maninha? disse ele. Examinou com uma gravidade cmica o doente, pediu papel e receitou 
neste gosto: Rcipe: Uso interno: Maada  2 oit. Capricho de criana  1 ona. Misture e faa infuso para tomar s colheradas de hora em hora. Uso externo: Gargalhada 
 3 oitavas. Pacincia  1 libra. Faa uma fomentao. Para a Sr. D. Sofia Soares. Dr. F. Entregou a receita  menina, e assegurou-lhe que D. Sofia se restabeleceria 
brevemente.
- Era pachorrento o doutor.
- Que havia ele de fazer; dar a cavaco? Mas escuta o resto.  um romance. A Guida mandou a receita  botica da casa. Podes bem avaliar do como ficaria embaraado 
o boticrio para avi-la: nunca na sua vida tinha manipulado semelhantes drogas. Mas a menina fez-lhe saber muito positivamente, que se no mandasse os remdios 
receitados pelo mdico perderia a freguesia. Nestes apertos passou-lhe o doutor pela porta; contou-lhe o que sucedia; o velho desatou a rir. Olhe; maada,  qualquer 
amargo. Capricho de menina, umas ccegas, como as que produz o slfur. Gargalhada, um pouco de muriato no plo da cachorrinha, e ver que boas risadas ela d. Pacincia, 
isso  um emoliente, farinha de linhaa. O boticrio aproveitou a lembrana e aviou a receita. Se a Sofia tomou o remdio no sei; mas ficou boa.
- Ento  mais provvel que no tomasse.
- Estou por isso. Tempos depois aparecendo o doutor em sua casa, a Guida exigiu a conta da visita feita  Sofia. O velho, julgando-se autorizado pelos sessenta anos 
e pelo gracejo da menina, disse-lhe que o preo era um beijo. Nesse momento chegava  porta a mestra, uma inglesa gorducha e mope.
- Naturalmente uma que vi passar...
-  a tal. A Guida corre a ela; inventa de repente uma histria da chegada imprevista do marido, uma alegre surpresa; e acaba mostrando-lhe o vulto do doutor, que 
no entendia a conversa por ser em ingls. A mestra precipita-se como uma bala de canho, agarra-se ao pescoo do velho, e cobre-o de uma chuva de beijos sonoros 
e cheios, verdadeiros beijos de lei, pesando 24 quilates cada um.
- E o doutor?
- Quando se pde desvencilhar dos braos e da boca da gorducha, viu Guida que ria de sua triste figura: Est vendo, doutor, como eu pago generosamente as minhas 
dvidas. O senhor pedia um beijo, e leva algumas dzias deles. O velho limpava a cara, enquanto a inglesa esfregava os beios como se lhes quisesse tirar a pele. 
No achas engraada a anedota, Ricardo?
- Acho que essa moa tem pouco juzo.
- Juzo tem ela; mas  juzo de moa rica, muito diferente do juzo de moa pobre. O velho Soares  uma mquina de fazer dinheiro; vive no escritrio. A mulher, 
esta suporta a sua opulncia como um cativeiro. Os outros filhos ainda esto no colgio. Quem h de suar daquela riqueza e da posio que ela d seno Guida?
- Podia usar de uma maneira mais sria e mais til.
- No seria ento uma criana de dezesseis anos?
- Mas  justamente por no ser uma criana que eu a censuro. A travessura aos dezesseis anos  inocente; no tem a malcia das comdias de mau gosto representadas 
por essa moa.
Fbio voltara-se cuidando ouvir um rumor. Os dois amigos conversando ao lado um do outro tinham deixado a estrada e tomado um atalho que descia pela encosta da montanha.
- No fim das contas, assim deve ser, acrescentou Ricardo. Ela  muito bonita e muito rica; deve ter algum defeito; so os espinhos da rosa, como diria um poeta, 
ou o azinhavre do ouro, como dir naturalmente o marido que lhe desfrutar o dote.
Conversavam os dois amigos de corao aberto, em voz clara, como quem no se receia de ouvir o eco de seu pensamento; no se lembrando que as folhas das rvores 
tm olhos, e as brisas ouvidos sutis.
Expiravam as ltimas palavras quando soaram distintamente no cho batido do caminho, que lhes ficava sobranceiro, passos de animal. Erguendo os lhos viram a linda 
amazona que passava lentamente de volta de seu passeio.
No abaixou a cabea nem voltou o rosto; mas um olhar cintilou sob o vu espesso, como a luz de um relmpago, e caiu sobre os dois moos, apagando-se logo.
- Ter ouvido? perguntou Fbio rindo.
-  provvel! disse Ricardo com indiferena.
- Nesse caso estamos comprometidos.
- Por que razo?
- Tinha uma idia. O Soares est passando o vero aqui na Tijuca. Sabes, assim no campo, tomam-se relaes com muita facilidade. Queria ver se nos apresentavam sua 
casa.
- Que lembrana! Havamos de fazer uma bonita figura no meio dessa gente que arrota ouro, ns dois pobretes!
- Talvez a riqueza pegue como a lepra!
- Pega; quando se tem mau sangue.
- Mas, fora de graa:  preciso fazermos relaes, adquirir amigos, do contrrio nada alcanaremos.
- No digo o contrrio.
Continuando a conversa, chegaram os dois moos a um pequeno vale escondido entre duas pontas da montanha. Um escasso ribeiro descia em cascata rumorejando por entre 
as pedras, e serpejava  sombra das bananeiras.
No meio do vale havia uma pequena casa cercada por algumas fruteiras.

IV

Por entre duas linhas de cafezeiros aparecia a porta da casa; e em p na soleira, uma velhinha de cabelos brancos em carrapito, com vestido de chita amarelo e um 
leno vermelho de Alcobaa, cruzado ao peito.
Era D. Joaquina Sampaio, tia de Fbio e senhora de pequena propriedade. Passava ela entre todos os parentes como rica, porque possua esses dois palmos de terra 
e uns trs centavos. Com a sua rocinha, como ela lhe chamava, ia vivendo, pobremente sim, mas tranqila e feliz.
Tudo ali era velho: a casa, as rvores, a dona e os escravos. A mocidade s brilhava no renovo das plantas e no semblante dos dois amigos, que passavam habitualmente 
o domingo em companhia da velha.
- Vocs hoje no tm muita fome! disse D. Joaquina apenas avistou os dois moos.
- Ao contrrio, minha tia, tragos duas fomes em vez de uma, respondeu Fbio.
- Pois no parece. J o sol est entrando pela casa, replicou a senhora mostrando a rstia no pavimento da sala.
-  tarde com efeito! disse Ricardo.
O moo levara maquinalmente a mo ao bolso do colete para tirar o relgio; mas reprimiu o movimento involuntrio, enquanto um sorriso triste lhe fugia dos lbios. 
Tivera h dias necessidade de pagar algumas dvidas impertinentes. Era preciso vender o cavalo ou o relgio; preferiu desfazer-se deste ltimo traste. Que lhe importava 
saber com exatido as horas, se elas no lhe traziam nenhuma felicidade?
O almoo era frugal como de costume. Caf com leite muito bem feito, trs pes, um para cada pessoa, e excelentes bananas-mas. Todos os domingos punha-se invariavelmente 
no meio da mesa uma grande manteigueira de loua azul, como era o resto do aparelho. Fbio nos primeiros tempos destampava sem cerimnia a manteigueira e empastava 
a fatia; mas acabou-se a primeira poro e s restava a crosta ligeira que fica aderente s paredes da loua. Ricardo fez-lhe compreender que no deviam se tornar 
pesados  excelente senhora, cuja hospitalidade era oferecida de to bom corao. Desde esse dia a tampa da manteigueira caiu como a lousa de um tmulo, para no 
mais se abrir. Posta no meio da mesa ela no era mais do que um smbolo ou um emblema; atestava a decncia do almoo, pois na opinio da dona da casa no havia mesa 
capaz sem manteiga.
No domingo em que estamos, D. Joaquina fez uma surpresa a seus hspedes. Havia quatro ovos quentes.
- Oh! exclamou Fbio alegremente. A Nanica brilhou desta vez.
- Estes sobraram de uma dzia que estou guardando para tirar uma ninhada.
-  verdade, minha tia. Havemos de fazer uma sociedade para ficarmos ricos de repente. Conheo um americano que inventou uma mquina de chocar ovos...
- J sei; para tirar os pintos sem galinha.
- Ora! Isto no vale nada. A minha mquina  coisa mais sublime; olhe, minha tia: mete-se um ovo, um ovo s. Trs dias depois abre-se a porta da mquina, e enche-se 
a capoeira de galos, galinhas e frangos.
- Grandes?
- Pois ento? Manda-se vender  cidade a primeira capoeira. Mas como as galinhas antes de sarem da mquina puseram l os ovos, e estes j esto feitos galinhas, 
 um no acabar!
A velha ria-se s gargalhadas das pilhrias do sobrinho; e assim iam temperando o almoo com o sal da alegria e do prazer, que  sem dvida o melhor adubo.
A ligao ntima e sincera que havia entre os dois moos era mais do que amizade, era uma afeio fraternal, que o casamento de Fbio e Luisinha devia mais tarde 
consagrar. Pela idade, como pela gravidade do carter e superioridade de inteligncia, Ricardo exercia sobre o amigo a doce autoridade de um irmo mais velho: a 
autoridade do exemplo e do conselho.
Estas relaes tinham comeado havia seis anos na cidade de So Paulo, onde habitava Ricardo com sua famlia. No ano em que o talentoso estudante ia concluir o seu 
curso e formar-se, Fbio, muito mais moo, matriculou-se na faculdade. Apesar dessa circunstncia que os devera separar logo no princpio de seu conhecimento, a 
amizade estreitou-se entre os dois. O meigo sorriso de Luisinha foi naturalmente o fio dourado que teceu essa mtua afeio.
Havia trs meses que Fbio se tinha formado. Para ele o prazer que sempre desperta esse dia no corao do estudante, veio travado de saudades. Sua pobreza no lhe 
permitia realizar o voto mais querido de sua alma; tinha de separa-se de Luisinha, para recolher  corte, ao seio da famlia. Ia trabalhar na esperana de adquirir 
uma posio modesta, mas decente, para oferecer  companheira de sua existncia. Os dois coraes sofreram com a ausncia, mas resignaram-se.
Ricardo de seu lado reconhecera que em So Paulo no poderia, apesar de seu talento, obter os recursos indispensveis para assegurar o futuro da numerosa famlia 
que pesava sobre ele, depois da morte de seu pai. Aproveitando a ocasio, veio com Fbio para a corte tentar fortuna.
Estabeleceram-se ambos como advogados. Obtido o escritrio, posto o nome na porta e feitos os anncios, esperaram pelos clientes. Nos trs meses decorridos conseguira 
Ricardo quatro causas gratuitas, que por grande obsquio lhe arranjara um procurador. Apenas l de tempos a tempos, uma inquirio, ou algum requerimento, ia ajudando 
a compensar  as despesas.
Os dois amigos suportavam sua pobreza nobremente. s vezes Fbio, mais desabusado, sustentava umas idias materialistas, como aquelas que exprimira durante o passeio; 
mas Ricardo, que no transigia em matria de escrpulo e honestidade, combatia tais aberraes do esprito de seu amigo, e destrua a influncia nociva que o mal 
poderoso e laureado exerce sobre as almas cuja tmpera no  bastante forte para resistir-lhe.
A semana passava-se na expectativa ilusria dos clientes que no vinham, ou na meditao de um estudo obrigado e sem estmulos. No sbado, os dois amigos tomavam 
a gndola de Andara, com o fim de aceitar de D. Joaquina uma hospitalidade oferecida com o maior gosto e satisfao. Para a excelente senhora, enterrada viva naquele 
retiro, a chegada de Fbio e seu companheiro era uma visita do mundo quela solido, donde no saa seno de ano em ano. O contato daquela mocidade a remoava; ela 
escutava com admirao a palavra inspirada do talentoso advogado, ou ria das graas do sobrinho.
Ricardo possua em So Paulo um cavalo, o Galgo, ao qual muito se afeioara. Mudando-se para o Rio de Janeiro no se animara a vend-lo; trouxe-o consigo. Ignorava 
quanto  dispendioso na corte o trato de um animal. Sem dvida seria obrigado a separar-se do Galgo, se Fbio no pedisse  tia para conserv-lo na sua rocinha 
da Tijuca. Assim pouco se aproveitava o dono do seu cavalo; porm obtinha conserv-lo, esperando melhores tempos.
Os dois amigos partilhavam igualmente os servios do cavalo, e o Galgo parecia compreender essa comunidade, porque os considerava a ambos como senhores, embora 
respeitasse mais a Ricardo.
No sbado, quando subiam a serra, um por seu turno montava o Galgo, enquanto o outro ia a p com a fresca, at que o cavalo tendo chegado  casa, vinha-lhe ao 
encontro para poupar-lhe um resto de caminho. Na segunda-feira pela manh, voltando para a cidade, revezavam igualmente.
O domingo era repartido da mesma forma: um desfrutava o passeio da manh, o outro o da tarde. Se pois o Galgo descansava durante os quatro dias da semana, nos 
outros fazia sofrvel exerccio.
Fbio, de gnio descuidado e folgazo, s vezes abusava, fazendo proezas com o Galgo; mas Ricardo coibia as travessuras, moderando o ardor do amigo. Disto nunca 
resultava menor desconfiana entre ambos. Nessa boa e verdadeira amizade, um punha em comunho o sorriso, o outro o conselho; um era a alegria e a esperana, o outro 
era a consolao e a f.
Depois do almoo, enquanto a velha foi rezar, como de costume, Fbio tomou a espingarda, Ricardo, sentando-se  janela, abriu o lbum e entreteve-se a desenhar. 
Primeiramente coloriu a figura do pequeno arbusto, parte de memria, e parte  vista do galho que tinha quebrado.
Enquanto se ocupava com esse trabalho, a mente repassava as recordaes da cena recente e da posio em que o surpreendera a moa a cavalo; com estas lembranas 
vinham de envolta as saudade das pessoas a quem amava, e de quem se achava ausente. Quando as veria para contar-lhes todos esses pequenos incidentes de sua vida, 
para referir-lhes essa longa histria de uma esperana to ansiada!
Como no se haviam de rir aqueles entes por quem se estremecia, quando soubesses dos beijos ardentes que ele dera na florinha agreste, e da risada desdenhosa que 
de repente o chamara  realidade!
Passou-lhe pela idia traar o quadro de Guida como ele vira. Sua famlia teria curiosidade de conhecer essa moa de que Fbio naturalmente havia de contar as travessuras. 
Insensivelmente o lpis comeou a traar no papel o primeiro e leve esboo do quadro que lhe ficara gravado no esprito plstico.
Ricardo nunca aprendera desenho com mestres de arte. Sentira em si a intuio da forma, e cultivara essa disposio natural, guiado pelas prprias observaes. No 
teve necessidade de que lhe ensinassem as regras da perspectiva, pois as tinha diante dos olhos nas paisagens que se desdobravam pelas lindas vrzeas de So Paulo.
Deus criou trs linguagens para o artista: a linguagem da forma, a pintura; a linguagem dos sons, a msica; e a linguagem da palavra, a poesia, de todas a mais sublime 
porque fala no s ao corao, como  inteligncia.
Ricardo era um poeta da forma; ele fazia versos com as cores. Suas impresses, debuxava-as sobre o papel em imagens, retratadas ao vivo. Copiava-as da memria, onde 
ficavam estampadas como em uma lmina fotogrfica; depois a imaginao bordava a lpis com essas recordaes algum soneto ou alguma ode, corretos no desenho, brilhantes 
no colorido.
Os contornos gerais do quadro j estavam delineados; via-se em trao quase desvanecido a moldura da folhagem entranada de grinaldas amarelas, a estampa do soberbo 
cavalo isabel, e o lindo perfil da amazona cujo vu se enrolava ao sopro da brisa.
Sentindo que Fbio se aproximava, Ricardo voltou a pgina do lbum e disfarou esboando figuras grotescas em uma folha solta. Se o amigo visse o quadro, adivinharia 
quem era a moa; seria necessrio referir a cena dos beijos. Ora, Ricardo tinha vexame de contar essa infantilidade de seu corao; e sobretudo a Fbio, que ele 
considerava como um irmo mais moo.  sua me no duvidaria contar, em um momento de ternura, e depois de decorrido algum tempo. Um corao de mulher compreende 
certas delicadezas, que parecem ridculas ao esprito de um homem; ainda mais quando esse homem  um moo de gnio prazenteiro, como era Fbio.
O resto do dia passou como de costume, repartido entre a conversa, a leitura, o banho, o jantar, e o jogo da paixo de D. Joaquina, a bisca cega.
 tarde, Ricardo, a quem tocou a vez, arreou o Galgo e foi dar um passeio, enquanto Fbio saa a p sem destino, em busca de alguma companhia para passar a noite.
Seriam 6  horas da tarde. Apenas um doce reflexo de ouro tingia o cume das mais altas montanhas. A suavidade do crepsculo derramava-se na atmosfera.  encantador 
esse adeus do dia quando se despede da formosa serraria da Tijuca. O cu, despindo o fulgor da luz, mostra a limpidez e transparncia do puro azul, seio infindo 
onde a alma se embebe, como o filho no colo materno.
Ricardo vinha entregue ao enlevo da contemplao da tarde, quando ao dobrar uma volta do caminho achou-se diante de um rancho de moas, que andavam passeando. Entre 
todas distinguia-se, pelo talhe esbelto e gracioso, uma, vestida de seda escocesa, desde a botina at as fitas do cabelo.
Diante dela corria, saltando e latindo, uma cachorrinha felpuda, muito alva, com brincos de ouro e uma coleira de veludo; mas apenas percebeu o cavaleiro, atirou-se 
ao Galgo para mord-lo no jarrete.
Ricardo, tendo reconhecido a Guida, sups que a cachorrinha era a mesma da histria contada por Fbio, a Sofia. Mais aborrecido ficou ainda com o impertinente animal, 
que investia furioso contra as pernas do cavalo.
A situao nada tinha de agradvel; o caminho era estreito; de um lado o despenhadeiro, do outro a montanha cortada a pique. O Galgo, fogoso e irritado com a insultante 
ameaa do co, encrespava-se, lanando fogo pelas narinas. Ricardo, excelente cavaleiro, conseguiu dominar o primeiro mpeto, e tocando no chapu, disse para as 
moas que se tinham posto ao abrigo subindo a ribanceira da montanha:
- Acho bom chamar o cozinho!
A Guida deu um estalo com os dedos:
- C, Sofia.
- Deixe! disseram as outras rindo.
Pensavam que Ricardo tinha medo do cavalo, e queriam divertir-se com a queda. No se lembravam, que naquele lugar,  borda de um despenhadeiro, podia ser fatal.
Sofia ouvira a voz da senhora; mas, com o seu privilgio de co mimoso desobedeceu; e investiu contra o Galgo com maior sanha. Ela estava acostumada quele brinquedo; 
j tinha mordido o jarrete de muitos cavalos, atirando ao cho os cavaleiros, para divertimento da senhora e suas amigas.
Ricardo vendo a inutilidade de sua recomendao, deu largas  clera do Galgo. O brioso cavalo juntou, e atirando-se para a frente de um salto, arremessou o coice. 
A cachorrinha foi cair no fundo do precipcio, sem tempo sequer de soltar um gemido de dor.
- Sem dvida morreu! disse uma das moas.
Passando pelas senhoras, Ricardo cortejou:
- Queiram desculpar, minhas senhoras; este cavalo  um provinciano; ainda no tem maneiras cortess.
 noite, antes de dormir, Fbio dava risadas gostosas ouvindo o episdio do passeio.

V

Decorreu mais de um ms.
Durante esse tempo Ricardo passou com seu amigo trs domingos na Tijuca. De cada vez o acaso o fizera encontrar a Guida quando mal pensava.
A primeira vez foi na manh do domingo que seguiu-se s cenas referidas.
Ricardo sara no Galgo a passeio. Tomando para o lado da cascatinha, que as chuvas dos ltimos dias tinham enriquecido, lembrou-se o moo de subir at a Floresta, 
um dos mais lindos stios da Tijuca. O nome pomposo do lugar no  por ora mais do que uma promessa; quando porm crescerem as mudas de rvores de lei, que a pacincia 
e inteligente esforo do engenheiro Archer tm alinhado aos milhares pelas encostas, uma selva frondosa cobrir o largo dorso da montanha, onde nascem os ricos mananciais.
Viva a imagem da loucura humana! Refazer  custa de anos, trabalho e dispndio de grande cabedal, o que destruiu em alguns dias pela cobia de um lucro insignificante! 
Aquelas encostas secas e nuas, que uma plantao laboriosa vai cobrindo de plantas emprestadas, se vestiam outrora de matas virgens, de rvores seculares, cujos 
esqueletos carcomidos s vezes se encontram ainda escondidos nalguma profunda grota. Veio o homem civilizado e abateu os troncos gigantes para fazer carvo; agora, 
que precisa da sombra para obter gua, arroja-se a inventar uma selva, como se fosse um palcio. Ontem carvoeiro, hoje aguadeiro; mas sempre a mesma formiga, abandonando 
a casa velha para empregar sua atividade em construir a nova.
Ricardo pensava pouco mais ou menos nesse sentido, enquanto ganhava a ponte da Cascatinha, com inteno de subir at a Floresta. Mas essas preocupaes se desvaneceram 
completamente diante do quadro arrebatador que se oferecera a seus olhos.
Brancos lenis de espuma se desdobravam pelas escarpas do rochedo, como as pregas de alvo manto flutuando sobre as espduas de Agar, a africana. A vegetao se 
debruando de um e outro lado, derrama sobre a cachoeira uma sombra doce, que torna mais negra a pedra e mais cndida a espuma.
H cascatas muito mais ricas e abundantes do que essa, no s na grande massa das guas, como na vastido e aspereza dos penhascos. Tm, sem dvida aspecto mais 
soberbo e majestoso; inspiram nalma pensamentos mais graves e sublimes.
A Cascatinha da Tijuca, porm, prima pela graa; no  esplndida,  mimosa; em vez da pompa selvagem respira uma certa gentileza de moa elegante; bem se v que 
no  uma filha do deserto; est a duas horas da corte, recebe freqentemente diplomatas, estrangeiros ilustres e a melhor sociedade do Rio de Janeiro.
Assim no se despenha ela com a fria de uma serpente, mas com a indolncia com que uma senhora da moda se derreia no recosto do div.
Sua voz no  um trovo, mas um rumorejo que embala docemente o corao. Perto dela sente-se no ar o hlito fresco das guas que se esfrolam, e no a constante neblina 
produzida pelos borbotes que se desfazem em p com a violncia do choque.
O jovem advogado tinha contemplado muitas vezes a Cascatinha, e at j possua em seu lbum uma aquarela da formosa paisagem; mas nunca a vira to abundante dgua, 
to enfeitada e casquilha. Projetou voltar a p, depois do almoo, para tirar outra vista. Assim teria a Cascatinha em traje de festa e em desalinho.
Uma voz soou a pouca distncia:
- Oh! beautiful! Very beautiful!
Ricardo estava no centro da ponte, com o cavalo atravessado, para ver de frente a Cascatinha. Conhecendo que outras pessoas se aproximavam fez voltar o animal para 
dar-lhes passagem. Este movimento colocou-o em face de Guida, que chegava.
A moa tinha o mesmo traje de amazona que no domingo passado; mas em vez de serem de camura amarela as luvas eram de peau de Sude cor de castanha e o chapu de 
palha arroz com um vu branco. Salvas essas ligeiras modificaes do vesturio, que naturalmente escaparam aos olhos do moo, era a cpia viva do quadro, que lhe 
aparecera  borda do caminho, oito dias antes. A moldura sim, era diferente; os flores dourados dos corimbos da aroeira foram substitudos pela negra e musgosa 
cercadura do rochedo.
Os olhos de Guida e Ricardo se encontraram.
Reconhecendo-a, o moo envolveu-a com o olhar, um desses olhares ardentes e profundos, que embebem em si os objetos, como um molde, para depois vaz-los dentro dalma. 
Olhar de poeta ou de artista, que esculpe na memria esttuas, os relevos e arabescos da natureza; donde os copia depois a imaginao em poemas, em harmonias, em 
raios de luz. Esse olhar tem alguma coisa do cinzel que talha, e da lava ardente que se coalha e vitrifica sobre os objetos.
Guida, que trazia nos lbios o sorriso gracioso, perturbou-se, e desviou a vista corando. Pareceu-lhe descobrir naquela expresso estranha do olhar de Ricardo uma 
exprobrao pela cena do domingo anterior.
Conhecendo que tinha vexado a moa, Ricardo arrependeu-se do seu movimento de curiosidade artstica. Da ltima vez que estivera na Tijuca desenhara de memria a 
cena do seu primeiro encontro com Guida; julgou porm impossvel dar  figura da moa os traos da fisionomia encantadora, que ele apenas vira to de relance. Oferecendo-se 
essa ocasio de ver Guida de mais perto e demoradamente, quis decorar-lhe as feies.
A delicadeza dalma do advogado compreendera o acanhamento da moa, embora o atribusse a causa diferente. Por isso cuidou em afastar-se dali. Fazendo o Galgo 
voltar sobre os ps, cortejou de longe e subiu na direo da Floresta.
Durante esta rpida cena, Mrs. Trowshy, enlevada diante da cascata, no cessava de expandir a sua admirao em exclamaes patticas, semelhantes s que lhe ouvimos 
em princpio. A potica imaginao da inglesa quis infundir um raio do seu entusiasmo no companheiro, o nosso conhecido Sr. Daniel; mas perdeu seu tempo: o portugus 
era feito de msculo e osso; por conseguinte impenetrvel  poesia, como um capote de borracha  impenetrvel  gua.
Foi no momento de afastar-se, que a inglesa reparou no moo:
- Este no  o sujeito que ia matando Sofia? perguntou em ingls.
- Creio que !
- Que monstro! exclamou Mrs. Trowshy, com o horror que lhe inspiraria um tigre.
- Ele no teve culpa. Depois  que vi; podia o cavalo atirar-se no despenhadeiro.
- Era bem feito; para que anda em um cavalo to fogoso?
- Mas  muito bonito! No acha, Mrs. Trowshy?
- Oh! No tem comparao com Edgard!
- Edgard  um cavalo de preo, um cavalo de raa; tem a estampa mais vistosa e elegante; porm acho o outro mais bonito! Olhe a graa dos movimentos. Como  vivo 
e faceiro! Como brinca! Est-se vendo a alegria nos seus olhos, e no garbo com que move o pescoo.
Guida falava seguindo com o olhar o Galgo que subia o primeiro lano da escada.
- Se no possusse esse lindo isabel, havia de ach-lo magnfico!
- Ora, Mrs. Trowshy! No  por isso. Acho Edgard esplndido, incomparvel: tudo que a senhora quiser; mas no gosto desta frieza; um cavalo que no sabe brincar, 
sempre grave e empertigado como um ministro em audincia.
- Dobrando o segundo lano da estrada em ziguezague, viu Ricardo que a moa tomava a mesma direo; naturalmente ia como ele at a Floresta, ou mais acima ao pico 
da montanha que tem a forma e o nome de Bico do Papagaio.
Essa coincidncia incomodou o jovem advogado. Por qu? Se tivesse de explicar, naturalmente no lhe acudiria a razo e por uma circunstncia muito simples, porque 
no existia. Com efeito no fora um motivo distinto, suscetvel de apreciao, o que atuara em seu esprito; porm unicamente certas repugnncias que s vezes despertam 
em nosso esprito a respeito de um fato.  uma espcie de antipatia.
A possibilidade de sucessivos encontros, a facilidade de se verem de longe, subindo os lanos da estrada em ziguezague e, finalmente, essa comunidade de passeio, 
embora fortuita, todas essas circunstncias confusas, indistintas, calaram no nimo de Ricardo uma sbita contrariedade. Refletiu que a Floresta era distante, e, 
a no ir de corrida, chegaria tarde para o almoo; ora, passear, para ele, no era correr e sim contemplar.
O resultado dessas reflexes foi apear-se o advogado e puxar o cavalo para uma vereda que vai ter ao cimo da cascata. A oculto pela folhagem ouviu o tropel dos 
animais que passavam. Quando presumiu que j estivessem bem longe, tornou a cavalgar, e descendo o caminho da Cascatinha, foi acabar o seu passeio interrompido na 
bela estrada que vai ter ao Jardim Botnico.
Fbio esperava-o para o almoo, deitado em uma esteira no terreiro da casinha, enquanto D. Joaquina andava apanhando umas goiabas maduras para a merenda. O praticante 
de advocacia tinha brilhado naquele dia: empregando a manh na caa de passarinhos, trouxera uma dzia de rolas, que chiavam no espeto, trescalando perfumes estranhos 
naqueles lares acostumados s refeies frugais.
O outro encontro fora no mesmo lugar da primeira cena.
Subia Ricardo a p, e tomara involuntariamente, pela fora do hbito, o caminho que seguira da vez passada. Chegando ao ponto onde estivera desenhando sobre a grama, 
procurou o arbusto, que ainda estava coberto dos seus botes de ouro; apenas duas flores desabrochadas brilhavam sobre o ramo verde-escuro.
Notou o moo que junto  planta estava o cho pisado por casco de cavalo; mas no deu grande ateno a essa circunstncia, to vulgar em um stio onde freqentemente 
andam animais soltos.
Abriu o lbum na pgina em que desenhara a cena do primeiro encontro da moa; e cotejando-a com o stio, corrigiu alguns traos do arvoredo, no porque lhes prejudicassem 
a beleza do quadro, mas por um capricho de artista. A paisagem era uma cpia e no uma fantasia; queria que fosse o mais exata possvel.
Tinha concludo esse trabalho e estava examinando os botes de ouro e as flores abertas, quando repercutiu o tropel de uma cavalgata. Eram com efeito diversas pessoas, 
senhoras e homens, que iam de passeio, rindo e conversando.
Fitando os olhos no caminho, Ricardo viu a Guida, que tambm o percebera. Ou fosse espanto de Edgard, ou descuido da gentil amazona no governo das rdeas, ou qualquer 
outra circunstncia, o lindo isabel ao passar em frente ao moo tinha-se desviado do caminho, penetrando no mato, com direo ao arbusto.
Descobrindo porm o moo, Guida com sua habitual destreza corrigiu o desvio do cavalo, e fustigando-o com um movimento de contrariedade, ganhou a frente da cavalgata, 
que desapareceu num turbilho de poeira.
- E a flor, Guida? perguntou uma das moas.
- No achei!
Ricardo compreendeu ento o movimento da elegante amazona e a circunstncia que a princpio notara de rastos de cavalo junto ao arbusto; a ferradura inglesa fina 
e um tanto oval estava denunciando a pata aristocrtica de Edgard.
Pensou que a filha do milionrio tambm gostava da linda flor agreste. E quem no se agradaria daqueles aljfares graciosos? Para ela sobretudo deviam ser de um 
encanto especial; no tinham a cor do ouro, essa cor sedutora que a natureza destinou para o sol e o dinheiro, os dois clares que deslumbram, um a vista, outro 
a alma?
Naturalmente a moa j conhecia a flor antes do primeiro encontro; passando procurava-a com os olhos, quando o descobriu, a ele Ricardo, na posio ridcula de um 
namorado de novela antiga, beijando o cravo que lhe atirou da janela a dama dos seus pensamentos.
Agora a Guida encaminhara o cavalo para o arbusto a fim de colher um ramo; mas avistando o importuno passeador, desistiu, disparando a galope.
- Esta moa, disse Ricardo rindo-se interiormente, h de me considerar como uma espcie de borboleta preta!
Depois do almoo, estando o sol muito quente, Fbio deitou-se a ler no quarto, e Ricardo, tomando a sua caixa de tintas, foi trabalhar junto  janela. Continuou 
a colorir o quadro que representava a Guida, e cujos traos ele havia corrigido pela manh. As feies da moa, se no eram de uma semelhana perfeita, recordavam 
sem dvida a gentileza de sua fisionomia.
Seriam onze horas do dia; fazia uma calma abrasadora. D. Joaquina e as pretas estavam recolhidas l para o interior; Fbio, contra o seu costume, lia to placidamente 
que causava suspeitas. Tido na casa estava em silncio. Fora, o Galgo tosava uns tufos de capim melado; e a Nanica ciscava no terreiro em companhia de um galo 
e de um pinto.
A janela junto da qual trabalhava Ricardo, era de tacania, onde havia sombra; da no se enxergava a frente da casa, nem a rua de cafezeiros e abacates que ia dar 
 cancela da estrada; por isso no pde ele ver um grupo de cavaleiros que, parados no caminho, espiavam para descobrir alguma pessoa da casa.
Afinal avistaram uma das pretas velhas que sara a apanhar gravetos para o fogo.
- Vem c, me; voc nos d um pouco dgua? disse um dos cavaleiros.
- Sim, meu senhor; pode entrar, respondeu a preta velha abrindo a cancela.
Os cavaleiros invadiram a propriedade de D. Joaquina;  a maior parte porm ficou  sombra das rvores; apenas alguns mais impacientes se aproximaram da porta, a 
fim de esperar a gua. Essa impacincia no era produzida tanto pela sede que eles tinham, como pelo desejo de cada um ser o primeiro a servir uma linda amazona, 
que esperava  sombra de uma laranjeira.
- Duvido que a tal velha tenha gua bastante para matar a sede de tanta gente! observou um cavaleiro.
- Felizmente o rio passa perto.
- O melhor  irmos logo a ele; que dizes, Guimares?
- Que espcie de copo nos trar a preta? Aposto que alguma xcara!
- gua em xcara!
- Senhores, esta casa est bem boa para uma fogueira de S. Joo. No acham?
-  mais velha que a Tijuca.
- Quem morar aqui?
- Alguma velha caraa do sculo passado.
- Segundo tomo da sujeita dos cambucs!
Estes ditos mais ou menos chistosos, entremeados de risos, eram proferidos com inteno de divertir a gentil amazona. Mas esta, inteiramente distrada, estivera 
olhando com ateno o Galgo que se aproximara da cerca do pasto, apenas percebera a chegada dos outros animais; depois examinara a casa com uma expresso de surpresa 
desagradvel.
O cavalo, sentindo as rdeas frouxas, andara alguns passos, o que o aproximara do canto da casa. Os olhos da moa caram sobre a janela, junto  qual Ricardo estivera 
trabalhando. O lbum aberto ficara encostado  ombreira onde o desenhista o pusera para secar as tintas, antes de dar-lhe os ltimos toques. No aparecia o busto 
do moo; ao rumor das vozes na porta tinha-se ele voltado, e procurava distinguir a fala das pessoas.
O primeiro movimento da menina foi recuar o cavalo; porm seu olhar tinha descoberto na pgina aberta do lbum a paisagem recentemente pintada. Ela teve um pressentimento; 
e correu a vista rpida por seu talhe, verificando a semelhana que do primeiro relance se lhe afigurava.
Era o mesmo roupo verde-escuro, o gracioso chapu de castor cor de prola, e as luvas de camura amarela. A estampa de Edgard completava a sua figura de amazona.
Nesse momento Ricardo, erguendo-se, descobriu o vulto da moa; ela corou reconhecendo a sua indiscrio; mas no obstante, um olhar afouto interrogou o semblante 
do advogado, fitando-se alternadamente nele ou na paisagem
Ricardo cortejara polidamente a moa, mas com esse movimento chegou-se quanto pde  janela, e disfaradamente ocultou o lbum.
- Estamos esperando a gua que foram buscar! disse a voz maviosa de Guida, como uma desculpa, ou um pretexto para sair da situao em que o acaso a colocara.
- Ah! com muito prazer.
Voltando o lbum com o movimento que lhe imprimira furtivamente o brao, Ricardo colocou-o fechado sobre a mesa e recolheu-se ao interior para mandar trazer a gua. 
Tudo isto foi executado de modo que se observaram as delicadezas devidas a uma senhora.
Guida, apesar da curiosidade imensa que tinha de ver a aquarela, se afastara modestamente.
Molhou os lbios no copo dgua que lhe apresentou um dos cavaleiros; e lanando um ltimo olhar  velha casa e s velhas rvores que a rodeavam, partiu a todo galope. 
Debalde os companheiros de passeio se esforaram por alcan-la.
No domingo seguinte, voltando Ricardo da Vista Chinesa, soltara as rdeas ao Galgo que esticava os msculos em um galope ligeiro.
De repente o animal retraiu as orelhas finas e vivas; tinha ouvido o tropel de outro animal, que vinha atrs a alguma distncia, e tambm de galope. Pouco depois 
a estampa elegante de Edgard alongou-se pelo lado direito, e a Guida passou rapidamente voltando-se para ver se o cavaleiro a seguia.
O Galgo aceitando o desafio que Edgard lhe tinha lanado na passagem, juntara para arrojar-se avante como uma flecha; mas a mo firme do cavaleiro o sofreara, 
privando-o do prazer de dar uma lio ao fidalgo.
Era a quinta vez que Ricardo inesperadamente, por uma singular combinao do acaso, encontrava aquela moa. A Tijuca no  muito extensa em verdade; mas oferece 
vrios passeios e tem caminhos desencontrados. Entretanto, em direes opostas, em horas diferentes, com intervalos desiguais, uma coincidncia estranha aproximava 
os dois desconhecidos.
- Se eu fosse algum dos muitos apaixonados que h de ter esta moa, dizia Ricardo consigo e continuando o seu passeio, havia de empregar os maiores esforos para 
preparar estes encontros casuais; andaria de relgio na mo, espiando a hora em que ela costuma sair de casa, estudando o programa habitual de suas excurses, a 
direo que toma freqentemente. E apesar de tudo isto, e das boas corridas que daria a cavalo, muitas vezes havia de perder o meu tempo e a minha pacincia. Entretanto 
eu, que j no possuo relgio, que tenho apenas uma metade de cavalo, que saio de casa sem me lembrar de semelhante moa, no venho mais  Tijuca um s dia, que 
no a encontre uma e duas vezes. Caprichos da fortuna!
O moo conjeturou que a mestra e o criado, comitiva habitual da filha do milionrio, tinham ficado atrs, e talvez a grande distncia. A Guida naturalmente seria 
obrigada a esper-los; e portanto teria ele um segundo encontro.
- Nada! pensou ele; e parou  sombra de uma rvore.
Mas a inglesa e o seu companheiro no apareciam; os minutos corriam; e Ricardo, surpreso, no sabia o que pensar, repugnando-lhe admitir a possibilidade de andar 
a moa sozinha por aqueles stios desertos. Teria decorrido um quarto de hora quando ressoou do lado oposto o galope do cavalo.
- Querem ver que  ela que volta? No h dvida!
Era Guida com efeito; tendo passado o cavaleiro, estimulada pelo prazer vivo da equitao, arrependeu-se de haver deixado to distantes os seus companheiros. Resolveu 
esper-los. Naturalmente o moo no tardaria a passar; aquele encontro, num ermo, a incomodava; mas ela j o conhecia como um homem delicado; demais a mestra no 
podia estar longe.
A demora inquietou-a. Temeu que alguma coisa houvesse sucedido a Mrs. Trowshy, e que ento se achasse realmente s naquela solido. J no era de Ricardo que se 
receava, mas do isolamento.
Por isso retrocedia de corrida a caminho percorrido.
Ricardo, apenas se persuadiu que era com efeito a moa, disparou a galope na direo da Vista Chinesa, a ver se escapava a novo encontro. Chegando  Mesa, viu 
Mrs. Trowshy sentada ao lado do Sr. Daniel conversando com o maior sossego.
O advogado passou como um raio, o que fez a inglesa fingir um desmaio, imaginando algum jovem salteador que a vinha raptar. O Sr. Daniel assegurou-lhe que os salteadores 
da Tijuca, chamados quilombolas, furtavam bananas, galinhas e outras coisas leves, mas no inglesas que pesassem dez quintais portugueses.
Nesse dia Ricardo chegou tarde para o almoo; mas livrou-se de segundo encontro.

VI

Do lado que olha para o mar, a Serra da Tijuca apresenta um aspecto muito diferente. As encostas que descem para o Andara, como os vales e eminncias que se encontram 
pelo dorso da montanha, tm a fisionomia risonha e pitoresca; so ondulaes amenas ou recortes caprichosos, que deleitam a vista.
Na outra face, a natureza  agreste; dir-se-ia uma terra convulsa. O fogo subterrneo ferveu nas entranhas da terra, e rasgando-lhe os flancos, arremessou aqui e 
ali pelas encostas aqueles enormes calhaus ou macios de rocha, fragmentos da primeira carcaa do globo.
A superfcie da terra conserva ainda um aspecto combusto e rido; v-se que por a passou a lava em tempos remotos. De espao a espao o trabalho do homem cobriu 
a encosta da montanha de plantaes; mas entre esses pontos cultivados destaca-se ainda mais a bronca aspereza dos stios agrestes.
No domingo em que estamos, Ricardo dirigiu o seu passeio a p para aquelas bandas. J tinha algumas vezes feito essa excurso at a Cascata Grande, um dos pontos 
mais freqentados pelas pessoas que passam o vero na Tijuca; naquele dia porm tencionava ir mais longe, at a habitao de uma pobre gente, conhecida de D. Joaquina, 
e s vezes por ela socorrida em suas misrias. O saquinho da boa velha, apesar de escasso, tinha sempre uns vintns para as esmolas do sbado.
Justamente na vspera, D. Joaquina recebera por intermdio de algum quitandeiro um recado da pobre gente e exprimira a inteno de mandar-lhe qualquer pequeno socorro, 
como costumava. O advogado lembrou-se disso, quis dar a seu passeio um fim caritativo; tinha na vspera recebido dez mil-ris, como honorrio por um requerimento. 
Estava rico; podia pois aliviar dessa vez o saquinho de D. Joaquina daquela despesa.
Com este pensamento tomou s seis horas da manh o caminho da Barra.
A, prximo  Restinga, havia ento, e talvez ainda exista, uma cabana coberta de palha de sap, com paredes de emboo. Em muitos lugares porm tinha cado o barro, 
deixando entre as varas grandes buracos, tapados com ramas secas.
Esta choa miservel ficava a algumas braas do caminho. Para chegar  porta, Ricardo tomou uma vereda que rodeava uma quebrada de terreno. Estendida em varas via-se 
a enxugar alguma roupa de chita e algodo, muito bem lavada, mas aberta em crivo de to gasta e rasgada que j estava. Sobre o capim do terreiro estava emborcada 
alguma pouca loua branca de beira azul, uma panela, uma frigideira e uma colher de pau.
Esse terreiro era, no chovendo, a lavanderia, a copa, a cozinha e a sala da pobre gente. A choa tinha apenas um compartimento, onde se acomodavam Simo, a mulher, 
e trs crianas.
Esse homem sustentava sua famlia com o produto da pescaria e de uma pequena plantao de bananas; assim iam vivendo pobremente, mas sem grandes privaes, quando 
de repente tudo comeou a desandar. O peixe fugia da tarrafa do pobre Simo; as bananeiras comearam a mirrar; e at os ovos da galinha goravam ao menor ronco da 
trovoada.
O pescador era homem ativo, incansvel no trabalho, porm carter dbil, que desanimava com os reveses. As contnuas decepes o acabrunharam; caiu em uma prostrao 
moral, muito mais perigosa do que a enfermidade do corpo. Convenceu-se de que o seu infortnio era um castigo do cu por algum pecado que cometera; e resignou-se 
a sofrer sem lutar.
- No se resiste a Deus, mulher! dissera ele.
A Gertrudes porm atribua a desgraa ao quebranto que algum invejoso deitara  sua casa. Ela se lembrava que um dia passara por ali e pedira gua um ingls muito 
magro, sem dvida chupado pelas almas do outro mundo. Desde esse dia tudo andava s avessas, dizia a mulher; porque o sujeito saindo zangado com o pequeno que o 
chamara de gooden, deitara  casa uma figa.
Entrando na choupana, viu Ricardo o Simo deitado em uma esteira sobre a cama de varas da altura de um palmo apenas. A magreza extrema, a atonia e lividez do semblante, 
estavam indicando uma molstia grave. A mulher, sentada defronte em um toco de pau, cismava na sua vida enquanto descansava um momento da lida de cada dia. Era ela 
quem valia agora  desgraada famlia com seu trabalho e sua diligncia.
- Ento que  isto? disse o moo correndo os olhos do marido  mulher.
- O Simo anda bem doente!
- Que tem?
- Nada, nada, meu senhor. Isto vai assim mesmo at acabar de uma vez.
A mulher levantou os ombros:
- Ningum lhe tira aquilo da cabea.
- Mas o que sente? perguntou Ricardo ao doente.
- Eu sei!
-  assim uma fraqueza, que j nem se pode levantar, respondeu a mulher. H uma semana que est a, nessa cama, que nem ata, nem desata.
- No tem tomado remdio?
- Que h de tomar, meu senhor?
Ricardo achou-se embaraado na resposta; nada absolutamente entendia de medicina, cincia alis em que todos arranham seu tanto. Tirando da carteira uma nota de 
dois mil-ris, p-la na mo da mulher do pescador.
-  D. Joaquina que lhe manda!
- Deus lhe h de pagar a ela as esmolas que nos tem feito, disse a Gertrudes.
- E como vo agora? Tm sido mais felizes?
- Qual, meu senhor! O quebranto no nos deixa. A pescaria... no se fala; depois que Simo caiu de cama, ainda eu fui deitar a rede com o pequeno; mas   toa! As 
bananeiras enfezaram de uma vez. Se no fossem uns pintos... Que para bem dizer no foram os pintos, mas a cachorrinha. Se no fosse isso, a gente j estava morta 
de fome.
- Ento sucedeu-lhe alguma coisa boa? Sinal de que a fortuna est voltando.
- Foi boa e foi m; porm no final de contas saiu pelo melhor. Imagine o senhor que a muito custo eu tirei uma ninhada de pintos, que estavam-se criando muito espertinhos. 
Sempre eram uns cobrinhos... Mas um dia apareceu aqui uma moa a cavalo, bem vestida, com uma velha gorda e mais um portugus que  um espirro de gato. Eles j tinham 
passado na vspera e estiveram falando com o pequeno. Ento salta do colo da moa uma cachorrinha, e vai-se aos pintos e mata a todos, um por um.
- Uma cachorrinha branca felpuda, que tem brincos de ouro?
- Isso mesmo. O senhor conhece?  muito bonitinha; mas tambm nunca vi uma demoninha assim.
- Ento matou-lhe os pintos?
- Um por um. E a moa ria que era um gosto, dando estalinhos nos dedos; mas depois que a cachorrinha acabou de matar os pintos, ento a senhora ficou muito zangada 
e ralhou bastante com ela. Disse que tinha pena do que sucedera, e mandou entregar a Simo um dinheiro para pagar os pintos. Foi dinheiro que chegou para a gente 
viver at agora.
- E depois? A moa?
- Esteve atirando no capim umas moedinhas de prata; a cachorrinha de aposta com os pequenos corria para apanhar: aquele que achasse ganhava. Uma vez o Pedrinho quis 
tomar da cachorrinha; mas ela ia mordendo-o na mo. Se no fosse a moa que acudiu to depressa com o chicotinho!
Enquanto Ricardo conversava com a Gertrudes, e o Simo ouvia mergulhado no mesmo torpor, dois meninos e uma menina, acocorados a um canto, cochichavam entre si. 
A penria tinha apagado naquelas crianas a vivacidade natural da infncia. Havia no seu gesto e semblante um espasmo de tristeza, que afligia.
Enfiando a vista pelo buraco da parede, as crianas se agitaram com certa curiosidade tmida, despertada por alguma coisa que tinham visto. O rumor de passos de 
animais indicava a chegada ou passagem de pessoas a cavalo.
- Mame! disse uma das crianas.
- A moa!... acrescentou a outra.
Gertrudes reclinou-se, para estender a vista pela abertura da porta. Ricardo imitando seu movimento reconheceu Guida, acompanhada pela habitual comitiva.
O moo ergueu-se contrariado.
- Adeus. Voltarei depois.
- No quer ver a moa? Ela  bem bonita.
- J a conheo; e por isso no quero que me encontre aqui. Sairei pelo fundo.
- Mas ento o melhor  ficar aqui dentro porque ela no se apeia.
Nisto a Gertrudes que se chegara  porta voltou ao moo:
- Ora, est vendo! Que artes desta moa!
A Guida tinha dirigido Edgard para o lugar onde estava a secar a mesquinha loua da pobre gente, e o elegante cavalo divertia-se em espedaar desdenhosamente com 
a pata cada um dos pratos.
Os meninos assistiam  cena admirados; Guida ria-se como uma criana; a inglesa despedia da garganta uma cascata de ohs! e o Sr. Daniel impassvel estava mentalmente 
calculando o custo da loua quebrada.
Ricardo viu esta cena pelas fendas da choupana. Quando no houve mais nada a quebrar, Guida, sofreando com fora o cavalo, exclamou com um fingido assomo de mau 
humor:
- Este cavalo  insuportvel! Est sempre fazendo destas! No posso mais atur-lo!
A mozinha afilada virou o chicote com fora. Edgard saindo se sua habitual impassibilidade, comeou a pinotear, o que espalhou a mestra, o portugus e as crianas 
cada um para seu lado. O resultado dessa escaramua foi atirar ao cho a vara da roupa, que o lindo isabel despeitado pisou acabando de esgarar com os cascos aqueles 
andrajos.
- Tome, Daniel, d a esta gente:  para pagar o estrago que fez o cavalo.
A Guida tirara de uma carteirinha de tartaruga uma nota de cinqenta mil-ris.
- Mas agora me lembro: talvez eles no tenham loua para comer hoje. Mande o moleque comprar!
- No  muito, senhora?
- Sr. Daniel, eu no pedi a sua opinio.
O Daniel abaixou a cabea.
- Onde est sua me? perguntou a moa a uma das crianas.
- Estou aqui, senhora dona.
- J sabe o que fez este cavalo mal-educado?
- Vi, sim senhora. Foi como da outra vez a cachorrinha com os pintos!
-  verdade! Fiquei depois to arrependida de a ter trazido!
Mrs. Trowshy atalhou em francs, com um olhar de exprobrao:
- Allez! Vous lavez fait exprs, par mchancet!
- Mais non! Disse a Guida sorrindo; e voltou-se para continuar a conversa com a mulher.
- Sabe? A Sofia depois daquela travessura quase morreu!
- De qu, gentes!
- Quis morder o cavalo de um moo que passava, e levou um coice que a atirou da montanha abaixo.
- Jesus!
- Foi bem feito para no ser to travessa. Ainda est de cama.
-  como o meu companheiro. Vive ali espichado, que no se levanta mais.
- Ah! Seu marido est doente? De qu?
- Ningum sabe; depois que o peixe lhe fugiu da rede, comeou assim a desandar.
- Onde est ele? Chame-o.
- Qual! No pode consigo.
- Chame sempre.
O Simo a custo arrastou-se at a porta da choupana.
- O senhor amanh h de levar peixe em nossa casa. Olhe l.
- O peixe conhece as minhas tarrafas!   toa.
- Ver. Eu sou muito feliz; obtenho tudo que desejo. Basta que eu lhe encomende o peixe, para o senhor tirar a rede cheia.
- Mas  castigo, senhora.
- Castigo de estar a deitado, sem fazer nada, enquanto a pobre da mulher de amofina de trabalhar.
- Mas ele est doente! acudiu Gertrudes.
- Doente de manha!
Guida lanou o cavalo contra o pescador, que, vendo-se ameaado pelas ferraduras de Edgard, arrancou-se  prostrao para recuar de um salto, com uma rapidez alis 
desnecessria, porque a mo firme da moa obrigara o cavalo a girar sobre os ps.
- No v como ele salta? disse Guida soltando uma risada. Que vergonha! Curtindo a preguia enquanto os filhos e a mulher no tm o que comer!
A moa chamou o menino mais velho:
- Venha c, menino. Amanh tome a rede e v pescar, j que seu pai de nada serve.
O pescador deu no ar um safano; apanhou a tarrafa ao canto e foi resmungando estend-la na cerca ao lado da choupana; Daniel chegou-se a ele para tratar a respeito 
da loua quebrada; e a Guida despedindo-se partiu com a mestra.
Ricardo do interior da choupana ouvira todas as palavras da moa, e por vrias vezes enfiando os olhos entre as fendas da taipa, estudara a expresso daquela fisionomia 
encantadora, que lhe aparecia ento como uma espcie de mito.
Havia com efeito nas aes e nas palavras da moa alguma coisa de estranho e confuso, que escapava  compreenso do jovem advogado, alis esprito profundo e observador. 
A volubilidade do pensamento, saltando dos gracejos infantis s coisas mais srias; o estouvamento que se notava em certas ocasies, para logo ceder  reflexo; 
e finalmente as liberalidades com que ela desculpava suas travessuras, davam a essa fisionomia moral um carter vago e indeciso.
Era um esprito leviano ou sensato? Era um bom ou mau corao? Ou seria acaso uma e outra coisa: a luta perigosa da alma na transio da infncia  juventude? Nessa 
crise surgem as paixes, que sopitam s puras crenas e as iluses da inocncia. Se a alma tem para ampar-la a educao e os germes de s , oral, sai triunfante 
da luta: a virtude coroa a inocncia. Se porm o corao no  defendido nem pelo princpio, nem pelo exemplo, sucumbe; e a flor da mocidade quando brota da infncia, 
vem j eivada.
 noite, quando conversavam esperando o sono, Ricardo disse a seu amigo:
- Sabes, Fbio! Aquela Guida assim mesmo no  to m, como ns pensvamos.
- Por qu?!
- O advogado referiu a cena a que assistira pela manh, e o que anteriormente lhe contara a Gertrudes.
- O que pensa disso ento?
- Penso que no meio das travessuras desta moa h um escrpulo de conscincia, direi mesmo, um fundo de bondade. Estouvada, como , no pode resistir  vontade de 
brincar, e faz coisas de que logo se arrepende; mas esse arrependimento pelo menos  generoso. Assim as faltas que ela comete so ocasies para uma liberalidade, 
que talvez nunca lhe inspirasse espontaneamente o sentimento de caridade.
Fbio, que no apreciava as demonstraes fisiolgicas, tinha adormecido.

VII

No prximo domingo, Ricardo montado no Galgo descia da Pedra Bonita, para onde naquela manh dirigia o seu passeio.
A Pedra Bonita  uma rocha que se levanta sobre um cabeo de montanha como um gorro de granito. Da, dessa atalaia das nuvens, goza-se uma vista soberba sobre o 
mar, e v-se de perto o enorme cesto da Gvea, habitualmente cingido de vapores.
Como todos os belos stios da Tijuca, a Pedra Bonita  muito freqentada pelos filhos da loura lbion, incansveis exploradores desse belo arrabalde do rio de Janeiro. 
Contam que um ingls a se perdera, ficando sobre o gigantesco pedestal de rocha, elevado  condio de esttua, durante  trs dias, sem comer nem beber. Foi-lhe 
o penedo o contrrio do outeiro da Ilha dos Amores: mais fcil de subir que de descer.
Tambm contam que nessa pedra, ou em outra que demora na mesma altura, entre as nuvens, algumas senhoras tendo l subido foram obrigadas, para descer, a tirar os 
bales. O vento engolfando-se nas armaes, ameaava arrebat-las  terra, levando-as de uma vez ao cu, pelo caminho do mar.
Os ingleses herdaram dos jesutas um stimo ou oitavo sentido, que possuam em alto grau aqueles mestres da vida:  o sentido da higiene. Por onde passou a poderosa 
companhia, foi deixando conventos nas situaes melhores, tanto pela salubridade como pela formosura. O ingls foi dotado do mesmo faro do belo e do saudvel. Chegando 
ao Rio de Janeiro, volve os olhos para a cinta de montanhas que cerca a cidade, e considera isso um sobrado natural que a Providncia construiu por cima do escritrio 
para alcova de dormir.
Pese embora ao nosso amor-prprio nacional, eles naturalizaram inglesa a nossa Tijuca; fizeram daquela serra onde campearam os tamoios, uma Esccia brasileira. O 
grito dos highlanders percorre as formosas encostas. Pelas grotas onde reboava primitivamente o brado selvagem da pocema, ouve-se agora repetido de vale em vale 
pela voz suave das amazonas o gracioso la-la-hi-ti.
Se quereis ver o que h de mais belo e encantador naquele arrebalde, procurai o conhecimento de algum filho da Gr-Bretanha. Ele conhece a Tijuca de uma  outra 
extremidade, desde a gruta mais funda at o pico mais alto. Sabe no s dos vrios passeios, como do dia e da hora em que se deve apreciar cada um deles. Afinal, 
quando tiverdes visto toda a Tijuca j descoberta e explorada, o ingls inventar uma pedra ainda no conhecida e uma excurso pitoresca como a de subir  Gvea 
por um caminho de lagarto.
Ricardo vinha pensando que felizmente naquele dia escapara de encontrar-se com a Guida. Era este o quarto Domingo depois que a conhecera, e seria o primeiro em que 
no a visse. O advogado no daria a importncia a esses encontros fortuitos se, alm de serem eles contnuos, no se houvessem dado as circunstncias especiais, 
que j conhecemos.
Felicitava-se porm o moo muito cedo. Numa curva da estrada achou-se em face de numerosa cavalgata, que tomava-lhe a passagem. Guida, que vinha na frente em companhia 
de algumas senhoras, exclamara:
- Ali est a flor, Clarinha. No  to linda?
- Aonde?
- Ali, um arbusto. No v? Disse ela indicando o lugar com a haste do chicotinho.
- Vejo. Amarela...
- Cor de ouro.
Guida tinha parado, e todos os cavaleiros se gruparam de modo a ver o objeto que lhes excitava a curiosidade. Ricardo, havendo-se adiantado na esperana de passar, 
foi obrigado a demorar-se em frente do grupo.
- Onde vai a senhora, D. Guida?
Esta pergunta foi dirigida por um dos cavaleiros  moa, vendo-a impelir Edgard contra o barranco do caminho para aproximar-se do arbusto, que ficava cerca de 
duas braas ladeira abaixo.
- J que nenhum dos senhores se lembrou de oferecer-me uma daquelas flores, que eu acho to bonitas, vou eu mesma busc-la.
- No faa isto!
-  uma imprudncia!
- Eu no consinto!
Com efeito havia temeridade no intendo da moa. Quem j foi  Pedra Bonita sabe quanto  abrupta aquela montanha; o caminho, bastante ngreme, atravessa as costas 
rudes, cortadas em rpido talude e profundamente sarjadas pelos sulcos das torrentes que descem do cimo da serra quando chove. Seria sumamente perigosa a descida 
por semelhantes barrancos, at mesmo para um animal solto.
Desprezando porm as advertncias que lhe dirigiam suas amigas e companheiras, a  moa fustigou o cavalo, que refugara. Castigado asperamente, Edgard descera alguns 
passos por um trilho, ou antes por um rego; mas, reconhecendo o perigo que havia em continuar aquela descida quase a pique, tomou rapidamente por outro rego que 
atravessava, e galgou o leito do caminho com grande esforo.
- Vai, Guimares! Disse um dos cavaleiros.
- Por mim, no tinha dvida. Mas no h cavalo capaz de fazer isto.
Ricardo que assistia  cena, de parte, esperando ocasio de passar, no perdeu as palavras que pronunciara o Guimares, e sentiu despertar-se-lhe o zelo pelos brios 
do Galgo. Aos 27 anos, o homem  ordinariamente temerrio. A vida no representa ainda a seus olhos um cabedal, mas uma simples aspirao.
O moo avanou.
Por esse tempo continuavam os pedidos e admoestaes a Guida para abandonar seu projeto; mas ela, indiferente ao que diziam em torno, a princpio rira do susto dos 
outros; mas agora, muito irritada contra Edgard por ter recuado, castigava o animal que girava corcoveando. A amazona, forcejando para traz-lo  borda do barranco, 
afinal o conseguiu, mas de uma maneira bem desastrada.
Com efeito, pungido ao mesmo tempo pelo freio e pelo chicote, perdera a sua calma habitual; irritou-se, e obrigado a fazer o que lhe repugnava, caminhava para o 
despenhadeiro, disposto, no a descer, mas a precipitar-se.
Felizmente Ricardo chegara a tempo. Inclinando-se, pde segurar Egard pelo freio, quando j levantava as mos para pular. Obrigou-o ento a voltar-se para o leito 
da estrada, e disse simplesmente  moa:
- No desa!
Guida ficou imvel acompanhando com os olhos o Galgo, que descia com admirvel agilidade e firmeza o sinuoso barranco. S havia para apoio do casco a estreita 
borda do sulco, por onde dificilmente andaria um homem a p: e contudo o cavalo desceu e subiu sem vacilar um passo, com plena confiana na fora e na elasticidade 
de seus msculos.
Todas as pessoas que faziam parte da cavalgata acompanharam a descida e ascenso com surpresa e interesse. Os mais nervosos estremeciam com a idia da desgraa, 
que podia acontecer ao desconhecido. Os outros sentiam uma comoo anloga  que lhes despertaria uma briga de galos, uma corrida de cavalos, ou talvez uma representao 
no circo.
Ricardo tinha partido do arbusto duas ou trs hastes com flor. Era a mesma flor cor de ouro, que ele costumava colher nos seus passeios a p, e que j por duas vezes 
fora testemunha de seu encontro com a moa.
Quando o cavalo, correspondendo dignamente ao nome, galgou com ligeireza o caminho, o advogado apresentou  moa o ramalhete que tinha colhido, e fazendo um cumprimento 
geral, apartou-se rapidamente da alegre cavalgata.
Ao passar entre os cavaleiros, ouviu uma voz que o chamava pelo sobrenome:
- Adeus, Nunes! Aposto que j no te lembras de mim?
O advogado reconheceu um de seus colegas de ano, a quem no vira desde a formatura.
- Ah! Guimares?
Trocaram um aperto de mo com algumas palavras banais, e separaram-se.
Entretanto Guida, tendo prendido o raminho de flores no peito do roupo, continuara o passeio, acompanhada pelas outras senhoras e cavaleiros. Vendo aproximar-se 
o moo que pouco antes falara a Ricardo, dirigiu-lhe a palavra:
- Conhece este moo, Sr. Guimares?
-  o Dr. Nunes. Foi meu colega de ano.
- Ah! Formaram-se juntos?
- E se no me engano, fizemos ato no mesmo dia.
-  bacharel?... disse Guida, como se completasse um pensamento interior.
Supunha talvez que Ricardo era um artista, algum pintor que percorria os stios da Tijuca para copiar perspectivas, que mais tarde lhe servissem de assunto a algum 
quadro a leo. O lbum de desenho, que o moo trazia habitualmente nos seus passeios a p, e a aquarela em que ela se julgara reconhecer, deviam com efeito induzi-la 
quele engano.
- Foi um dos primeiros estudantes do nosso ano. Moo de grande talento, porm muito pobre; dizem at que foi o tio, o Dr. Costa, quem o ajudou a formar-se.
- Que faz ele agora? Perguntou a moa com interesse.
- No sei. Creio que est aqui advogando; mas perde o seu tempo; no faz nada.
- Por qu? No tem talento?
- Mas de que lhe serve se ningum o conhece? Servia-lhe mais ficar com metade do talento que tem, e a outra metade de proteo.
- Como proteo?
- Ora: negociantes que lhe dem boas causas e o recomendem a seus amigos.
A moa, lanando um olhar para o cimo da montanha que se desenhava no horizonte, mudou de repente o tom e o assunto da conversa.
- A Pedra Bonita ainda fica muito longe? Disse ela nesse dbio tom que vacila entre uma interrogao e uma afirmativa.
- Falta um bom pedao.
- Ainda no passamos o Carneiro. O melhor  voltarmos; j est o sol to quente! Hoje samos muito tarde.
- Como quiser!
- Vamos voltar? perguntou a moa virando-se para consultar as amigas.
As opinies dividiram-se; alguns desejavam a continuao do passeio apesar do tempo perdido com o episdio da flor; outros porm julgavam que era mais prudente voltar, 
 vista da hora adiantada e do intenso calor.
- Que horas so? perguntou uma senhora.
- Meia antes do almoo, respondeu Guida sorrindo.
- Neste caso voltemos! Gritou a oposio.
Guida exagerava no interesse de sua causa. O almoo foi servido quarenta minutos depois, s dez horas em ponto. Cercavam a mesa perto de trinta pessoas.
Na cabeceira estava D. Paulina, a mulher do comendador Soares, senhora de estatura regular, e bastante nutrida. Tinha na fisionomia um ar de bondade e singeleza 
que lhe conciliava a simpatia geral. Seus gestos eram acanhados; via-se que no estava a cmodo, nem se ocupava em desempenhar o seu papel de dona-de-casa. Esta 
senhora, que nascera para uma vida modesta, sentia-se acabrunhada ela riqueza e opressa por esse luxo de ostentao que a envolvia e se apoderara at de sua pessoa. 
Seu vestido feito no rigor da moda era uma tnica de Nessus para aquele gnio pachorrento.
Na extremidade oposta, ou na outra cabeceira, estava o comendador Soares, homem de cinqenta e cinco anos, de mediana estatura e talhe franzino, mas vivo e gil, 
respirando sade e alegria no rosto prazenteiro e no gesto animado. Trazia a barba raspada e o cabelo cortado  escovinha.
- Dr. Nogueira, no quer um pouco deste lombinho? Diz aqui o Bastos que no est mau.
- Est magnfico.
A pessoa a que se dirigira o Soares, era um homem de trinta e seis anos e parece distinto.
- Obrigado, comendador! Nada mais.
- Pois eu vou a ele. Quem me acompanha? Aposto que o Guimares?
- Est dito!
- O Sr. Guimares deve ter bom apetite. Fez um grande passeio a cavalo.
-  verdade!
- Onde foram? perguntou Soares.
- amos  Pedra Bonita; mas no chegamos at l. D. Guida quis voltar...
- J era to tarde!
- E perdemos muito tempo com a tal flor.
- Ai, que l se vai o segredo.
- Que segredo?
- Ora; eu lhe conto, papai, disse a Guida. Queria apanhar uma flor, mas Edgard, que  um poltro, teve medo de descer...
- Sim; mas que ladeira! quase direita!
- Ora. O outro cavalo no desceu?
- Com que risco!
- No fim de contas Edgard, zangado, ia-se atirando da montanha abaixo, quando um moo que passava, conhecido do Sr. Guimares, agarrou-o pelo freio, e desceu para 
apanhar a flor!
- Se no fosse ele, quem sabe o que sucederia.
- O Sr. Guimares deve apresentar-nos o seu amigo, no acha, papai?
- Decerto!
- Terei muito prazer. Encontrando-me com ele... ia respondendo o Guimares.
Atalhou porm o Dr. Nogueira:
- A flor  naturalmente essa que a senhora tem no seio?
- Sim, senhor,  esta mesmo. Veja papai, como  linda!
- Muito! Quase que podias traz-la como pingentes.
- Boa idia, papai! Vou mandar fazer uns brincos deste feitio.
- Ficaro magnficos.
- E h de ser moda!
- Sr. Bastos, o senhor me h de fazer o favor?... disse a moa.
- Com muito gosto, D. Guida!
A flor corria de mo em mo; e teria se desfolhado afinal se a dona no reclamasse com instncia para restitu-la  sua posio.
- Guida anda apaixonada por essa flor, disse D. Clarinha. H mais de um ms que me fala nela.
- Ser pela flor? Perguntou o Dr. Nogueira com um sorriso malicioso.
Guida lanou-lhe um olhar, que era um alfinete embebido em aljfar:
- No  pela flor, no.  pelo senhor. Pois no sabia?
- Ah! se fosse, D. Guida, eu seria o homem o mais feliz do mundo, acredite!
- Bravo, bravo! E ento, D. Paulina?
- Guida sempre foi muito apaixonada de flores, respondeu a senhora, aturdida por aqueles constantes dilogos que se cruzavam.
A moa respondera  fineza do Dr. Nogueira, inclinando altivamente a fronte, e soltando um irnico  obrigada!
Quando aplacou-se o rumor das risadas e exclamaes provocadas pela declarao amorosa que, a ttulo de fineza, lanara o Dr. Nogueira to  queima-roupa, o Soares, 
ocupado em despachar conscienciosamente o lombinho de porco, pde introduzir uma observao que lhe acudira.
- Ande l, Dr. Nogueira, creio que no  o senhor o nico. H mais quem pense da mesma maneira!
- Decerto, disseram quase ao mesmo tempo o Guimares e o Bastos, um enrubescendo, o outro empalidecendo.
Talvez que outras exclamaes mais submissas viessem aos lbios, e outros rumores mais tmidos subissem s faces; mas no se animaram a aparecer. Perderam-se nos 
aplausos com que foi recebida a observao do dono da casa.
- Est bom, disse a Guida, a quem o tema da conversao no agradava; ningum quer saber disto agora, papai; mudemos de assunto.
- Pois muda tu, que nisso de mudar, as mulheres esto no seu elemento.
- O que no  muito lisonjeiro para os homens.
- Conforme.
- Mas escute, papai. Estou resolvida a vender Edgard. Depois do que me fez hoje, no posso mais suport-lo. Quer compr-lo?
- No; eu c, no deixo a minha mula paulista. Esses cavalos da moda, que vocs apreciam por serem muito grandes e muito caros, no me servem.
- Ento compre para mame.
- Pois no! Que lembrana! acudiu D. Paulina.
- Nada. Contigo no quero negcio, replicou o Soares. Dizem por a que sou um espertalho; mas ainda est para ser a primeira vez que no me logres.
- Qual, papai! exclamou Guida sorrindo.  o senhor que se engana a si mesmo; o pai logra o capitalista!
- Muito bem!
- Ser isso ento! replicou o Soares rindo com prazer.
Acabara o almoo. Guida, com uma cortesia geral, deu o exemplo levantando-se da mesa.
Ela exercia esse direito por uma delegao tcita da me, incapaz de tomar por si to grave resoluo. O Soares, que podia adverti-la com um sinal, estava inibido 
de o fazer. Se nos dias de trabalho o capitalista almoava a vapor, nos domingos tinha saudades da mesa e custava a separar-se dela.

VIII

Deixando a mesa do almoo, as pessoas reunidas em casa do Soares espalharam-se pela sala, varanda e jardim, formando grupos.
As senhoras ficaram na sala, vendo lbuns e figurinos, conversando sobre modas, ou tocando e cantando. Alguns cavalheiros resistiam ao perfume do havana para gozarem 
por mais tempo da amvel companhia das moas. Outros, para voltarem mais cedo, saboreavam j o seu charuto, passeando no jardim, defronte das janelas, por onde s 
vezes intervinham na conversao.
Na varanda os capitalistas e negociantes discutiam sobre o estado da praa; apreciavam as transaes mais importantes da semana finda; faziam conjeturas sobre a 
alta e baixa do cmbio, caindo por fim no assunto inesgotvel de todas as conversas daquele tempo, por ser a preocupao constante de todos os espritos; a concluso 
da guerra do Paraguai, que o intrpido Cmara acaba de selar com a ltima vitria.
Alm, desdobravam-se as mesas de jogo  espera dos apaixonados do solo e voltarete; mais longe, se ajustavam passeios a p e a cavalo, ou visitas aos hspedes do 
amvel Sr. Bennett.
Em toda essa reunio de pessoas havia dois pontos para os quais convergia a ateno; eram o Soares e a filha.
Os espritos positivos, os homens de negcio, os soldados da cruzada fantica do ouro, que  a grande preocupao do sculo atual, esses infatigveis obreiros do 
dinheiro contemplavam o capitalista como um heri ou como um gnio, como o Csar ou o Napoleo da praa. O comendador representava a seus olhos o smbolo ou mito 
da riqueza, como Hrcules o era da fora.
A rapidez com que Soares, de simples dono de um armarinho, se elevara a milionrio por uma srie de operaes lcitas, mas combinadas com tino superior e executadas 
com incrvel arrojo; o milagre dessa riqueza colossal honestamente acumulada em cerca de vinte anos, enchia de admirao no s os nefitos no culto do bezerro de 
ouro, como os mesmos negociantes j possuidores de algumas centenas de contos.
As vistas fitavam-se com afinco no rosto franco e prazenteiro do capitalista, que se lhes afigurava o dinheiro encarnado, o milho feito homem. Estudavam sua fisionomia, 
aprendiam seus menores gestos, decoravam suas palavras ainda banais. O Soares tinha em si o grande segredo de ganhar dinheiro; talvez o precioso condo da riqueza 
estivesse em alguma particularidade de sua pessoa e fosse possvel a um homem hbil surpreend-lo.
Esforavam-se pois em imitar aquele tipo de milionrio improvisado. Um tinha notado que ele trazia sapates de bico espalmado, feitos em uma tenda da travessa do 
Carmo. Pensando que o segredo podia estar nisso, recorreu ao fregus antigo do capitalista para lhe fazer calado em tudo igual. Outro observara que o Soares trazia 
uma pequena caixa oval cheia de rap, no para tomar, mas simplesmente para cheirar.
Havia gente que no s copiava o milionrio no vesturio e nos hbitos, como at na comida. Um chegou a convencer-se que o feijo-preto e o lombinho de porco tinham 
virtude aurfera; e apontava a provncia de Minas como a prova do fenmeno.
De seu lado, Guida era naquele cu o astro da beleza, de que as outras moas no passavam de satlites. Em torno dela giravam os cavalheiros elegantes, todos aqueles 
que no tinham resumido a sua existncia no balco e ainda se ocupavam de msica, de arte e de sentimento. Para esses o dinheiro no  um fim, como para os primeiros, 
os cruzados do sculo;  meio apenas de obter o gozo;  um engaste para o prazer. Assim uma mulher bonita na pobreza parece uma crislita embutida em estanho; na 
riqueza, torna-se uma prola cercada de diamantes.
Os olhares desta parte da sociedade acompanhavam os movimentos de Guida com admirao e insistncia igual  dos adoradores do dinheiro encarnado na pessoa de Soares. 
Ela tambm representava o mito do sculo, o milho. Se o pai figurava o milho feito homem, ela era o milho feito anjo; o ouro convertido em luz, a libra esterlina 
transformada em estrela, o bilhete do banco adquirindo de repente a graa difana da asa de borboleta.
Os etimologistas, gente que profetiza o passado e inventa o esquecido, dizem que ouro, palavra de origem egpcia, significou primitivamente a luz, o sol, passando 
a designar o metal precioso por analogia. Se assim foi, como me parece racional, Guida personificava o ouro segundo a delicada comparao da poesia oriental; era 
o sol esplndido da fortuna; era a rstia de luz coalhada em barra, o prisma bancrio, o raio amoedado.
Entre todos os cavalheiros que se prostravam humildes ante o dolo, distinguiam-se trs, ou pela assiduidade na adorao, ou pela esperana que afagavam. Eram o 
Guimares, o Bastos e o Dr. Nogueira: pessoas que sem dvida merecem alguma notcia, pois um deles, segundo se dizia geralmente, teria de ser o feliz, o querido 
da fortuna, o marido da mais rica herana e da mais bonita moa do Rio de Janeiro.
Guimares era um moo de vinte e sete anos, filho de um antigo procurador muito ginja, que devia deixar-lhe uma legtima de uns seiscentos contos de ris. O pai 
 custa de empenhos conseguira form-lo em Direito; mas s por luxo, para dar-lhe o ttulo que tanto invejara. Sucedeu porm que ningum tomou ao srio a coisa, 
nem mesmo o rapaz. Todos continuaram a trat-lo pura e simplesmente pelo nome, sem o competente doutor. Era to profundo o esquecimento da formatura do filho do 
procurador que seus amigos e camaradas acreditariam mais facilmente que ele fosse um prncipe incgnito do que um bacharel.
Guimares tinha um exterior agradvel: bem feito, de talhe vantajoso, vestia-se no rigor da moda, mas ao gosto do alfaiate, e portanto com todas as extravagncias 
do figurino. Montava bem a cavalo; fumava com garbo o seu havana; sustentava sofrivelmente uma dessas conversas de ninharias, essenciais nos intervalos da quadrilha 
e em ocasies de apresentao.
Bastos era um corretor, que aos trinta e quatro anos j havia feito uma bela fortuna.
Soares o tinha no melhor conceito, e num crculo de ntimos lhe profetizara o milho aos quarenta anos. Ora, o milho, segundo o comendador,  o plipo, que se reproduz 
com espantosa rapidez.
O corretor era o que se chamava um bonito homem; isto , uma estampa soberba para ganadeiro ou tambor-mor. Alto de estatura, porte robusto, mas bem talhado, tinha 
um rosto de feies regulares, moldurado por uma bela sua negra. Vestia-se com a simplicidade do negociante ingls; falava com acerto em assuntos comerciais; animava-se 
a discutir poltica at com os mais notveis estadistas; porm numa roda de senhoras faltava-lhe a fluncia, a menos que no se tratasse de compras e encomendas, 
ponto em que mais ou menos entrava o gnio mercantil.
O Dr. Nogueira advogava. Como todos os homens de talento, tinha-se envolvido na poltica, esse terrvel maelstrom que arrasta em nosso malfadado pas todas as grandes 
inteligncias, como todas as ambies ardentes. Sua posio no passava de uma espera na grande caada nacional. Apresentava-se candidato por sua provncia, e cheio 
de entusiasmo acreditava que ia abrir-se a seu talento uma carreira brilhante.
Ele tinha os dotes necessrios: bela inteligncia, palavra fcil e elegante, que amenizava as mais ridas questes e elevava os assuntos triviais; carter dctil, 
suscetvel de amoldar-se a todas as situaes como de ligar-se a qualquer indivduo; carter que se pode bem comparar ao estanho, de que se faz a solda. Soares tributava 
ao advogado a maior considerao e tinha plena confiana em seu futuro.
Apesar de magro e descarnado, o rosto do advogado tinha expresso muito distinta, sobretudo quando falava com interesse; ento a fisionomia e o gesto desenhavam-lhe 
a idia, antes que a palavra elegante viesse dar-lhe o colorido. Quem o escutava recebia ao mesmo tempo pelos olhos e pelo ouvido o seu pensamento, sempre elevado.
Cada um dos trs candidatos a sol da bela estrela de ouro tinha mais ou menos conscincia das suas, como das vantagens dos competidores. O Guimares confiava na 
herana e na proteo de D. Paulina, em virtude da amizade antiga que existia entre a me da menina e a sua. Bastos descansava no conceito em que o comendador tinha 
a sua habilidade comercial, e nos trezentos contos bem lquidos, fechados na carteira em bilhetes do tesouro. O Dr. Nogueira contava com a considerao que lhe tributava 
o comendador, mas sobretudo com as altas e brilhantes posies, cujo prestgio sem dvida fascinaria mais do que o dinheiro, a um homem habituado como Soares, a 
nadar em ouro.
Estes eram os ttulos que exibiam os campees em relao  escolha paterna; mas eles, que bem conheciam a Guida, sabiam quanto era importante e necessria a escolha 
da filha. Por isso empregavam todos os esforos para granjear o amor ou pelo menos a simpatia da linda moa.
Quando se tratava de um passeio, de uma conversa ftil para fazer rir as senhoras, de um brinquedo de sala, ou qualquer outra ninharia, Bastos e Nogueira se arredavam 
deixando o campo ao Guimares. Nenhum deles seria capaz de disputar ao moo a palma da garrulhice banal e fofa, que imita as farfalhas de seda, ou os floreios do 
leque. Quando se ouve discorrer uma dessas nugas encasacadas, parece com efeito que no  um homem que fala, mas um alfinete, um grampo, um colchete, qualquer dos 
objetos indispensveis ao vesturio feminino, que de repente adquirisse o dom da palavra.
O Bastos ficava mudo e pasmo diante da volubilidade do Guimares; ele no compreendia que um homem tivesse essa propriedade de fazer-se realejo, e repetir durante 
horas e horas o que dissera na vspera ou ouvira dos outros. Quanto ao Nogueira, compreendia; mas, se alguma vez lembrou-se de competir com o Guimares, arrependeu-se 
e corou de si mesmo, porque reconheceu o ridculo. Sua palavra era uma guia, pensava ele: a guia da inteligncia, habituada a planar entre as nuvens. Como podia 
fazer dessa ave corpulenta uma abelha que borboleteasse entre as florinhas de um jardim?
Para a asa altaneira s a flor gigante, a grande ninfia escarlate, a rainha dos lagos, que os ingleses chamavam vitria, em honra de sua soberana, mas eu chamarei 
imperatriz, em razo de ser uma majestade brasileira. Dir-me-o que no sou botnico, e portanto no tenho autoridade para crismar essa espcie de loto, que os 
indgenas chamavam milho dgua. No  decerto minha inteno invadir os domnios da cincia. Podem os botnicos inventar quanto nome grego e latino lhes aprouver 
para apelidarem as plantas; podem fazer a autpsia das inocentes criaturas para reduzi-las a sistema; mas as flores, como mimos da natureza, pertencem  literatura; 
so do domnio da poesia.
Onde me ia levando o pensamento? Voltemos  Tijuca.
O Bastos desforrava-se do Guimares e do Nogueira, quando se tratava de alguma encomenda, de qualquer dos pequenos servios que uma senhora, privada em nosso pas 
da plena liberdade de sair s, tem necessidade de exigir e aceitar. O Rio de Janeiro  sem dvida uma cidade de muito luxo, abundantemente sortida pela indstria 
estrangeira de todos os artigos de moda e fantasia; mas, como as especialidades no esto ainda bem distintas, em virtude da desigualdade e incerteza do consumo, 
muitas vezes  difcil saber onde encontrar-se aquilo que deseja.
O corretor tinha um perfeito conhecimento dessa topografia especial do comrcio a retalho. Quando se tratava de comprar uma fita de cor muito rara e perfeitamente 
igual  fazenda; de procurar um objeto que no se encontrava na rua do Ouvidor ou da Quitanda; de escolher um presente de gosto, novo, ainda no visto; de descobrir 
uns botes ou enfeites de forma original e esquisita, fantasiados pela imaginao de Guida, o Bastos triunfava. Realmente fazia coisas admirveis: ningum arranjava 
uma encomenda melhor, nem mais depressa e barato.
Nogueira e Guimares no ousavam disputar-lhe essa superioridade. O candidato, porque nem para si prprio sabia comprar; alm de que sua posio no lhe permitia 
descer ao papel de comissrio, nem mesmo de uma moa bonita. O Guimares no tinha jeito, nem dinheiro: a mesada que recebia do pai, e os presentes que a me lhe 
fazia, no chegavam para operar os milagres de barateza, inventados pelo corretor.
Batido pelo Guimares nos divertimentos, e pelo Bastos nas encomendas, o Dr. Nogueira tinha tambm seus momentos de triunfo: no eram mui freqentes, mas acreditava 
ele que deixavam profunda e longa impresso. Quando a reunio se tornava mais solene, o que sucedia em ocasio de alguma visita de considerao ou de algum jantar 
de cerimnia, o advogado aproveitava algum assunto favorvel para soltar as asas  sua palavra fascinadora. Divagava com graa; e sobre o mais pequeno fato tinha 
a arte de bordar anedotas curiosas, ditos chistosos, reminiscncias interessantes, que lhe fornecia uma sofrvel lio histrica. Havia em tudo isto muita afetao, 
e mais liga que ouro; porm entusiasmava o seu auditrio habitual.
Nestas ocasies, Bastos e Guimares afundavam-se em sua mediocridade. Os elogios, que obtinha a cada instante o talento do Nogueira, os incomodavam como um enxame 
da vespas; mas nada os esmagava como a ateno com que Guida ouvia.
O candidato, vendo a moa presa de seus lbios, com os olhos fitos nele, acreditava que essa alma gentil se abria inocentemente ao calor de sua palavra, como a flor 
ao raio da aurora; e que ele penetrava-lhe no seio, e a pouco e pouco tomava posse dela. Contudo no se desvanecia; acreditava que no era ainda o corao da menina 
quem o ouvia, mas apenas sua curiosidade.
Estas pretenses  mo da filha do milionrio eram conhecidas no s pela famlia e pessoas que freqentavam a casa, como pelos estranhos. Nenhum dos trs pretendentes 
recatava seus projetos; ao contrrio, no perdiam ensejo de fazer ostentao deles, nem se embaraavam com o reparo dos indiferentes, quando podiam colher uma vantagem 
sobre os rivais.
A sociedade habitual do comendador assistia a esse jogo matrimonial com o interesse e curiosidade, com que os romanos apreciavam uma luta de gladiadores, e os ingleses 
acompanhavam um steeple-chase. Dividiam-se as opinies, e tambm os votos e simpatias. Havia interminveis questes a respeito da preferncia de Guida por algum 
de seus trs adoradores.
Talvez excite reparo e tolerncia do comendador Soares neste assunto, que to de perto lhe devia interessar como pai. Esse modo de proceder no provinha de negligncia, 
mas de uma resoluo bem calculada. Entendia ele que o casamento de uma moa  questo vital tanto para os pais, como para ela; e portanto depende do consentimento 
de ambas as partes. Em outros termos, assim exprimira chistosamente o seu pensamento ao Nogueira, um dia em que este o sondou a respeito de suas intenes:
- Nesta matria de casamento, meu caro doutor, eu sou a coroa, a Guida  o parlamento. Ela tem o direito de votar o projeto; eu limito-me  sano do veto. Assim 
o pretendente, quero dizer, o ministro, se quiser oramento, deve usar de toda a sua eloqncia no parlamento para derrotar a oposio.
O comendador era pois um pai constitucional representativo. Assistia com imparcialidade  luta dos partidos, reservando-se contudo o direito de ensaiar habilmente 
o governo pessoal, quando fosse indispensvel ao bem pblico.
Alm das trs pretenses confessadas, havia no crculo do Soares um grande nmero de esperanas em boto, que no ousavam desabrochar; mas tambm no se resolviam 
a murchar. Ah! a esperana  uma das plantas mais vivazes que eu conheo; quando uma vez brotou no corao, no h meio de extirp-la:  como a urtiga. Embora o 
ferro a corte, rebenta de novo. S morre quando lhe esmigalham as razes.
Assim, apesar de reconhecerem a impossibilidade de sua realizao, essas esperanas pululavam em torno da moa, como um bando de besouros verdes nas ptalas de uma 
rosa. Quando  noite, depois de algumas horas passadas na casa de Soares, se recolhiam, ao deitar-se balbuciava cada uma em seu aposento, por este gosto mais ou 
menos:
- Este bigodinho!... pensava um, alisando diante do espelho o fino buo. Tm-se visto coisas!
- O caso  que ela gosta bem de cantar comigo! sonhava outro, recordando um dueto do Hernani.
- No fim de contas a elegncia  o fraco das moas, murmurava o terceiro, requebrando o talhe bem torneado.
- Um homem que valsa como eu, chama ateno num baile. E o que  um baile seno a batalha campal, onde se conquista a beleza? exclamava um jovem oficial que fez 
a campanha do Paraguai nas tertlias de Montevidu.
- Que ela me acha engraado, no h dvida; ora, o riso  o caminho do corao, dizia um repetidor de pilhrias, espcie de bobo de sala, esfregando as mos.
Estas e outras esperanas viviam de ar, como os camalees, e como eles, mudavam constantemente de cor: ora tinham o verde risonho da folha que nasce, ora o amarelo 
bronzeado da folha mirrada pelo sol, que o vento leva de envolta com o p.

IX

Guida animava com a sua graa e gentileza os diversos grupos que se tinham formado na sala.
No sof, onde se conversava, ia sentar-se um instante para ouvir e interromper, excitando a rplica e provocando o riso com suas travessuras. No piano aparecia de 
repente, tocava ou cantava alguma coisa s pressas, e aproximando-se da mesa, mostrava s pessoas, que folheavam lbuns, lindas vistas da Sua, da Esccia, de Sintra 
e da Tijuca.
O Guimares, que estava naquele dia em veia de felicidade, acompanhava a moa nessas evolues com um certo ar pretencioso que no escapava s outras pessoas. Decididamente 
parecia que a preferncia se manifestava pelo mais jovem e mais elegante dos pretendentes; tal foi pelo menos a opinio das senhoras que nesta matria falam de cadeira.
O Dr. Nogueira, despeitado com o remoque da Guida, na ocasio do almoo e a propsito da flor, conservava-se arredio; estava ainda no jardim fumando o seu charuto. 
Entretanto, quem o observasse com ateno conhecia que atravs das folhas das rvores ele no perdia de vista as janelas da sala.
Bastos estava indeciso; no se animava a entrar em combate, nem se resolvia a abandonar o campo. Recostado  sacada pela parte de fora, mas completamente voltado 
para dentro, observava a moa, sem contudo esforar-se por atrair-lhe a ateno. Bem desejava obter aquela ventura; mas sua imaginao ingrata no lhe suscitava 
um meio de realizar seu desejo.
Teria decorrido cerda de uma hora depois do almoo, quando Mrs. Trowshy  mostrou a Guida a figura esguia do Daniel em p na porta do interior. A moa aproximou-se 
do criado, que lhe disse:
- Dei o recado; respondeu que h de escrever ao Sr. Comendador agradecendo.
- Escrever? Perguntou Guida.
- Sim, senhora.
- Ento no vem?
- Pode ser.
- Bem!
Guida herdara do pai certa impetuosidade do desejo, que foi a origem da riqueza do capitalista, e devia exercer na vida da filha notvel influncia.
Depois do ltimo encontro com Ricardo, naquela manh, teve desejo de conhecer o advogado; desejo que revelou com franqueza na ocasio do almoo, pedindo a Guimares 
que o apresentasse. No confiando porm na promessa do moo, ao levantar-se da mesa, tomou o brao do pai e preveniu-o de sua inteno de mandar Daniel convidar 
a Ricardo da parte dele, Soares.
- Manda! respondeu o pai com indiferena, habituado a confiar todas essas mincias domsticas a mulher, que as abandonava  filha.
O Daniel partiu imediatamente; e o resultado de sua incumbncia  acabava ele de comunic-lo  moa, com a sua imperturbvel gravidade.
- Is he coming? (Vem?), perguntou Mrs. Trowshy.
Guida disse que no, com um ligeiro aceno de cabea.
- Why not? (Por que no?)
Novo aceno exprimiu  a ignorncia da moa a respeito do motivo por que Ricardo no vinha. Contudo o tato de sua alma de mulher lhe indicava, embora vagamente, a 
natureza daquele motivo.
- Ele  pobre, pensava ela, muito pobre; h de ser suscetvel portanto.
Talvez Ricardo se ofendesse com o convite, feito por intermdio de um criado; e a sua resposta de que havia de escrever agradecendo, manifestava bem seu pensamento: 
era mais do que um simples criado: era um homem da confiana de seu pai. O convite por este intermdio parecia-lhe to delicado, como por carta, sem a solenidade 
que ela justamente no lhe queira dar.
Se Guida desejava anteriormente a presena do moo em sua casa, agora mais que nunca. Duas razes atuavam em seu esprito. A contrariedade do obstculo e a vontade 
de desvanecer uma ofensa involuntria. O que fora at ento uma lembrana delicada apenas, mudava-se em capricho.
Capricho? Quem no sabe o que isso ? A palavra o est dizendo.  a alma da mulher que se precipita sobre uma idia, com a mesma temerria vivacidade e petulncia 
da cabra selvagem a arremessar-se pelas arestas do despenhadeiro.
Guida sentou-se ao piano e comeou a preludiar. No tardou que o Guimares se aproximasse, atrado pelo m, e bordasse sobre o tema da msica uma dessas falas que 
parecem um croch de palavras de diversas cores. A moa tomou interesse na conversa, e prolongou-a por algum tempo; mas interrompeu-se de repente como se lhe ocorresse 
uma idia:
- No pretende apresentar hoje seu amigo, Sr. Guimares?
- Como? Que amigo?
- J se esqueceu? Com efeito!
- Ah! lembro-me. O Nunes. Mas hoje?
- Ento quando h de ser?
- Qualquer outro dia.
- Se no for hoje, que ele est na Tijuca, nunca mais o senhor achar uma ocasio para apresent-lo. Amanh estou certa que j nem se lembrar disso!
- Sou esquecido,  verdade; mas da senhora, D. Guida, lembro-me at demais.
- Pois lembre-se menos de mim, para se lembrar mais do que prometeu a meu pai. V buscar o amigo!
- Agora?
- Neste momento, disse Guida levantando-se.
- Mas se no sei onde ele est!
- Daniel h de saber. Vou dizer-lhe que sele o seu cavalo e o acompanhe.
Chegando  porta, a moa deu as ordens necessrias.
- Mas, D. Guida, confesso-lhe que poucas relaes tenho com o Nunes; depois que nos formamos h seis anos,  a primeira vez que nos encontramos. Mesmo em So Paulo, 
nunca fomos amigos; apenas conhecidos. Chegou  corte, no o visitei. No me julgo pois com direito a procur-lo assim de repente...
- Tudo isto o senhor devia ter pensado antes de se comprometer: agora tenha pacincia. Seu pai costuma dizer que dvidas no se perdoam.
- Ainda h uma razo. Eu sei que o Nunes ps aqui um escritrio de advocacia, porque vi o anncio; mas se procede bem, se  homem fino, capaz de entrar na primeira 
sociedade, ignoro. No posso portanto tomar sobre mim a responsabilidade de trazer  casa do comendador um moo que pode praticar algum ato...
Guida sorriu.
- Esse receio no tenha: eu o absolvo da responsabilidade.
- Mas o comendador?
- Fica por minha conta.
- No! no devo abusar.
Guida olhou o moo com ar resoluto:
- O senhor no vai?
- A senhora fica zangada comigo?
- Oh! no; muito agradecida ao contrrio!
Soltando essa frase cheia de ironia, a moa deixou o Guimares atordoado; e voltou-se para sua mestra, que lia nesse momento um nmero da Illustrated London News.
- Mrs. Trowshy, a senhora hoje h de jantar perto do Sr. Guimares.
Se ainda restava ainda alguma hesitao no esprito do filho do procurador, desvaneceu-se de sbito e completamente diante daquela terrvel ameaa. Jantar perto 
da inglesa significava o mesmo que ficar-lhe hipotecado pelo resto da tarde e por toda a noite. Para evitar essa calamidade, Guimares entendeu que no lhe restava 
outra sada seno obedecer ao capricho da menina partindo em busca do colega.
- J vou, D. Guida!
- Ah! Esquecia-me dizer-lhe que seu colega tem um amigo, um companheiro;  preciso convidar a ambos.
- Sim, senhora; cumprirei a sua ordem. Mas no me condene a jantar perto da mestra.
- Se trouxer quem o substitua! disse Guida rindo.
- Fica a meu cuidado!
Guimares montou a cavalo e partiu com o Daniel. Todo esse episdio no escapou, nem ao Bastos recostado  janela, nem ao Nogueira que passeava no jardim. O ltimo 
no vira o dilogo trocado entre a Guida e o Guimares; mas bastou a partida deste, acompanhado pelo criado da casa, para excitar-lhe apreenses.
Animado pela ausncia dos dois competidores, s em campo, o Bastos, mais desassombrado de esprito, descobriu afinal o meio de solicitar a ateno da filha do milionrio:
- D. Guida! disse ele com a voz um pouco trmula.
- Chamou-me? Perguntou-lhe a moa voltando-se.
- Como h de querer ento os brincos?
- Que brincos, Sr. Bastos?
- Pois no me pediu no almoo para mandar fazer-lhe uns brincos do feitio dessa flor? Replicou o corretor rubro como um tenor sem voz quando d um d de nariz.
-  verdade. Desculpe-me; no me lembrava assim de repente. Depois lhe darei uma flor para servir de modelo.
- Esta que a senhora tem?
- Esta ou outra,  indiferente, observou a moa com inteno.
Bastos perturbou-se, e nesse intervalo a ateno de Guida se desviou para outro lado, de modo que achou-se o corretor outra vez na mesma posio cruel em que estava 
anteriormente, recostado  janela e atado ao seu acanhamento, que era para ele um rochedo de Tntalo.
No meio das paixes que se agitavam em torno dela, Guida conservava, devido a seu recato e altivez natural, uma grande serenidade. Quando alguma vez uma palavra 
mais significativa ou uma aluso mais direta a vinha provocar, ela a afastava com a sua ironia, ou com essa expresso de indiferena que perturbava o Bastos.
Assim permanecia estranha  luta de que era objeto. Sua alma pura planava como um astro sobre as vagas que a ambio ou o amor sublevavam naqueles coraes. As bonanas, 
como as tempestades, desse oceano, se eram produzidas por sua influncia celeste, no a atingiam: ela brilhava sempre com o mesmo esplendor e a mesma limpidez.
Em princpio, suas palavras, seus olhares, seus menores gestos, eram estudados por adoradores, como por indiferentes, e interpretados ao sabor de cada um. A moa 
incomodava-se muito com isso; retraa-se; tornava-se cada vez mais reservada, constrangendo sua jovialidade e franqueza. No obstante o crculo em que vivia, obstinava-se 
em dar a quanto ela dizia ou fazia, uma significao oculta misteriosa.
Uma noite sucedeu danar duas quadrilhas com o mesmo par; to indiferente lhe era o sujeito que no se lembrou de j ter danado com ele no princpio da partida. 
O fato foi muito comentado, at por algumas amigas, que viram nele uma preferncia manifesta. Guida aproveitou a ocasio para de uma vez pr termo a essa insistncia 
que a afligia.
- Tenho muito tempo para ser moa. Agora ainda sou criana e quero s-lo at dezoito anos. No cuido nessas coisas de que os outros tanto se ocupam; s penso em 
divertir-me. Para mim  indiferente o par com quem dano, desde que for um homem delicado, de boa sociedade. E assim quanto ao mais.
Estavam presentes Nogueira, Bastos, Guimares, e muitos outros apaixonados ocultos. Momentos depois as palavras da moa, repetidas em vrios grupos, eram conhecidas 
por todos.
Guida dizia a verdade. Se era j moa na flor da beleza e na graa, tinha contudo a ingnua iseno da menina. Seu corao ainda estava em boto; seus pensamentos, 
embora alguma vez se embalassem nos sonhos azuis de um futuro risonho, eram em geral absorvidos pelo estudo, ou pelo prazer dos passeios e divertimentos inocentes.
No brincava mais com bonecas,  verdade; suas bonecas eram Edgard e Sofia, ou as flores de seu jardim. Mas tambm ningum a via tomar ares melanclicos e atitudes 
pensativas, suspirar a cada instante, ou recitar poesias de amor, acentuando as frases apaixonadas do poeta. Em uma palavra, no era romntica. Tinha a suas amigas 
afeio sincera; mas no lhes emprestava a linguagem ardente, que afetam certas moas, e que faz supor, sob pretexto de amizade, a expanso de algum amor oculto, 
ou pelo menos de um amor ideal criado pela imaginao.
Por isso dificilmente podiam os adoradores de Guida iludir-se a respeito de sua indiferena. As palavras da menina no tinham sentido ambguo, nem misteriosa aluso; 
o olhar, o sorriso, o gesto eram transparentes e no conheciam o jogo cruel de semear esperanas e excitar desejos, para depois machuc-los, como as flores ou as 
fitas que se trouxe no cabelo.
Assim o esprito srio de Nogueira no se deixava embair por seu amor-prprio; ele acreditava que Guida no dava a menor preferncia a qualquer de seus adoradores; 
mas pensava que de repende podia seu corao desabrochar, e nesse momento se despertariam as impresses gravadas nalma da menina. Toda sua ttica se limitava a 
imprimir no esprito de Guida, como em uma cera branda, a admirao por seu talento e a confiana em seu futuro brilhante.
Mas, apesar de hbil, o futuro deputado estava apaixonado pela moa, e tanto bastava para tirar-lhe a calma necessria de seu plano. Assim, na ocasio do almoo, 
ouvindo referir o incidente do servio prestado por Nunes, tivera uma suspeita; e para esclarec-la fizera a propsito da flor uma aluso que lhe valera a rplica 
irnica da moa. Arrependera-se e esperava a primeira ocasio para desvanecer a desagradvel impresso.
Eram estas cismas que ainda o preocupavam no jardim, enquanto fumava o segundo charuto:
- Quem ser esse moo?... dizia ele consigo, arrancando distraidamente as ptalas de uma rosa. Foi hoje a primeira vez? Guida passeia a cavalo todos os dias; no 
o ter encontrado anteriormente?... Algum romance comeado... quem sabe! O Guimares saiu com o criado. Aposto que foi em busca do sujeito para apresent-lo hoje 
mesmo. No h dvida! Por que motivo ela daria tamanha ateno quele boneco, se no fosse o desejo de obter dele um servio? E o tolo prestou-se!...
Nogueira meditou alguns instantes, e por fim murmurou:
- A coisa desta vez  sria!
Atirando fora  aponta do charuto, entrou na sala.

X

Enquanto sucediam estes fatos, Ricardo, a causa involuntria deles, estava bem tranqilo em casa de D. Joaquina.
De volta do passeio, saboreou com o amigo o frugal almoo da boa senhora. Ainda estavam  mesa galhofando e rindo, quando ouviram o som do bzio, e pouco depois 
apareceu-lhes o Simo pescador, alegre, corado e bem disposto.
Trazia vrias selhas de cip cheias de peixe; uma delas era destinada a D. Joaquina, a quem Gertrudes a mandava de presente.
- Oh! j est bom? Perguntou-lhe Ricardo.
- Ora, senhor; para bem dizer, no tinha molstia; andava banzeiro, mas a moa me trouxe felicidade. Depois daquele dia em que ela ralhou comigo, o senhor bem viu, 
no h mos a medir.  peixe tanto, que a rede quase no agenta.
- Est bom; estimo muito!
Depois de algumas palavras trocadas com a velha, o pescador despediu-se:
- Adeus, sinh dona. Ainda vou levar este peixe  casa do comendador, o pai da moa. Bom fregus!
Este fato deixou alguma impresso no esprito de Ricardo, que lembrou-se da cena a que assistira domingo passado. Haver criaturas abenoadas, que tenham o dom de 
comunicar aos outros sua influncia propcia? pensou o moo.
Tendo a presena do pescador despertado a lembrana de Guida, Ricardo contou a Fbio o seu encontro pela manh e o incidente da flor.
- Bem, creio que sempre tomamos a praa de assalto! exclamou Fbio.
- No abandonas tua idia!
- Ora, se fosse comigo o encontro desta manh, agora estaria eu almoando em casa do Soares.
- E de que te servia isto?
- De qu?...  bom que o dinheiro v-se acostumando conosco, e o meio  chegarmo-nos queles que o tm.
- Receio ao contrrio que nossa pobreza o importune, indo procur-lo no meio do luxo.
A discusso prolongou-se. Os dois amigos ainda estavam empenhados nela quando chegou o Daniel com a incumbncia que sabemos. Ricardo, a princpio surpreso pelo convite 
que no esperava, no hesitou na resposta que o portugus transmitiu a Guida. Fbio tomando o amigo de parte instou com ele para aceitar a fineza do capitalista; 
mas nada obteve.
- Decididamente, assim no iremos para adiante;  desenganar, disse Fbio muito contrariado.
- No tens razo;  justamente assim que podemos merecer considerao, no aceitando uma posio menos digna. Reflete bem: que figura ridcula no havamos de fazer 
naquela sociedade?
- A mesma que fazem os outros. Nem todos que freqentam a casa do Soares, so ricos.
- Decerto; mas os que no tm um tratamento correspondente ou so amigos ou parasitas. Nenhum destes papis nos cabe.
Fbio levantou os ombros. Tornou-lhe Ricardo:
- No sou desses homens que ostentam um desprezo fingido pelo dinheiro e odeiam os favoritos da fortuna. Ao contrrio, quando a riqueza  honestamente adquirida, 
eu a respeito e estimo, porque representa a meus olhos o fruto, to legtimo como brilhante, do trabalho; mas em caso algum lhe sacrificarei minha dignidade: no 
me farei corteso dessa como de qualquer outra grandeza da terra. O lisonjeiro para mim  um eunuco moral.
- Ento um pobre no pode sem bajulao ter relao com pessoas ricas? Que doutrina!
- Sem dvida que pode, quando se estabelece uma certa igualdade social por virtude de alguma causa, como, por exemplo, a amizade, o parentesco, uma posio elevada, 
a considerao pblica, etc. Um escritor notvel, embora nada tenha de seu, pode aceitar a hospitalidade do milionrio, porque trata de igual a igual; se este  
rei na praa, ele  rei na imprensa. Sua presena, assim como a de todas as outras pessoas distintas,  honra que os ricos solicitam.
- Neste caso, tu que tens talento e escreves bem, devias aceitar o convite; era uma honra que fazias ao Soares.
- Obrigado pela ironia.
- Onde est a ironia?
- Somos dois pobretes obscuros; eu podia acrescentar de minha parte, e desconhecido, por que realmente o sou nesta grande cidade. Em casa de um milionrio, no meio 
de uma sociedade habituada ao luxo e s grandezas, qual seria nossa posio? Creio que a classifico bem dizendo que faramos o ponto de transio entre o parasita 
e o criado; formaramos o elo desses dois anis da cadeia.
- Com efeito! Modstia to requintada degenera em orgulho. Entendes que no sendo dos primeiros, te rebaixas?
-  outra fragilidade que eu no tenho, Fbio, esse fofo orgulho da pobreza, que serve de forro a um fingido desprezo da riqueza. No me envergonho de ser pobre, 
de parec-lo e confessar em qualquer ocasio; mas estou longe de fazer da minha pobreza uma espcie de dorna de Digenes. A falta de dinheiro pesa-me, sem contudo 
me acabrunhar; e justamente porque ela me pesa, me elevo mais em minha conscincia, sentindo-me incapaz de cobiar a fortuna adquirida por meios lcitos. Ests portanto 
enganado, meu amigo; no tenho orgulho, mas dignidade.
-  a mesma coisa com diverso nome.
- No: o orgulho  um impulso para elevar-se acima dos outros; a dignidade  a firmeza, que no consente descer da posio que nos compete. Ora, cada degrau que 
eu subisse da escada do Soares, era um passo que descia do meu nvel. Isolado no meio de tantos convidados, desconhecido naquela sociedade habitual, perguntariam: 
Que veio aqui fazer este sujeito?  Prestou um pequeno servio  filha do comendador, responderia algum ntimo; se fosse um criado, dava-se uma gorjeta; mas como 
 um pobre bacharel, convidaram-no a jantar.
- Tu no conheces a sociedade do Rio de Janeiro; nunca a freqentaste. Julgas por So Paulo, ou por informaes falsas.
- Conheo-a melhor do que tu, pela razo do provrbio que nos olhos dos outros v-se o argueiro, e no se enxerga no nosso o cavaleiro. Bem sei que esses intrusos 
de que falo muitas vezes, no s obtm a tolerncia, como se tornam necessrios; tocam quadrilhas, fazem danar as feias, ou exaltam as virtudes dos donos da casa. 
So os criados de galo amarelo dos ricaos e banqueiros, ou um mvel de palcio, necessrio  comodidade e ao bem-estar, como um sof de estofo, um tapete aveludado, 
uma cadeira de balano. Um traste, bem vs, que no tem conscincia do papel que representa; sai dali o tocador de quadrilhas, por exemplo, acreditando que  um 
amigo da casa, e dos mais estimados.
- Se todos pensassem como tu, no haveria sociedade possvel.
- Se todos pensassem como eu, a sociedade no seria o que  hoje, uma floresta negra, onde o salteador de luva de pelica assalta o homem honesto; onde o assassinato 
e o roubo tomam tantas vezes o nome de casamento por amor e de aliana por amizade.
J se v pois quanto era difcil a misso de que estava incumbido o Guimares. Segundo todas as probabilidades, o filho do procurador no escaparia naquele domingo 
ao recrutamento a que Guida o condenara no caso de no apresentar substituto idneo. Tinha de sentar praa de cavaleiro servente de Mrs. Trowshy, pelo resto do dia.
Para destruir os escrpulos porventura exagerados de Ricardo, e demov-lo de sua primeira resoluo, fora preciso um esprito hbil e atilado, que sondasse os motivos 
de sua recusa e os abalasse. Ora, o Guimares era a mais positiva denegao dessas qualidades; s tinha viveza para as frioleiras; incapaz de sentir, como de compreender 
as nobres suscetibilidades da alma do colega, nunca poderia desvanecer-lhe a repugnncia.
Ao contrrio, nenhum tipo to prprio para arredar cada vez mais o jovem advogado da casa do Soares! O enfatuamento da riqueza, a impertinncia do herdeiro a quem 
a vida do pai retarda o gozo da legtima, a ambigidade dessa posio no meio de um passado de dvidas e de um futuro de dissipao faziam daquele moo o contraste 
vivo de quanto h de delicado no corao e de sensato no esprito.
A presena, a simples presena daquele boneco, a torcer constantemente o bigodinho, e a mirar-se todo em si mesmo, quando no encontrava um espelho, produzia em 
um homem srio o efeito de uma lixa moral: eriava a epiderme dalma. Essa fora a impresso que pela manh, na ocasio do passeio, o Guimares deixara no nimo do 
colega, apesar de trocarem apenas algumas palavras.
Guida, pois, tinha errado. Querendo apressar a apresentao de Ricardo, talvez a tivesse impedido. Se o Guimares no fosse  procura do moo, porventura um concurso 
de circunstncias levaria o jovem advogado  casa do comendador. Entretanto, agora, quem sabe se a situao no se agravou, e a dificuldade mudou-se em impossibilidade? 
a moa no podia prever todos os escrpulos de Ricardo; supunha que o obstculo provinha apenas de uma questo de forma. Entretanto, cumpre confess-lo, no tinha 
ela plena confiana na interveno do Guimares; o que at ento lhe parecera to usual, uma simples apresentao, agora se afigurava a seu esprito como um acontecimento, 
e quase tomava as propores de um lance dramtico.
O Dr. Nogueira, sentando-se perto dela, tomara sobre a mesa um lbum de paisagens da Sua.
- No tem vontade de passear  Europa, D. Guida? disse ele folheando o lbum.
- Muita; por meu gosto j teria ido; mas papai prometeu-me que nestes trs anos me levaria.
- H de ir antes, disse uma senhora sorrindo.
-  verdade! Acudiu outra que tinha compreendido a malcia da observao. E sem o comendador!
O futuro deputado abaixara a cabea, e parecia completamente absorvido em ver as estampas. Recordava-se do incidente da flor, e no queria provocar segundo motejo, 
quando procurava apagar a impresso do primeiro.
- No entendo! dissera Guida fitando seu lmpido olhar no semblante da senhora.
- Casando-se, Guida. Agora  moda; as moas que podem vo passar a lua-de-mel em Paris.
-  bem possvel que me case antes de trs anos, D. Guilhermina; mas asseguro-lhe que no me lembro disso.
Guida pronunciou estas palavras com a maior calma. As contnuas aluses a esse assunto, banalidades com que de ordinrio se entretm as moas, a tinham habituado. 
Longe de corar ou perturbar-se, como aquelas que sofrem desse fraco, ficava to serena como se lhe falassem do baile que havia de festejar os seus dezoito anos.
- Altdorf!... disse o Dr. Nogueira em meio solilquio observando a vista da cidade sua.  a ptria do libertador: de Guilherme Tell!
Guida lanara os olhos  estampa.
- A senhora recorda-se do fato?  o assunto de uma das mais belas peras do grande maestro, do imortal Rossini. Um elegante escritor francs, Mry, observa com muito 
chiste, que esse primor de harmonia, a msica to sublime do autor da Semramis, foi escrito sobre um libreto indigesto, sem merecimento e at sem gramtica. Isto 
prova, minhas senhoras, que o corao no precisa para ser eloqente nem de sintaxe, nem de retrica.
- J se representou aqui no Rio de Janeiro essa pera? perguntou D. Guilhermina.
- Guilherme Tell? Sim, minha senhora; h muitos anos.
- Qual  o enredo?
-  com alguns episdios o fato histrico. Sabe que Gessler, governador da Sua e homem cruel, aborrecido com a fama de bom archeiro que tinha um campons, chamado 
Wilhelm, teve o brbaro capricho de obrig-lo a atirar ao alvo em uma ma colocada sobre a cabea do filho. Embora tivesse o archeiro plena confiana em sua destreza, 
a idia de que uma linha podia fazer dele um assassino de seu prprio filho, o enchia de terror. Mas o que no pode a vontade do homem? A flecha arrebatou a ma 
da cabea do menino inclume. Contudo o pai j tinha outra embebida no arco. Para que esta segunda flecha? perguntou o tirano.
- Para ti, se eu tivesse a desgraa de ferir meu filho.
- Bonito, no , Guida?
-  com efeito admirvel, continuou o doutor; entretanto a percia do alemo nada  a vista da destreza dos selvagens do Brasil. Estes faziam coisas incrveis.
- Deveras?
- Furavam os olhos de um pssaro a voar; e flechavam o peixe dentro dgua.
- Que vista! acudiu D. Guilhermina.
- Este ponto indica o lugar donde Guilherme Tell atirou. Aqui ele pronunciou aquela palavra que foi o primeiro grito de liberdade de sua ptria.
-  ento o Ipiranga da Sua? disse Guida sorrindo.
- Justamente; mas o nosso Ipiranga no tem uma fonte, nem sequer uma lpida, que comemore o dia 7 de Setembro. Bajulam-se os reis e os grandes; mas no se honra 
a nao. Quando eu for deputado, hei de advogar esta causa, que  a dos brios nacionais.
O doutor voltou a pgina:
- Esta  Friburgo, clebre por sua ermida, que um homem s, cavou na rocha viva trabalhando 25 anos; verdadeiro milagre de f e pacincia. J ouvi contar um fato 
anlogo, sucedido em Minas; mas esse, a ser verdadeiro,  mais para admirar porque foi um aleijado dos braos que trabalhava com os ps, e assim construiu uma capela. 
Desta cidade de Friburgo assim vieram os primeiros colonos que fundaram a nossa cidade do mesmo nome.
- Ah! Nova Friburgo. O ano passado l estivemos! exclamou uma travessa menina.
- Eis Genebra e o seu belo lago;  a ptria de Rousseau, de Calvino, de Stal e outros personagens ilustres.
Continuou Nogueira por algum tempo essa viagem a vo de pensamento pelas montanhas da pitoresca Helvcia, que ele tinha visitado havia trs anos. Descreveu o aspecto 
dos campos e bosques durante o inverno, e aquela natureza spera e desabrida, que educa o homem para os grandes cometimentos, ensinando-lhe o trabalho, como uma 
defesa contra o  frio e a fome.
Guida e as senhoras o escutavam embebidas, quando o Guimares passou defronte da janela.
- Onde iria o Guimares? Perguntou o doutor com indiferena.
- Foi convidar a pessoa que ele ficou de nos apresentar, respondeu Guida com a maior naturalidade.
A moa ergueu-se para saber o resultado da comisso. O Guimares vinha nadando em satisfao; de ordinrio o porte do moo e a sua compostura manifestavam o enlevo 
que ele sentia da prpria pessoa. Naquele momento, porm, era uma aleluia viva.
A filha do comendador e o Nogueira conjenturaram que o Guimares fora bem sucedido, mas cada um a seu modo.
- Vem; pensou a moa.
- No vem, felizmente! cogitou o doutor.
O Nogueira no sabia da penitncia que estava reservada ao Guimares; por isso entendia que o motivo de sua satisfao era ver-se livre do novo e temvel competidor, 
depois de haver delicadamente condescendido com o desejo da moa.
- Ento? perguntou Guida ao filho do procurador.
- s quatro horas c est.
- Obrigada, disse a menina apertando-lhe a mo.
Estava satisfeito seu capricho; no pensou mais nisso. Poucos instantes depois, Nogueira encontrou-se com Guimares:
- J sei que foi infeliz em sua embaixada.
- Nada. Fiz como Napoleo; foi s ir, ver e vencer.
- Tenho ouvido atribuir estas palavras a Csar, replicou o doutor; mas naturalmente h erros nos historiadores.
- Csar ou Napoleo,  a mesma coisa, com a diferena de falar um o latim e o outro o francs.
- Neste caso as palavras que citou devem ser de algum Csar em portugus. Mas ento o sujeito vem? E o senhor chama a isto vencer? acrescentou Nogueira chasqueando.
O Guimares tinha com efeito vencido; mas no como ele dizia,  maneira de Csar, em trs tempos  veni, vidi, vici. Havia nisso modstia de sua parte. Fora mais 
do que Csar; mais do que Alexandre: cortara o n grdio com um revs da lngua. No tivera tempo de chegar, nem de ver, e j tinha vencido; bastou-lhe abrir a boca.
A coisa se passara deste modo. Prximo  casa de D. Joaquina, Guimares encontrou Fbio; este o desenganou. Atordoado, saiu-se o Guimares com uma pachouchada:
- Quem sabe se o Nunes no pregou algum calote no comendador e...
- Boa idia! Atalhou Fbio a rir. Sabe que mais! L vamos comer o jantar do homem.
- Olhe l!
- Com certeza!... Eu me incumbo do negcio.
- Ento s quatro horas?...
- Sem falta.

XI

Tinham dado trs horas da tarde.
Guida recolhera a seu aposento; era o momento de vestir-se para o jantar.
Sentada defronte do toucador, percorria com os olhos os dois guarda-roupas, cheios de vestidos de vrios gostos e padres. Conhecia-se que estava embaraada na escolha, 
e esperava alguma inspirao para improvisar a ode de gaze, seda e rendas, que escrevem cada dia as senhoras elegantes.
H duas espcies de faceirice.
Uma  inocente e pura expanso da beleza. A mulher bonita obedece a uma lei da natureza, revelando-se na plenitude de sua graa; enfeita-se, como a flor desabrocha, 
como a estrela cintila, como o cu se anila. Deus criou tais primores para serem admirados.
Esta faceirice  casta, sem afetao; seu desejo resume-se em ser natural, em revelar a gentileza prpria no maior brilho.  a poesia de Horcio, a msica de Bellini, 
a pintura de Rafael, copiadas no traje da mulher formosa.
A outra faceirice consiste em uma orgulhosa ostentao da beleza. A mulher no cede  fora espontnea de seu organismo, mas ao estmulo da vaidade. Adorna-se como 
o cristal que imita o diamante, ou como a centelha que se afigura uma estrela na treva da noite.  linda. Mas pretende ser esplndida.
Esta faceirice vive da afetao, que transforma uma criatura humana em um aleijo da moda. No se contenta com ser admirada; exige a adorao, o culto ardente de 
todos que a contemplam, embora tenha de pagar com olhares e sorrisos o incenso que lhe queimam aos ps.
Guida no tinha decerto esta faceirice de mau cunho, espcie de ouro-pel da beleza; mas sentia, como toda a moa bonita, o desejo inato de ser castamente admirada. 
Naquele dia esse desejo adquiria a intensidade que costuma em ocasies de espetculos, festas e bailes.
Entretanto nada disso havia em casa do comendador Soares. Era o jantar habitual dos domingos, talvez menos concorrido do que em semanas anteriores. Afora as pessoas 
que tinham assistido ao almoo, ningum mais se esperava alm dos dois bacharis; mas a presena destes no dava decerto o carter de uma festa quela simples reunio 
campestre.
Quem pudesse acompanhar o pensamento de Guida, nessa ocasio, conheceria sem dvida a causa de seu embarao na escolha do vesturio. A menina, recostada na cadeira, 
tinha comeado a calar um par de botinas cor de prola; mas de repente se distrara, permanecendo na mesma posio, com o pezinho mimoso cruzado sobre o joelho 
e os olhos fitos no espelho, onde parecia rastrear a sombra das cogitaes que lhe perpassavam na fronte pura.
Guida lembrava-se de seu primeiro encontro com Ricardo, e da srie de impresses que se tinham gravado em seu esprito desde aquele momento.
Rindo-se da atitude de namorado em que vira o moo, e aproveitando o pretexto para brincar com sua mestra, a menina pouca importncia deu quele pequeno incidente; 
e j o tinha completamente esquecido, quando, na volta do passeio, ouvira casualmente um trecho da conversa dos dois amigos.
Como todas as pessoas que vivem na alta sociedade e em posio superior, Guida estava acostumada  maledicncia. J no estranhava, quando via uma ao ou uma palavra 
acremente censurada pela mordacidade e pela inveja. Ela prpria na sua qualidade de dote milionrio, disputado por tantos adoradores, no era um altar onde se queimavam 
como incenso tantos despeitos e cimes?
Entretando a palavra grave de Ricardo, a opinio severa desse desconhecido, pronunciada com a calma e firmeza da razo, traspassou a alma da moa de uma sensao 
desagradvel. O olhar que ela deixou cair sobre os dois moos, foi de desdenhosa altivez; mas a eletricidade do lampejo bem indicava que o corao se confrangera, 
e o cu dessa alma pura se toldara.
- Ora! dizia Guida interiormente ao chegar  casa, que me importa a opinio desse moo a meu respeito! No tenho juzo?... Mas no ando aos beijos com as flores 
que encontro! No pareo uma criana, apesar de ter dezesseis anos?... Se h homens que, mesmo de cabelos brancos, ainda so meninos... No  de admirar...
Durante o resto do dia no se lembrou do incidente; mas  tarde, a cena provocada por Sofia avivou as impresses da manh, dando-lhes porm novo aspecto. O mancebo, 
que lhe aparecera de manh como um pensador grave, mostrava-se agora elegante cavaleiro; por outro lado, ela, que se queixara interiormente da censura do desconhecido, 
no acabava de a justificar arriscando a vidad e um homem com um de seus caprichos, a posse da cachorrinha mal-educada?
Quando Ricardo desapareceu na volta do caminho, uma voz murmurou num cantinho da conscincia:
- Ele tinha razo!...
Depois estas preocupaes se afogaram de novo no entretenimento da conversa e da msica. S ressurgiram um momento, antes de adormecer, nesse crepsculo da alma 
entre a viglia e o sono, quando as impresses do dia flutuam vagamente diante do esprito como objetos que se imegem na sombra.
A imagem de Ricardo beijando a flor perpassou no meio da viso. Nessa hora em que a travessura do gnio alegre j estava sopitada, o corao expandiu-se. Guida pensou 
que devia ser ardente e sincero aquele amor que exalava, no ermo,  face de Deus; talvez fosse um amor infeliz.
Se eu pudesse saber a sua histria!
Adormeceu; e sonhou que encontrara a florzinha agreste cor de ouro, e que esta lhe contara a razo por que o moo a beijava. Mas de manh no se lembrava mais da 
histria; s lhe ficara a imagem fugitiva do sonho.
As moas afagam muito os sonhos, quase tanto como costumam as mes aos primeiros filhos. A razo  porque os sonhos so os primeiros filhos da imaginao da menina 
que chega  adolescncia. Os desejos vagos, as tmidas esperanas, os perfumes do corao, que no se animam a exalar-se durante o dia, rescendem  noite, no abandono 
do sono, como o aroma de certas flores que s abrem com o orvalho.
Guida ocupou-se durante o dia com o seu sonho; e passando pelo mesmo lugar onde na vspera encontrara Ricardo, desejou ver a flor e conhec-la. Viu com efeito; achou-a 
muito linda; desde esse dia ficaram amigas. Sempre que vinha desses lados quebrava alguns ramos, que levava consigo.
A lembrana de Ricardo se apagara completamente do esprito de Guida, e do primeiro encontro no restava outro vestgio seno a afeio  linda florzinha agreste, 
quando o encontro na Cascatinha veio debuxar outra vez a reminiscncia fugitiva. Guida, que j havia notado o garbo e a beleza do Galgo, pde ento contempl-lo 
a seu gosto; e a estampa do lindo cavalo foi a recordao que lhe ficou desse domingo.
Mais tarde o acaso lhe deparou a ocasio de ver a aquarela do lbum de Ricardo. A suspeita ou pressentimento de que o desenho representava seu vulto a cavalo, excitou-lhe 
vivamente a curiosidade. Ela daria sem hesitar o mais querido dos seus caprichos, Edgard ou Sofia, para ver aquela paisagem.
A imagem de Ricardo, passada a primeira impresso, desmaiava a pouco e pouco. Os ltimos encontros j no lhe destacavam os contornos: o vulto do desconhecido permanecia 
vago, indistinto, no fundo das reminiscncias da moa. Fora um homem, um homem qualquer, que passara um momento no horizonte de sua existncia, e s lhe aparecia 
agora como uma sombra.
O que estava bem gravado na alma de Guida, o que ela afagava em algum momento de cisma, no era o moo, no; mas coisa muito diversa. Era a linda flor agreste, a 
quem amava; era o formoso cavalo, que desejava ardentemente possuir; era finalmente a aquarela do lbum, que ansiava por ver Ricardo no figurava nas recordaes 
da menina, seno como um amigo da flor amada, como o dono do cavalo cobiado, e o autor do desenho misterioso.
Sem dvida era agradvel ao esprito de Guida que a pessoa ligada a ela por essas relaes, fosse um moo distinto pela inteligncia e educao. Nas poucas vezes 
que de relane vira o advogado, a moa tinha reconhecido ou antes pressentido nele com o tato da mulher os dotes do esprito e do corao. Por isso consentia que 
a lembrana do desconhecido se associasse em sua memria aos objetos de seu desvelo.
O encontro daquela manh no mudara a situao do esprito de Guida. Ricardo dera novamente provas de delicadeza e galanteria; deixara de ser um desconhecido, para 
assumir a posio digna que lhe davam um grau cientfico e uma profisso nobre; mas seus ttulos ao interesse especial da menina continuavam os mesmos. Se no fosse 
a flor, o cavalo e o desenho, passaria desapercebido aos olhos da filha do milionrio, ante a qual de curvavam diariamente tantas distines do talento, da posio 
e da riqueza.
Guida estimou bastante que Ricardo estivesse nas condies de ser apresentado em sua casa, e que as circunstncias facilitassem essa apresentao. Mas por qu? Seja 
embora desconsolador para o romance o motivo que influa no corao da menina, no podemos ocult-lo.
Desde que se estabelecessem relaes com o moo, podia ela satisfazer sua curiosidade de ver a aquarela, preparava a aquisio do lindo animal, e teria um cavaleiro 
destro para dirigi-la no caso de ser o Galgo fogoso demais para montaria de senhora; finalmente conversaria sobre a flor querida, com algum que tambm a amava. 
Mais tarde, quem sabe? Saberia a histria daqueles beijos ardentes; mas isso era menos importante, j pertencia  imaginao e no ao corao.
Realmente no h poesia que resista a essa fria autpsia da alma e dissecao do sentimento.
Quando se devia esperar que os encontros romnticos de uma moa rica e bonita com um mancebo pobre, mas de grande talento e nobre carter, gerassem no corao virgem 
uma paixo potica e generosa; quando se podia contar com um idlio gracioso bafejado pelas auras suaves da Tijuca, perfumado pela fragrncia das flores agrestes, 
embalado pelo canto das aves de envolta com o murmrio das guas, e aljofrado pelos orvalhos daquele cu azul, o romancista no acha mais do que um capricho de criana, 
uma curiosidade infantil, um desejo de menina travessa.
Felizmente Ricardo no amava Guida, nem sentia por ela a vaga inquietao, que anuncia crises de corao. Felizmente: porque do contrrio teria de sofrer a angstia 
de uma cruel decepo.
Depois de repassar estas reminiscncias, o pensamento da menina voltou ao objeto que as tinha provocado,  escolha do traje para aquele dia. Precisava, queria agradar 
a Ricardo, e por isso estudava o meio, no de excitar-lhe a admirao, deslumbrando-o como brilho da beleza ou da opulncia, mas sim de atra-lo pela simpatia.
O resultado se sua cogitao foi repelir o par de botinas que tinha na mo, um primor de arte: duas jias de camura trabalhadas pelo Guilherme. As persianas da 
alcova cerraram-se, derramando no aposento um doce crepsculo. A beleza casta  violeta, que s abre na sombra.
Ainda no eram quatro horas quando Guida apareceu na sala.
Tinha um vestido branco de extrema simplicidade, fitas no cinto e no cabelo, botinas de duraque preto, e uma gargantilha de veludo da mesma cor, com um medalho 
de jaspe. Era de jaspe tambm a pulseira, ofuscada pela alvura do brao mimoso, que surgia dos folhos da manga, como uma magnlia dentre frocos de neve.
S no andar se revelava a deusa, disfarada com esse traje modesto e comum. Apenas assomou na porta da sala, todos os olhares se fitaram nela, e a alma de cada um 
de seus apaixonados desdobrou-se sobre o tapete, para ter o sumo gozo de ser pisada por aquele passo airoso, que se desenvolvia como a ascenso de um astro.
As senhoras porm no puderam conter a surpresa. Onde a filha de um milionrio, a moa mais elegante do Rio de Janeiro, conhecida pelo seu luxo e bom gosto, onde 
fora buscar aquele traje comum, que uma menina pobre aceitaria para chegar  tarde  janela, mas no traria por certo em um domingo, quando houvesse visitas em casa? 
Algumas no acreditariam uma hora antes que a filha do Soares possusse em seu guarda-roupa os acessrios precisos para criar um adereo to vulgar e rococ.
Guida conseguira portanto realizar seu pensamento. Achando em suas recordaes a imagem de Ricardo, como a de um moo pobre e de um carter austero, compreendeu, 
com a admirvel intuio da sensibilidade feminina, que o meio de atrair essa alma no era decerto a ostentao d sua formosura e opulncia; ao contrrio, por esse 
modo aumentaria a repugnncia que levara o advogado a declinar o primeiro convite, e sem dvida o afastaria de sua casa.
Era preciso no magoar o pudor da pobreza, no irritar as suscetibilidades de um esprito severo, para conciliar sua benevolncia e obter a sua estima. Bem quisera 
Guida eliminar em torno dela, da casa, das salas, do jantar, dos convidados, o aparato da riqueza a que estava habituada; mas, no sendo isso possvel, desejou ao 
menos que sua pessoa fosse um protesto contra o luxo que a cercava, e uma delicada fineza ao hspede esperado.
As fitas que ela trazia no cinto e no cabelo eram da cor do traje com que andava ordinariamente o jovem advogado. Eu que descrevi esse traje no primeiro encontro, 
j no me lembrava dele; mas Guida o achara no fundo de suas reminiscncias quando pouco antes estivera cismando. No h como as mulheres para guardarem estas arestas 
sutis no corao.
No seio, onde as bandas do corpinho se cruzavam, formando o nveo regao, brilhavam algumas flores e botes de ouro, colhidos pelo advogado no passeio daquela manh. 
Havia tambm nisso uma fineza a Ricardo, um agradecimento  delicadeza com que satisfizera o seu capricho de menina.
Inocente criana! No pensava no mal que podia resultar desses galanteios infantis.
Dentro em pouco devia chegar  sua casa um mancebo, a quem ela encontrara por diversas vezes, e afinal abrira as portas de sua casa. Esse corao jovem, ardente, 
podia notar as identificaes da alma da moa com a sua, expressas por uma combinao de cor ou pelo gosto de uma flor: a estava a centelha da paixo, a fasca 
do incndio que ela ia atear se querer.
Guida descera antes de quatro horas; queria assistir  chegada de Ricardo, no s para evitar a solenidade de uma apresentao em plena sala, como porque sentia 
que sua presena era indispensvel para desvanecer o acanhamento natural de quem pela primeira vez  introduzido em uma sociedade desconhecida.
Davam quatro horas, quando Ricardo e Fbio com pontualidade escrupulosa entravam na casa de Soares.

XII

O comendador Soares jogava a manilha com seus parceiros habituais, trs velhos amigos e camaradas.
O primeiro,  direita, era o baro do Sa. Natural de Minas, onde comeara a vida como tocador de tropa, em uma de suas viagens  corte arrumou-se de caixeiro no 
armazm de mantimentos do consignatrio.
Aos cinqenta anos achou-se o Joo Barbalho possuidor de algumas centenas de contos; e convencido que no era prprio de um grande capitalista chamar-se pela mesma 
forma que um moo tropeiro, trocou por um ttulo -toa aquele nome que valia um braso; fidalgo braso, se j o houve, pois era o do trabalho e perseverana, e tinha 
por timbre e divisa a probidade.
O parceiro da esquerda fazia com o precedente o maior contraste. Curto, esguio e encarquilhado, quanto o outro espaoso e amplo, as mnguas do corpo sobravam-lhe 
nas mos e nariz, ou como diziam os malignos, nas garras e no bico. Tudo o mais era miniatura.
O visconde de Aljuba comeara a sua vida mercantil na escola, onde exercia o mister de belchior. Livros, lpis, roupa, tudo ele comprava por bagatela aos meninos, 
em princpio como agente de um negociante de cacarus da esquina, e depois por conta prpria.
Quando o deram por pronto na escrita e tabuada, arranjou ele uma espelunca, chamada casa de penhor, onde emprestava dinheiro especialmente aos pretos quitandeiros. 
A pouco e pouco elevou-se a clientela, at que pde fechar em sua carteira as primeiras firmas da praa do Rio de Janeiro.
Foi ento que, de repente, o Camacho transformado em visconde, sem que ningum pudesse atinar com o meio por que obtivera, logo de supeto, aquele ttulo, quando 
o costume era comear por baro. Diziam uns que fora comprado, outros que lho tinham dado.
- Nem dado, nem comprado! acudia o Soares em tom de pilhria. O velhaco do Camacho empalmou o aljube, que lhe tinham dado de penhor, e fez-se visconde. Com todo 
o direito! No resta dvida.
Os ouvintes riam; e o visconde, imperturbvel, metia as mos nos bolsos e repetia com certo sonsonete que lhe era prprio, um dito muito conhecido:
- A alma do negcio  o segredo.
Os amigos mais ntimos do Soares, sobretudo o baro do Sa, por vezes lhe tinham feito observaes a respeito da privana a que ele admitia o visconde, cuja reputao 
dava para um excelente heri do romance galote, atualmente na moda.
Mas o Soares, que lhe sabia as anedotas, galhofava.
-  preciso lidar com essa gente, para aprender-lhe as manhas, se no corre-se o risco de ser-se enganado a cada instante. E quem as conhece melhor do que o bicho?
Por isso o Soares, que era um gaiato de conta, a toda a hora, no jogo ou em negcio, chamava o visconde de  meu mestre; com o que este se lisonjeava, pois tinha 
para si que no era pequena glria dar lies de velhacaria a um espertalho daquele trope.
O ltimo dos parceiros, que ficava fronteiro ao comendador, mostrava uma figura respeitvel. Poucas fisionomias possuem aquela sisudez, tocada por uma expresso 
de mansuetude, exalao, ou eflvio dlama, a ameigar as asperezas de uma conscincia rgida e austera.
Nada mais enganador porm do que esse prospecto de homem importante, conhecido por Conselheiro Barros. Dentro, o que havia, era um desses entes ambguos, destinados 
a viver em perptua irresoluo, almas bonachas e inertes, a quem a natureza de em vez de cabea um cabo, em lugar de corao uma azelha, para serem empunhados por 
outrem, sem o que no se movem, nem se abalam.
Em casa, o Barros era manejado pela mulher; se ela no tinha de vspera  noite apartado sobre um cabide a roupa necessria para o dia seguinte, ele no se vestia, 
e era capaz de ficar at meio-dia de chambre e chinelas, como j lhe acontecera. Nunca sabia quando tinha fome, e seria escusado perguntarem-lhe; era D. Guilhermina 
quem lhe regulava o apetite, o sono, e at a molstia. Uma ocasio, ardendo ele em febre, a mulher o persuadiu de que estava perfeitamente bom; levou-o a um passeio 
em que apanharam sol e chuva.  noite, quando se recolheram, o homem nada sentia.
Fora de casa, no saindo com ele, entregava-o a mulher  a um lacaio de confiana, que o levava a visitas e negcios indicados no rol; ou o conduzia direito ao escritrio, 
onde tomava conta dele o seu jovem scio e suplente no mercantil e domstico, segundo o maligno visconde da Aljuba.
Filho do consignatrio, onde se arrumava em rapaz Joo Barbalho, quando deu demo ao ofcio de tocador de tropas, herdara o Barros bom patrimnio, o qual se lhe 
multiplicava na burra, sem que ele se apercebesse do como isso se fazia. Quando o scio no fim do ano lhe atestava com o balano os grandes lucros da casa, no se 
imagina o pasmo em que ficava por muitos dias.
Chegado o tempo de entrar para a roda dos figures, lembrana que bem se v no partiu dele, mas da mulher, e entabulada a negociao, tratou-se da escolha do ttulo. 
D. Guilhermina tinha paixo pelo de condessa, e achava que uma coroa de trs castelos ia s maravilhas com as tranas opulentas de seus cabelos negros.
Desta vez, porm, o marido quis ter voto e ser homem. Preferiu o ttulo de conselheiro; e turrou de modo que no houve meios de arranc-lo da. Nem a mulher, nem 
o scio, nem mesmo o Soares, que era um orculo para ele, o demoveram do seu propsito. Essas almas de gelatina tm isso de particular, que em se inteiriando, tornam-se 
guascas; no dobram mais.
Foi o nico momento, em que esse homem, habituado desde a sua vinda ao mundo a ser qualquer, foi eu. Toda a energia que devia ter despendido a pequenas doses durante 
quarenta anos, acumulou-a para empreg-la de um s jacto. Debalde tentaram persuadi-lo que podia ser conselheiro e conde ao mesmo tempo contando que pagasse em proporo. 
Na paga, no havia dvida de sua parte; mas a prtica do mundo lhe ensinara que o conde mata o conselheiro; e se ele casse em afidalgar-se, ningum o trataria jamais 
por conselheiro Bastos, que era a sua grande ambio.
A maior concesso, a que chegou, foi consentir que a mulher se fizesse condessa, ela s, ficando ele conselheiro. Neste sentido, a instncias de D. Guilhermina, 
deram-se os passos necessrios; mas o governo, depois de ouvir os mestres da lei, decidiu que uma condessa s pode ser mulher de um conde.
Resignou-se pois D. Guilhermina, com o maior pesar, ao seu nome de batismo; mas no perdeu de todo a esperana. Consta que apelou para a emancipao das mulheres, 
idia de que era ardente sectria, e com razo, porque de seu casal foi ela sempre em contestao o cabea.
J agora aproveitemos a ocasio para completar o quadro, com alguns traos biogrficos do Soares.
Era ele paulista; e dos quatro o mais moo, e mais rico ele s do que todos os outros juntos. Viera ao Rio de Janeiro pela primeira vez aos onze anos de idade, tocando 
uma porcada, que trazia ao mercado seu tio, velho roceiro de Lorena.
Naquele tempo as porcadas percorriam as ruas, como ainda hoje os bandos de perus. Estando parados em uma rua, enquanto o velho comprava chita, um moleque  sorrelfa 
introduziu no ouvido de um leito uma bicha. Ao estalo do foguete, espirrou o bacorinho, e ei-lo a correr espavorido. O rapazinho barafustou atrs, para atar-lhe 
a corrida.
Mas corrida foi aquela que o meteu por um labirinto de ruas, onde a cabo de uma hora achou-se s tontas, sem novas do bacorinho nem do tio. Quanto mais procurava 
orientar-se, mais se atrapalhava; e todo o resto do dia levou a quebrar esquinas, at que exausto de fome e de cansao, acocorou-se no vo de uma porta, a engolir 
as lgrimas que lhe queriam saltar aos bugalhos.
Passava um menino de volta do colgio, acompanhado de seu pajem, que sentindo lhe puxarem pelo jaqu, voltou-se e viu o lapuzinho, de mos postas a implor-lo.
- Que tem voc? perguntou-lhe com pena.
- Me perdi!
O menino era Barros, filho do consignatrio, onde j estava de caixeiro Joo Barbalho. Levou o caipirinha para a casa; e a famlia compadecida o agasalhou, mandando 
em busca do velho roceiro, que no foi possvel encontrar apesar de todas as pesquisas. Resolvido a encarreirar o rapazito, o consignatrio o arranjou de caixeiro 
em casa de um cambista; e a comeou ele a carreira que devia lev-lo ao apogeu da riqueza.
De gnio franco e jovial, tinha Soares uma fonte perene de alegria, com que orvalhava as agruras da vida; mas atravs dos risos e pilhrias, seu esprito pronto 
e seguro trabalhava com a inflexibilidade da moda de ao que move as figuras de um realejo.
Suas melhores operaes, combinava-as no meio de um jantar ou de uma partida de jogo, e executava-as a galhofar. Brincava com seus milhes, como um menino com seus 
trebelhos.
Sendo de todos o mais rico, era para notar-se que fosse o menos graduado. A comenda era uma histria, e vale a pena saber-se.
Quando a riqueza de Soares tornou-se slida e incontestvel, at para os invejosos, comearam a cham-lo de comendador, e por mais que o milionrio metesse a coisa 
a ridculo, defendendo-se contra a honraria, por tal modo vulgarizou-se o tratamento, que no houve meio de resistir-lhe. O pblico soberano entendeu que um homem 
to recheado de ouro no podia existir sem que fosse ao menos comendador, como qualquer troca-tintas.
- Ora pois! dizia o Soares, eis-me comendador por unnime aclamao dos povos. Mas h de ser da ordem do bacorinho!
Essa referncia  humildade de sua origem, ele a fazia freqentemente; e percebia-se que tinha sua vaidade em ter subido de to baixo quela sumidade financeira. 
Custava-lhe a compreender o vexame do baro do Sa, quando aludiam ao comeo de sua carreira, e por isso estava sempre a apoquentar o amigo chamando-o de baro do 
lote, com o que este se resmoa.
Ficou pois o Soares comendador, por uso e cortesia, como tanta gente boa; e ningum havia nesta corte imperial que no o acreditasse inscrito no grande livro das 
ordens; no que de todo no erravam, pois era ele terceiro de So Francisco de Paula. Mas este Santo no consta que fosse cavaleiro, e palmilhava como qualquer plebeu 
sem esporas, nem prospias.
Em cartas, sobretudo nas de empenho, em listas de acionistas de banco, chapas de diretores, e gazetilhas, l vinha estampado o infalvel comendador; que aderira 
ao nome do Soares, como uma dessas alcunhas implacveis que perseguem certos indivduos toda a vida, e afinal colam-se  gerao, criam razes e transmitem-se a 
toda a descendncia. O pblico  um tirano, e bem gaiato s vezes.
 bem possvel, pois, que  imitao dos mais, j o trataste eu de comendador e continue a faz-lo.

XIII

A partida estava empenhada. O Barros fizera a vaza; cabia-lhe a mo.
- Quem joga? perguntou Soares.
-  o conselheiro! respondeu o Baro.
- Ento podemos ir jantar. Temos tempo, e ainda chegaremos cedo.
De fato o Barros, na forma do costume, esperava que o conclio dos sujeitos que o estavam aperuando, decidisse a grande questo da melhor carta a jogar.
- O homem quer abarrotar-nos? observou o visconde. Est pensando.
- Anda conselheiro, instou o Soares; se pensas tanto, ficas em branco para outra vez.
O banqueiro queria bem, do fundo dalma, ao filho de seu falecido benfeitor, e por ele faria todos os sacrifcios. Mas a veia sarcstica, que ao prprio dono no 
poupava, s vezes sem ele o querer, beliscava o inofensivo e pachorrento amigo. Nunca o Soares pudera tomar ao srio o ttulo de conselheiro do Barros; e por isso 
inventara aquele termo mais apropriado, pela etimologia idntica  de cabeleireiro.
Impassvel como sempre, o Barros nem se ressentiu, nem se apressou.
Foi nessa ocasio que aproximou-se o Guimares, acompanhado de Ricardo e Fbio, a quem fora receber na entrada:
- Sr. Comendador, tenho o prazer de apresentar-lhe os meus amigos, os Srs. Dr. Nunes e Dr. Arajo!
- Tenho muito prazer em conhec-los! Esta casa est sempre ao seu dispor, quando queiram. Nada de cerimnias. Estamos em famlia!
Estas palavras, Soares as proferiu soerguendo-se da cadeira, no tom de cortesia e amabilidade corriqueira, de que na sua qualidade de milionrio era obrigado a fazer 
gasto freqente com a turba de parasitas e gaudrios, que assaltam as casas ricas.
Depois do usual aperto de mo, voltava  partida que fora um instante distrado, e j esquecera os novos hspedes, em cujas feies nem reparara, quando sentiu no 
ombro o doce toque da mo de Guida:
- Papai,  o Dr. Nunes que esta manh encontramos no passeio.
- Ah! exclamou o milionrio erguendo-se e abandonando a mesa do jogo.
Notara Guida de parte a desagradvel impresso que deixara na fisionomia de Ricardo aquele acolhimento de carregao que lhe fizera o banqueiro; e por isso indiretamente 
advertira o pai de que tratava-se de um hspede especial, e no de um intrometido.
- Eu  que devia primeiro visit-lo, doutor, para agradecer-lhe seus obsquios; mas os velhos merecem desculpa dessas faltas, no  assim?
- Quando as h; mas neste caso, s vejo uma extrema fineza da sua parte, Sr. Comendador.
- Perdo! No tenho comenda de qualidade alguma;  uma intriga de certa gente. No faa caso. Chame-se Soares, sem mais.
- Queira desculpar, acudiu Ricardo. Eu no sabia, Sr. Soares.
- Sem dvida, nem vale a pena falar mais nisso. Quero apresent-lo  minha mulher. Onde est tua me, Guida?
- Na sala.
Apresentando Ricardo a D. Paulina, o Soares deixou-o em companhia das senhoras.
- Desceu muito depressa a Pedra Bonita? disse Guida ao advogado. Ns voltamos logo depois e j no o avistamos.
- Estavam  minha espera.
- E o seu cavalo  muito bom!
- Est acostumado aos morros.  um bonito passeio o da Pedra Bonita; no o tinha feito ainda.
- Que pena! No chegarmos at acima! disse D. Clarinha.
- Iremos outra vez! acudiu Guida.
- Depois que o encontramos, o senhor no faz idia, Guida ficou impaciente por voltar! disse a sonsa da Clarinha.
- O sol estava muito quente! observou Ricardo.
- No foi por isso; o passeio tinha perdido a graa para mim, respondeu a altiva menina com serena candidez.
Fbio conversava com D. Paulina, que ria-se dos seus gracejos. Guida, que se afastara do grupo das senhoras para sentar-se perto da me, tomou parte na conversa; 
e  hora do jantar estavam, ela e Fbio, muito camaradas um do outro.
Na ocasio de passarem  sala da comida, Fbio aproximando-se de Ricardo, disse-lhe rapidamente ao ouvido:
- Ento ainda achas que fiz mal?
Ricardo encolheu os ombros. Fbio o tinha resolvido contra vontade a aceitar o convite do Soares. Para isso foi necessrio afianar-lhe que dera sua palavra de honra 
a Guimares, e o fizera para esmagar a calnia de que ele se tornara eco.
Era Ricardo dos homens para que no h bagatelas em matria de probidade. Desde que exigiam dele um sacrifcio em nome dos escrpulos de conscincia e do respeito 
 palavra de honra, era certo obt-lo ainda que se tratasse de uma ninharia. Assim exprobrando a Fbio de se haver comprometido sem o consultar, e quando j conhecia 
sua repugnncia, se resignou  humilhao de que bem desejava poupar-se.
O primeiro acolhimento de Soares foi como uma nomeao que ele recebesse, ali ante toda gente, de parasita da casa. O sentido daquelas palavras feitas em amabilidade, 
 guisa de filhoses de algodo, ele bem o compreendeu: Entra; eu te admito no rol dos gaudrios desta casa; come, diverte-te, intriga; arranja teus negcios; caloteia 
os meus amigos; namora nossas filhas; desfruta-me por todos modos. Dou-te licena para tudo, at para falares mal de mim; contanto que mobilies minha casa com decncia. 
Tenho grandes salas, ricos tapetes, cadeiras de estofo, soberbos jantares; mas preciso de gente de casaca, para encher estas salas, pisar esses tapetes, sentar-se 
nessas cadeiras, e comer estes jantares.
A Ricardo no surpreendeu a recepo: ele a esperava. Todavia incomodou-o tanto a realidade que decidiu eclipsar-se no meio da confuso, e retirar-se antes do jantar, 
sem prevenir Fbio.
Demoveu-o desse intento a distino com que logo depois o tratou Soares e a famlia. As prevenes que trazia, se de todo no se dissiparam, ao menos emudeceram, 
diante do carter franco do banqueiro, da singeleza ingnua de D. Paulina, e na natural e graciosa iseno de Guida, que parecia flor extica naquele ureo clima 
do milho.
Sentiu que deixara de ser um nmero de rol, um annimo perdido na turba; e por conseguinte no tinha j o direito de se escapar, sem dar satisfao. A delicadeza, 
e tambm o assomo ainda vago dum desejo a espontar, exigiam que assistisse ao banquete do Soares.
- Chamam-nos para jantar! disse o dono da casa convidando com um gesto seus hspedes a passarem ao salo.
A Ricardo estava destinado um lugar  direita de D. Paulina; quanto a Fbio, como no se lembravam dele, e pela simples razo de j haver tomado conta da casa, a 
igual de conhecido velho, foi colocando-se ao lado de D. Guilhermina, que mostrava-se encantada com a lbia cintilante e espirituosa do bacharel.
- Doutor Nunes, cuide de si! disse o Soares logo depois de tomada a sopa, seno minha mulher deixa-o com fome.
- Fico prevenido! respondeu Ricardo sorrindo.
- Est sempre a brincar! Observou D. Paulina, respondendo ao sorriso do moo.
- Como quer comear?  francesa pelo peixe, ou c  nossa moda brasileira pelo cozido? tornou o dono da casa.
- J estou servido.
Um criado acabava de trazer o prato de peixe, que lhe servira a Guida fazendo como de costume as honras da casa.
No correr do jantar conversando com D. Paulina, Ricardo sentia um prazer ntimo, como que um aroma das rosas guardadas no seio dalma. Era que o aspecto sereno da 
senhora, a efuso de bondade que ressumbrava de toda a sua pessoa, e especialmente as maneiras to lhanas, lhe estavam retratando na imaginao o aspecto venervel 
de sua me, e mostrando a tal como havia de ser, se a fortuna a colocasse no pinculo da riqueza.
s vezes, Guida sentada  cabeceira e atenta a seus deveres de dona-de-casa, que ela exercia com exmio tato, intervinha com alguma observao na conversa de D. 
Paulina; e Ricardo recordava-se de Bela, to linda como a filha do banqueiro, embora lhe faltasse o garbo que dava ao talhe da ltima supremo realce.
Falando a me dos vrios stios da Tijuca, a moa disse para Ricardo:
- Domingo, havemos de ir  Vista Chinesa!
- Com muito prazer.
-  um passeio agradvel! observou D. Paulina.
- A vista  soberba; mas como passeio, a Barra.
- E tem razo;  mais pitoresco! replicou Ricardo.
- Por que ento no convidaste antes o Sr. Dr. Nunes para ir  Barra?
- Por qu?...repetiu Guida a sorrir. O caminho do Jardim  melhor para galopar.
- Travessa! disse D. Paulina com bondade.
- Gosta muito de andar a cavalo? perguntou o advogado.
- Muito!  minha paixo!...
Ao exguo visconde, sumido atrs do enorme peru, no escapavam as vrias impresses que se manifestavam na fisionomia do banquete, sob o rudo da conversa banal 
travada de uma  outra ponta da mesa, e acompanhada do tinir dos cristais e ranger dos talheres.
O prato  o homem; traduo livre do axioma de Brillat-Savarin: Dis-moi ce que tu manges, je te diirai ce que tu es. Diante do visconde erguia-se um coculo de 
iguarias; mas era um cmulo usurrio e avarento; compunha-se de uma nica de cada coisa. Servia-se do primeiro ao ltimo dos acepipes; mas s tirava o juro: uns magros 
3%.
Com dois daqueles pratos enciclopdicos, estava jantado.
Nesse momento comia ele rapidamente, resmoendo com um dos tais bocados esta palavra, que lhe restava a fazer ccegas nos lbios:
- Que lgebra!... Que lgebra!...
Na linguagem peculiar do visconde lgebra significava uma dessas operaes intrincadas de juros acumulados e mltiplos, inseridos em clusulas aleatrias e onzeneiras, 
que fulminam o msero cado nas garras de um capitalista mitrado.
Notara o modo atencioso com que o Soares, depois da sutil advertncia da filha, tratara a Ricardo; tambm a fineza de o colocarem  direita de D. Paulina; e por 
ltimo o gesto srio e meigo com que lhe falava a Guida, para os outros sempre desdenhosa com o remoque a frisar-lhe o lbio.
Lobrigou nesse concurso de circunstncias um plano de casamento, que, bem conduzido, podia ao cabo de um ano tornar Ricardo o feliz possuidor de um dote milionrio, 
com o acessrio de uma galante pequena.
E o capitalista, que houvesse fornecido ao noivo em projeto os fundos necessrios para sustentar a posio, poderia retirar da operao um lucro prodigioso.
No meio deste monlogo que reproduzimos sem o sainete de seu estilo financeiro, o visconde comeou a calcular, como se fossem algarismos, os gros de ervilha que 
espetava no garfo:
- Vamos ver: 500$ por ms, para o patife lordear por a e meter num chinelo a rapaziada da rua do Ouvidor; em um ano, temos 6:000$, dois anos que digamos, 12:000$. 
Para o alfaiate, charutos, carro e o diabo, ponhamos 8:000$, sem falar dos calotes que ele h de pregar  grande. A temos 20:000$. Com um juro magro, de 3%, acumulado 
de ms em ms, vai ficar-me o tal boneco um tanto salgadete. Mas pode render uns duzentos contecos...
Nesse ponto o visconde foi interrompido por um incidente.
O Dr. Nogueira observava o enlevo de D. Guilhermina a escutar os floreios que Fbio murmurava-lhe a meio tom; derreando-se no encosto da cadeira, passou por fora 
da mesa ao Bastos, colocado trs lugares mais longe, uma observao maliciosa.
O Guimares que de passagem apanhara o dito, percebendo pelo riso do Bastos que havia esprito, assentou de aproveit-lo.
- Meus senhores, uma novidade!
- A firma Barros e Cia vai admitir um scio de indstria, gritou repetindo textualmente e dito do Nogueira.
Felizmente poucos lhe davam ateno; mas nestes o pasmo foi geral. Percebendo pelo espanto quanto era crespa a graa, o Guimares tratou logo de tirar de si a responsabilidade.
- Foi o Dr. Nogueira que disse!
- No costumo falar por procurador, meu caro! acudiu o candidato, carregando na palavra.
O Guimares, que se envergonhava da profisso do pai, amoitou-se, remexendo-se na cadeira.

XIV

Que luzida companhia desfila pela estrada do Jardim?
Assim  conhecido o caminho que serpeja pelas encostas da serra da Tijuca, e contornando a base da montanha desde a Cruz, no alto da Boa Vista, vai morrer das praias 
de Copacabana.
Cerca de dez cavaleiros, entre os quais elegantes amazonas, baralham-se na marcha ligeira e trote dos fogosos cavalos, soltando  brisa da manh e aos ecos das quebradas, 
exclamaes de prazer, rplicas joviais, e o saboroso riso da alegria descuidosa.
A uma quadra de distncia aparecia outro pequeno grupo, do qual cavaleiros e cavalgaduras faziam com o primeiro absoluto contraste.
Era figura proeminente nele Mrs. Trowshy, flanqueada  direita pelo visconde da Aljuba, e  esquerda pelo Sr. Bencio, um dos mais assduos comensais da casa do 
comendador. Seguia-os  cola o Sr. Daniel, como sempre metido naquele srio e empertigado, que lhe servia de estojo.
Os quatro iam montados em mulas baias, que no mais cadente chouto os chocalhava dentro das roupas e da pele, como sacos metidos em bruacas. Por vezes Mrs. Trowshy, 
amiga da palestra, buscou travar conversa com o visconde; mas a voz, j prestes a sair da boca aberta, com o solavanco afundou-se-lhe pela garganta abaixo; e no 
houve meio de tirar seno um gorgoto.
Condenados assim ao silncio forado, e sacolejados at o mago, os quatro companheiros de passeio, temendo esbroarem-se com o trote infernal, haviam tentado cada 
um por sua conta moderar o ardor  respectiva mula; mas fora baldado o intento. As baias estavam postadas, e no havia modo de dobrar-lhes os queixos, por mais que 
puxassem dos freios.
Se uma parasse, todas a imitariam; mas a estava a dificuldade, que nenhuma queria ser a primeira; entendiam l entre si que a sua dignidade burresca sofreria com 
semelhante condescendncia.
Afinal a inglesa no pde mais com o vascolejo, que estava por um tris a sacudi-la pela boca fora; pediu socorro ao Sr. Daniel, que tambm se via nos mesmos apertos.
- Se...nhor, nhor, nhor... Da...ni, ni, ni...
Ouvindo afrautar-se a voz de Mrs. Trowshy  maneira de fuga entre bemol e sustenido, pensou o criado que a mestra ensaiava alguma ria italiana, onde figurasse um 
tenor com o seu nome, o que lhe fazia l por dentro umas ccegas mui gostosas.
Foi quando a ltima slaba de seu nome, depois de gargarejar algum tempo na solnora laringe da professora, e rompendo afinal dos queixos britanicamente cerrados 
como uma bala raiada, vibrou um grito de angstia, que o Sr. Daniel, subitamente arrancado ao seu enlevo, compreendeu o susto da mestra.
No trmulo olhar que lhe permitia o chouto valente da mula, viu o grosso volume da inglesa aos trambolhes na sela, e por tal modo, que ia a despencar-se ao cho, 
e s por milagre escapara at aquele momento.
Bem quis o Daniel parar a mula e apear-se para acudir a tempo; mas ainda uma vez convenceu-se que nem sempre governa o de cima. Quando ruminava essa reflexo filosfica, 
ouviu-se um gemido, e a inglesa adernando ento completamente como uma corveta inglesa de quarenta canhes, despenhou-se da sela abaixo.
Deu-se nesta ocasio, porm, um incidente, que precisa de explicao.
As mulas em que vinham os quatro companheiros de passeio, eram as baias do tiro do comendador Soares, acostumadas a trabalhar juntas, quando a vitria ia  Tijuca 
ou ao Jardim, puxada a quatro. Naquela manh, crescendo o nmero dos passeantes, foi necessrio recorrer a esses animais, que passavam por dar sela.
A Gatinha, que era a mo da primeira parelha, tocou a Mrs. Trowshy; e a Sinh, sua companheira, ao Daniel. Da Segunda parelha deram a da mo ao visconde, que 
por exceo naquele Domingo arvorou-se em passeante, e meteu-se no meio da rapaziada; a da sela ficou para o Bencio.
Ora, desde o princpio do passeio que as mulas procuravam emparelhar-se, como de costume; mas a Gatinha, fustigada pela inglesa, metera-se entre as duas da outra 
parelha; e a Sinh, a quem o Daniel trazia bem esticada a rdea, era obrigada a ficar atrs.
Com o susto, soltou o criado de todo a rdea; de modo que a Sinh, metendo o focinho, alongou-se pelos ilhais da companheira, e to a tempo, que o busto respeitvel 
da matrona, ao virar de querena, encontrou o toro magrio mas rijo do Daniel, que lhe serviu de espeque.
Emparelhadas e de rdeas soltas, as duas mulinhas despregaram pelo macadame um trote bonito, que era o orgulho do cocheiro do Soares, mas nesse momento causava o 
desespero do Daniel, agarrado ao aro para escorar a rotunda que desabara sobre ele.
Todavia, ao cabo de alguns instantes sentiu que ele prprio ia aluir-se ao peso da carga; na sua aflio gritou aos outros:
- Acudam,  senhores, que eu s no agento!
O visconde e o Bencio, cuja parelha trotava no coice da outra, como se a prendessem os tirantes e guias da carruagem, no pediam aos cus outra coisa seno que 
lhes fosse dado parar as mulas e pr um termo quele chouto formidvel, que ia com certeza esmoer-lhes os ossos e bater-lhes manteiga dos miolos amassados dentro 
da cachola.
- Ento, senhores! Exclamou o Daniel j esmagado, mas tentando um surto. Deixam cair a mestra de D. Guidinha?
O principal cuidado do ilhu era a sua esposa, ameaada seriamente de ser despenhada com aquele desabe humano que por seguro o achatava em terra.
Na impossibilidade de sofrearem as mulas e faz-las parar a fim de, apeados, acudirem ao Daniel e ampararem da queda a inglesa, os dois aclitos tiveram nesse transe 
supremo um rasgo herico. Estendidos, quase deitados ao pescoo das baias, cada um inteiriando o brao direito, meteu a mo a trambolho luso-britnico e o afincou 
na sela.
Afinado cada vez mais no trote largo e cadente, o tiro das mulas despejou o caminho s braadas, conduzindo em charola a grotesca penca dos quatro; e com pouca demora 
apanhou a luzida comitiva, que j tinha moderado o primeiro ardor.
Ao dar com o grupo cmico, digno de uma farsa eqestre em circo de cavalinhos, despregou-se o riso de todos os lbios, e uma gargalhada estrepitosa rolou pelas quebradas 
da serra, como a cascata grande da Tijuca a espadanar por entre os fraguedos.
Topando com outros animais, as baias moderaram o entusiasmo e afinal estacaram, pois a um aceno de Guida alguns cavaleiros tinham saltado ao cho a tempo de apararem 
na queda a cambulhada humana, que j de todo pendurada sobre as ancas da Sinh ia finalmente despencar-se.
Concertada a marcha da comitiva, continuou ela a passo por algum tempo, no s para dar respiro  batida dos animais, como sobretudo para que Mrs. Trowshy e os seus 
companheiros de tiro tornassem a si da esfrega e pudessem de novo soldar-se na sela.
Na frente ia Guida, montada no Galgo, que ela governava com a mesma elegncia e correo do costume, mas com certa preveno que se revelava na firmeza do gesto 
e vivacidade do olhar. Ela sentia que no tinha de haver-se com a arrogncia aristocrtica do filho de lbion, mas com a briosa independncia do rdego curitiano.
Perto da moa vinha Ricardo em Edgard, conversando com D. Clarinha. Aos lados, Guimares e o Bastos disputavam a direita ou a esquerda da moa, conforme as sinuosidades 
do caminho e evolues da cavalgada.
No segundo plano notava-se D. Guilhermina a par com Fbio, que se desempenava em um soberbo cavalo campista, cujo defeito nico era ser um tanto pesado. Seguiam-se 
outras moas e cavaleiros, sem contar a bagagem pesada, que fechava agora o bando.
Eram sete horas da manh, e pouco havia que o rancho alegre partira.
Conforme o ajuste do domingo precedente, Ricardo s seis horas se dirigira  casa do Soares. No lhe causava o mnimo alvoroto esse passeio; dispunha-se a ele, como 
ao cumprimento de um dever de cortesia.
Guida o convidara para obsequi-lo; e ele, que reconhecia-se injusto nas prevenes que nutrira contra o banqueiro e sua famlia, considerava-se obrigado em conscincia 
a aceitar de rosto alegre o agasalho que lhe faziam nessa casa. Era o nico meio que tinha de agradecer a fineza.
Todavia, no foi esse o principal motivo. Da conversa de Fbio, percebeu ele que o amigo ardia em desejos de tomar parte no passeio, e no faltaria por certo, se 
o Galgo pudesse dividir-se em dois ou estivesse em moda a garupa.
Desde ento Ricardo, que tinha suas razes, no hesitou mais; e decidiu-se a ir ao passeio, para evitar que Fbio o substitusse.
Muito cedo, pois, chegou  casa do Soares. Grande porm foi a sua surpresa, e no menor a contrariedade, avistando no ptio, entre o grupo de senhoras e cavaleiros, 
que se preparavam para montar, a Fbio ocupado em apertar a cilha do cavalo de D. Guilhermina.
Madrugando nesse dia, contra o costume, o sobrinho de D. Joaquina se aprontara e sara a passeio para o lado da Boa Vista. Afagava-o uma esperana.
Em caminho encontrou D. Guilhermina que voltava do banho com outras:
- Ento no vai  Vista dos Chins? perguntou ela.
- No arranjei animal! respondeu Fbio.
- Que desculpa! Eu lhe empresto um. Venha!
Fbio acompanhou as senhoras  casa do Soares. No ptio j estavam arreando os animais. D. Guilhermina chamou um escravo:
- O cavalo do Sr. Lima aqui para o Sr. Dr. Fbio.
- Sim, senhora.
- Este castanho  o seu? perguntou Fbio.
- Acha bonito?
- Soberbo!
Guida, que descia os degraus da escada, viu Ricardo apear-se, e foi-lhe ao encontro:
- Como passou?
Saudara ao moo com estas palavras e um aperto de mo; mas o olhar cheio de afagos foi para o Galgo. Havia nesse olhar a anglica voluptuosidade com que a moa 
cobia um capricho, e a menina uma boneca.
Edgarg estava pronto e esperava pela senhora. O estribo de Guida era feito de modo que lhe permitia montar sem auxlio de banco, apesar da altura do cavalo. Era 
um simples inveno de seu gnio travesso, a qual o melhor corrieiro da corte, o Lambet, se incumbira de pr em prtica. A volta do loro passando na mola atravessava 
o suadouro e prendia-se no outro lado a um pequeno gancho pregado na armao do selim e elegantemente disfarado por uma aba de couro.
Antes de montar o loro frouxo descia o estribo at o ponto de no constranger; elevando-se rapidamente sobre esse apoio, de um salto a moa galgava o selim; e recolhendo 
o loro, prendia-o mais curto, encaixando o ilh no gancho.
Assim tinha ela a liberdade de apear-se quando queria, durante o passeio, e montar sem auxlio estranho.
J estava com o p no estribo, e a ampla saia do roupo mostrava a ponta da bota castanha a brincar sobre o disco de ao quando, tomada de sbito a desgosto, afastou-se 
de Edgard:
- Aborrece-me este cavalo!... disse ela com enfado. Pedro!...
O preto acudiu.
- No h outro animal para mim?
- E o alazo? perguntou o preto embasbacado e apontando para o isabel.
- No quero este!...  muito feio.
- Oh! que injustia! disse Ricardo sorrindo.
- O senhor acha bonito?
-  um soberbo animal.
- Pois v nele.
- E a senhora?
- Eu irei em qualquer.
- De modo algum. Se o Galgo no fosse to esperto!
- Por isso no! Mas o senhor no se h de privar por minha causa. No; eu fico, vou passear a p.
Depois de alguns escrpulos mais por parte de Guida, a instncias de Ricardo, fez-se a troca; e partiu enfim a passeata.

XV

Em uma aberta do mato que borda o caminho, avistaram os passeantes ao longe a barra da Tijuca, ao longo da qual estendia-se o cordo de espuma das vagas, como uma 
franja de arminho, guarnecendo o manto de cetim do oceano, a embeber o azul do cu.
Os passeantes saudaram com uma exclamao de prazer o quadro encantador daquela marinha, tocada pelos raios do sol nascente, que aveludava as cores mimosas da palheta 
americana.
Com um pouco, dobraram o Canto da saudade, e os olhos desafogados do arvoredo que vestia a orla do caminho, se desdobraram vidos pelos horizontes abertos, recreando-se 
com a paisagem de vrias chcaras, derramadas no vale, ou alteadas pelas assomadas das fronteiras colinas.
Entre estas notam-se principalmente duas, a do Moke, por ser das residncias mais antigas que se estabeleceram nesse aprazvel stio; e a do Dr. Cochrane, arranjada 
 feio de um modesto parque ingls, o que lhe atraa outrora grande nmero de visitantes.
Aqueles dos passeantes, que mais conheciam o prdio por t-lo percorrido freqentes vezes, apontavam de longe os vrios pontos de recreio:
- Olhe, l est o lago!
- E a ilha!
- Ali, por aquele caminho vai sair-se na Cascatinha.
- L naquele morro  a Vista do mar.
- Como se chama a ilha?
- Malacoff.
E outras exclamaes.
Talvez nessa ocasio percorria o escritor destas pginas as bordas do lago sereno, em seu passeio matinal, bem longe de imaginar que teria de referir a comdia, 
cujas figuras principais passavam ao longe, sem que ele as percebesse.
Entre todos os alegres companheiros, s Ricardo mostrava-se reservado, como j era naturalmente fora da intimidade, e ainda mais quando tinha preso o esprito de 
uma constante preocupao.
Seu olhar inquieto se repartia entre Guida, que ia perto, mas pouco adiante, e Fbio, que o seguia a pequena distncia, do lado oposto.
Percebendo o desejo de Guida, o moo insistira em satisfazer-lhe inocente capricho, com o oferecimento do Galgo para aquele passeio.
Causava-lhe to ntimo prazer a circunstncia de poder ele, um pobreto, prestar um obsquio no meio daquela sociedade cosida a ouro, que os primeiros receios sobre 
o animal se desvaneceram com a segurana da gentil amazona.
A caminho, porm, conheceu Ricardo que embora Guida se mostrasse to destra, como era elegante cavaleira, todavia o seu pulso delicado, que cerrava o canho da luva 
de camura amarela como a corola de um jacinto a desabrochar, teria o vigor necessrio para domar a impetuosidade do generoso corcel?
E o Galgo nessa manh estava nem de propsito em um de seus momentos de fogo. A presena dos outros animais excitava-lhe os brios generosos; e o ar puro da manh, 
que ele hauria s golfadas para lanar das narinas em fumo ardente, parecia repass-lo da ligeireza e mobilidade do vento.
Ricardo, sabedor das travessuras e floretas com que nessas ocasies costumava o Galgo divertir-se, e lembrando-se de quanta firmeza de rdea e agilidade carecia 
para evitar que estes folguedos se transformassem em revoltas srias e cleras indomveis, Ricardo estava em constante sobressalto e arrependido de haver consentido 
na troca.
Acompanhando a garbosa inflexo da mo esquerda de Guida, a cada instante passava-lhe prudentes avisos sobre o manejo do animal, advertindo-a dos sestros e modo 
de os corrigir ou abrandar. Guida ouvia-o com indiferena, quase distrada, e apesar de sua afabilidade com o advogado, bem se conhecia que essa solicitude beliscava-lhe 
o amor-prprio; pois a moa tinha presuno de ser perfeita cavaleira.
No escapava a Ricardo essa contrariedade; mas, ainda com risco de desagradar, no poupava as observaes, toda a vez que as julgava necessrias, embora por ltimo 
j procurasse um disfarce para as dissimular.
Se tirava os olhos do Galgo e da elegante amazona, era para relance-los ao lado oposto, onde Fbio brincava com D. Guilhermina. J no domingo anterior notara 
a assiduidade do amigo junto  mulher do conselheiro; mas sups que no passava de um galanteio sem conseqncia.
O noivo de sua irm, bem sabia o advogado, era dos tais de corao andejo e bulioso, que no podem ficar quietos, como crianas que so; mas esto sempre a bisbilhotar 
quanta boneca lhes cai no goto. E o pior  impedi-los de traquinar, pois so capazes ento de estrepolias diablicas.
Na manh do passeio, contudo, entendia Ricardo que o galanteio j ia entrando demais pelo recato de uma senhora casada.
Fbio no s tinha servido de escudeiro a D. Guilhermina para suspend-la do banco, meter-lhe no estribo o p elegante, e arranjar-lhe as dobras da saia de montaria, 
como continuara pelo caminho a exercer o mesmo agradvel mister.
Era ele quem levava o chapeuzinho de sol, o leno, as flores, o leque e at o chicotinho de madreprola da senhora, que lhe confiara de boa vontade todos esses objetos, 
no s pela comodidade de os trazer  mo em um cabide ambulante, como para dar ao moo o prazer de os guardar.
Se precisava do leno para enxugar os lbios midos do sorriso, como um lils ressumando orvalhos; se tinha fome, como o colibri dos perfumes de seu ramo de violetas; 
se os dedos cativos na luva de pelica bronzeada sentiam mpetos de se agitarem, como os passarinhos de voar, e queriam divertir-se a cortar os talos das folhas com 
a vergasta do chicotinho, Fbio prontamente lhe passava o objeto desejado, e nessa troca, repetida de instante a instante, as mos se tocavam uma e muitas vezes 
no meio dos risos causados pelos desencontros.
Quando o sol montando as assomadas fronteiras comeou a castigar o caminho, Fbio apressou-se em abrir o chapelinho de sol para resguardar o rosto da formosa senhora, 
que de bom grado prestou-se a essa fineza oriental como uma sultana a receberia de seu escravo.
Assim, tendo necessidade de conchegar o animal para melhor interceptar o sol, sentia Fbio roar-lhe pelo brao a linda espdua, cujo tpido conchego o trespassava. 
Nestas ocasies um ligeiro rubor repontava na face aveludada da moa; mas desfolhava-se logo em um riso desdenhoso, como uma rosa a que a chuva arranca as ptalas.
Esse jogo mtuo de ademanes e brincos, Ricardo o considerava no mais simples amabilidade, porm namoro formal e j escandaloso para uma senhora casada.
Nisso mostrava Ricardo o seu atraso nas regras da boa sociedade. Ainda estava pelo antigo rojo, quando se reparava em tais bagatelas, e fazia-se mau juzo da senhora 
que desse a qualquer moo, ainda mesmo um ntimo, tanta liberdade.
Atualmente  a moda; a moa solteira ou casada, que no tiver essas maneiras distintas, certamente no passa por elegante.
Outra circunstncia muito incomodava a Ricardo: era a facilidade com que Fbio insinuava-se nessa sociedade, onde ambos se deviam considerar apenas como hspedes 
de arribao, prontos a deix-la ao cabo de algumas horas. Ao contrrio, o amigo j comeava a desfrutar os favores com tal desembarao, que pouco faltava para entrar 
no rol dos ntimos, espcie de parasitas da pior casta, porque no s devoram os jantares e ceias, estragam os cavalos, carruagens e mveis, mas babujam a reputao, 
quando no a honra.
Eis os motivos que traziam to preocupado o jovem advogado durante o passeio.
Outra pessoa porm perseguia a Fbio com olhares furibundos; era o Bencio, que por vezes tentara aproximar-se, mas tivera de ceder  baia, rebelde ao freio, e mais 
teimosa que ele!
Estaria o Bencio tambm apaixonado por D. Guilhermina?
E por que no? Apesar as compridas pernas, do longo talhe em abbada, e da cabea a trs quinas, pode um homem ter o corao sensvel.

XVI

Prximo  crista da montanha, onde o caminho talhando-lhe o cimo, comea a descambar para a vertente, deu-se um pequeno acidente que s notaram trs pessoas, alm 
daquelas entre quem se passou.
- Pode fechar! disse D. Guilhermina para Fbio indicando-lhe com o olhar o chapu de sol. O senhor deve estar cansado!
- Por to pouco? No me prive deste prazer.
- Deveras? Acha que  um prazer trazer um chapu de sol aberto? perguntou a moa com remoque.
- Para abrig-la do sol?... Decerto que o !
- Neste caso deixe-me tambm experimentar. Faa-me o favor de passar o meu!
Fbio quis desobedecer e retorquiu; mas, insistindo a senhora, deu-lhe o chapelinho de cetim verde e contentou-se com apertar-lhe a ponta dos dedos, que no fugiram 
a tempo de escaparem  cilada.
D. Guilhermina tinha casualmente, por duas ou trs vezes, encontrado o olhar perscrutador de Ricardo; e sentindo-se alvo da ateno do moo, tambm teve de seu lado 
curiosidade de observ-lo.
O chapu de sol de Fbio interceptava-lhe o olhar; afastou-o pois, e adiantou o cavalo de modo a no perder os movimentos do moo, sem deixar contudo que ele o percebesse.
D. Guilhermina era bonita, e tinha conscincia de sua formosura, que estava ento no esplendor.
Teria vinte e oito anos; de desenvolvimento tardio, como uma dlia a que faltasse por algum tempo o sol, essa idade que para outras comea a desfolha, para ela, 
depois de dez anos de casamento, era a mais brilhante florao.
A tez aveludada de seu colo; o fresco e delicioso encarnado das faces; olhos rasgados como duas favas de baunilha e afogados em cristal de leite; a oca, talvez grande, 
mas primor de graa, cheia de sedues irresistveis; e as formas encantadoras do talhe modelado com a maior correo e harmonia; tudo nela estava respirando o vio 
dessa plenitude da mocidade que  o apogeu da mulher.
Como era natural, essa beleza, to reputada nos sales, sups-se o objeto de uma admirao ardente, e talvez mesmo j envolta em sentimento mais terno. Qualquer 
dvida desapareceu no esprito da moa, apenas notou a expresso de desgosto que se derramava na fisionomia franca de Ricardo, ao surpreender um requebro ou ademane 
namorado de Fbio.
Desde ento procurou o olhar de Ricardo e encontrando-o tentava ret-lo com um lnguido volver do seu. Uma vez demorando-se muito tempo em aspirar o perfume das 
violetas com os olhos fitos no mancebo, deixou depois cair a mo que segurava o ramo, e este escorregou ao cho.
O chapelinho de sol, faceiramente inclinado, ocultou esta mmica s acesas vistas de Fbio; e um relancear rpido e vivo indicou a Ricardo a queda do ramo de violetas.
O primeiro assomo do advogado foi ditado pela cortesia; as rdeas colhidas de pronto sofrearam a marcha do animal. Mas logo aps retraindo, mostrou-se de todo alheio 
ao incidente; nem suspeitou sombra de provocao, onde s via mero acaso.
D. Guilhermina porm parara de repente procurando em si um objeto que lhe faltasse.
- O que ? perguntou Fbio solcito. Perdeu alguma coisa?
A resposta demorou-se um instante  espera que Ricardo se voltasse; mas este afastava-se.
- Meu ramo!
- Caiu sem dvida; vou procur-lo.
Fbio retrocedeu  cata do ramo; mas j o Bencio o tinha apanhado, e para no machuc-lo, o trazia a p, puxando a mula.
- Faz favor! Disse Fbio.
- Nada, meu senhor; quero entreg-lo  dona.
D. Guilhermina que esperava parada, o recebeu, mui contrariada.
- Pode seguir, Sr. Bencio, disse Fbio que desejava aproveitar a ocasio de ficar s com a moa.
- No se incomode! Talvez D. Guilhermina tenha outra vez necessidade de meus servios.
A mulher do conselheiro percebendo a impacincia de Fbio e receando que ele tivesse algum desaguisado com o pachorrento Sr. Bencio, ps o cavalo a meio galope.
- Viva!! disse o moo contentssimo por livrar-se do sujeito.
Mas o homem, soltando o chouto  mula, a estava rente com eles e os acompanhou at apanharem os outros.
A Guida no escapara a provocao de D. Guilhermina, e vendo Ricardo render-se no primeiro assomo, sorriu. Era a ocasio de subtrair-se  vigilncia contnua que 
o dono do Galgo exercia sobre ela.
- Bravo, D. Guidinah!...
- Nem a rainha do ar.
Estas exclamaes do Bastos e Guimares festejavam as escaramuas com que a moa se divertia  beira do profundo despenhadeiro.
Voltando-se, viu Ricardo as curvetas do Galgo, e adiantou-se:
- Confesso-lhe que estou arrependido da troca! Pensei que a senhora no fosse to...
- To estabanada!... Pode dizer!... acudiu a moa.
- Queria dizer imprudente, apenas.
- Muito obrigada! retorquiu com um sorriso de gentil motejo. Tenho eu culpa das estrepolias de seu cavalo?
- Mas eu preveni-a do quanto ele  rdego! No suporta certas birrazinhas que a senhora costuma fazer a Edgard!  um caipira, como eu.
- Est o senhor tambm querendo fazer o Galgo pior o que ! No o acho to feroz como o pinta o dono!
- Em todo o caso eu lhe peo, no o irrite!... disse Ricardo alisando a anca do animal para acalm-lo.
- Eu estou bem quietinha, v! disse a moa com as mos cruzadas sobre o gancho do selim. Ainda quer mais? acrescentou atirando a Ricardo um sorriso cheio de malcia.
- Por que no chega mais para o meio? Vai muito na beira do barranco!
- Ah! Tambm faz mal? Pode cair a ribanceira? No ? Mas l; se a montanha vier abaixo?
Ricardo no respondeu.
- Que diz?
- Zombe a seu gosto!... Divirta-se  minha custa, contanto que deixe o Galgo sossegado, tornou Ricardo gracejando.
- Est bom, no quero que tenha queixa de mim.
E inclinando as rdeas, fez o Galgo, j apaziguado, tomar o meio da estrada.
- Est satisfeito?
- Se continuar assim...
- O senhor est prevenido contra mim. Quem sabe se no me fizeram alguma intriga? Pois engana-se, tenho um gnio de gua morna.
- No supunha, acudiu Ricardo; mas depois do que tenho visto esta manh, posso jurar!
- No  verdade?... Estamos quase no fim do passeio e ainda no dei um galope!
- O galope no  das piores coisas.
- Ah!... Ento o galope no faz mal?
- Conforme; num cavalo manso, o galope  agradvel e no tem o menor risco; mas em um animal arisco, como o Galgo, no convm a uma senhora.
-  perigoso? perguntou Guida com um modo cndido.
- Pode tornar-se.
- Deveras!
- Se no acredita...
- Ao contrrio, acudiu Guida.
- Uma tarde destas e neste mesmo caminho esteve a atirar-se com Fbio pela montanha abaixo.
- E como escapou?
- Esbarrando contra os bois de um carro que por felicidade estava atravessado na estrada.
- Ahh!... O tal senhor Galgo faz dessas estrepolias!... repetia Guida afagando o pescoo do animal com a mozinha enluvada.
De repente um sibilo cortou os ares; e o Galgo se arremessou no espao como m turbilho, no meio do qual mal se distinguia o torvelim da saia de Guida, agitada 
pela corrida impetuosa.
Fora o chicotinho que, vibrado pela mo nervosa, fustigara cruelmente o brioso corcel; ao passo que a menina inclinando a cabea desdenhosamente sobre a espdua, 
soltara estas palavras no momento de abandonar-se ao mpeto do animal.
- Quero ver!...
Surpreso, Ricardo olhou um instante o vulto da moa que voava, soltando aos ecos da montanha o seu mote tpico:
- Hep!... hep!... hep!...
Cobrando-se logo do enleio causado pelo imprevisto arrojo, Ricardo largou rdeas a Edgard, que partiu  desfilada no encalo do Galgo, e sem dvida o alcanaria, 
pois, contido pelo freio, j o curitibano moderava o primeiro mpeto.
Mas Guida ouviu o estrupido; e voltando-se, conheceu que Ricardo a seguia e talvez a alcanasse. O chicotinho sibilou nos ares, semelhante a uma vbora que se enrosca; 
e o Galgo, alongando-se como uma flecha, devorou o espao.
No meio daquele turbilho, pareceu ao moo que o talhe esbelto da menina oscilava na sela, e buscou afirmar a vista, quando um grito de terror, que se escapara fremente 
dos lbios de Guida, cortou os ares.
Fincar esporas no isabel e dispar-lo com um tiro de canho, foi para Ricardo um movimento maquinal, que ele executou antes de pensar.
Estendia-se por diante o lano do caminho, que fazendo, volta na extremidade corta o cabeo da montanha, e ocorre alguma distncia entre dois taludes profundos para 
surdir j na outra encosta da serra, no ponto chamado Mesa.
Havia nesse lugar uma longa mesa, feita de paus toscos e ensombrada por espesso bambuzal. Talvez j o tempo a tenha consumido; h trs anos ainda a vi, reparada 
dos primeiros estragos e j outra vez carcomida.
Quantos piqueniques no tem visto o memoroso bosque dos bambus? Que segredos no guardam em hierglifos e datas os verdes troncos das taquaras, que a foice do trabalhador 
da estrada no cortou ainda para empalhar o rancho? Que banquetes dados aquela rude estiva de varas, sem toalha nem servios de prata, mas to opparos de contentamento 
e prazer?
Passando  direita do bambuzal, alonga-se o caminho pelo lanante da montanha, e ao cabo de algumas braas derrama-se por uma pequena esplanada, que serve como de 
rampa ao magnfico cenrio.
A,  esquerda, no socalco do caminho, est a palhoa onde pousavam os colonos, que abriram o caminho do Jardim e deram nome ao stio. Conhecido a princpio o lugar 
pela simples indicao de Rancho dos chins, a imaginao popular enlevada pela brilhante perspectiva, de lembrana fantasiava alguma das pinturas difanas e aveludadas 
que vira debuxadas em papel de arroz; e da o nome de Vista chiensa.

XVII

Devorou Ricardo em completa disparada o lano do caminho, at a garganta onde sumira o Galgo levando a moa, talvez j de rasto.
Ao entrar no estreito passo, ainda pde ver de relance o vulto de Guida que passava como uma sobra, por defronte do bambuzal. Ferrando de novo as esporas em Edgard 
admirado daquela aspereza, o mancebo, sem perder a calma de que tanto precisava, fez um ltimo esforo para alcanar o Galgo, cortar-lhe a dianteira, e evitar 
a desgraa iminente.
Mas nenhuma esperana tinha de o conseguir; bem conhecia seu cavalo, e avaliando do isabel pela amostra, via que no era ele para bater o corredor paulista, em condies 
iguais, quanto mais com tal partido.
O espao desaparecia; e Ricardo via aproximar-se com espantosa rapidez a rampa da montanha, donde o Galgo ia precipitar-se arrastando a infeliz moa.
J no restava mais que dois trancos do galope, quando arrebatado pela mo destra da amazona, que o suspendeu no ar, o Galgo, rodando sobre os ps, com as mos 
no ar e quase vertical, retrocedeu a disparada em que ia, e sofreado veio esbarrar-se contra Edgard, que seguia a vinte braos de distncia.
Com tamanha rapidez fora executada esta evoluo, que antes de Ricardo voltar a si da surpresa, assomou-lhe em frente o rosto mimoso de Guida, animada pelo ardor 
da corrida, como pela galhardia da sua proeza eqestre.
- No sou to m cavaleira, como pensava! disse-lhe a moa desfolhando um riso fresco e argentino.
- No acho a menor graa nisto! retorquiu o moo com um modo srio e displicente.
- Assustou-se?... Por uma pessoa indiferente!... Se fosse uma irm ou algum que lhe interessasse!
- No  nada agradvel sair-se  a passeio, e ter-se de assistir a uma catstrofe. Se me houvesse convidado para uma representao eqestre  borda de um precipcio, 
eu por certo no me acharia aqui; e sobretudo no concorreria de alguma forma para estas brilhaturas.
- Quer dizer que no me emprestava o seu cavalo? Ento pensa que eu precisava dele para atirar-me da ladeira abaixo, se me viesse  fantasia experimentar essa emoo? 
Est enganado. Para isso preferia Edgard, pois com sua fleuma britnica, s obrigado por mim ele se precipitaria, mas friamente, como um cavalo que se respeita; 
e no desastradamente, e s cegas, como o seu Galgo que no tem maneiras.
- Em todo o caso, a senhora h de permitir que tire de mim a responsabilidade que tomei, sem a avaliar, disse Ricardo em tom firme, embora envolto em um modo corts 
e polido.
- Pois no! A o tem, o seu mimoso! exclamou Guida saltando da sela, com extrema agilidade.
- Desculpe-me...
- Por qu? Por exigir o que lhe pertence? Estava em seu direito. No que no estava, e eu no lhe desculpo,  na idia que fez de mim.
Dos lbios da moa desprendeu-se um riso sarcstico, preldio de sua palavra irnica:
- Pensa o senhor que tendo-o convidado para um passeio, era eu capaz de dar-me ao desfrute de correr um perigo qualquer, como por exemplo, o de atirar-me da montanha 
abaixo, para que o senhor, como um heri de romance, chegasse a tempo de salvar-me? Pois saiba que nada me aborrece tanto como esses romantismos, j to vistos e 
corriqueiros. Alm de que seria incmodo para ns ambos: o senhor teria de suportar todo o peso da minha gratido; e eu de combater a cada instante os escrpulos 
de sua modstia e delicadeza. Imagine o agradvel divertimento que teria cada um de ns, o senhor, esmagado pela minha riqueza e generosidade, eu, crivada pelos 
espinhos de sua dignidade. Ao cabo de um ms no poderamos nos ver; e faramos um do outro a mais triste idia.
Ricardo ocupado em trocar os selins dos cavalos, ouvia impassvel essa loqela. Reprimida a primeira contrariedade, conseguira dominar-se e estava resolvido a no 
interromper a moa; que melhor meio de apagar o fogo quele despeito feminino?
Passeando de um para outro lado, Guida falava, abatendo com a chibata os largos rofos da saia de montar; na ida e vinda lanava a Ricardo um olhar impaciente por 
causa do silncio com que ele a escutava.
- No sabe o conceito que havamos de fazer um do outro?
- No, senhora.
- Eu lhe digo; mas permita que nos substitua por outros quaisquer para haver mais franqueza. O heri do romance teria e herona na conta de uma criatura sem alma, 
nem corao; espcie de mulher de ouro, para quem o sentimento  clculo, e que s conhece uma linguagem, a moeda. A herona consideraria o salvador como um presunoso, 
que aproveitara-se de um mero acaso para se guindar ao pedestal de heri, e humilhar os outros com o seu desdm. Pensa que exagero?
- Ao contrrio, acudiu Ricardo firme no seu propsito de no chocar o melindre da moa.
- J se v que fez uma idia muito errada a meu respeito. No tenho queda para romntica, nem jeito para representar de musa suplementar, e como Safo atirar-me do 
rochedo abaixo, a p ou a cavalo. Sou filha de banqueiro, e deram-me educao inglesa. Devo ter pois o esprito positivo, e saber o valor do tempo, o que quer dizer, 
da vida. Para mim no h homem neste mundo que valha um suspiro, quanto mais um suicdio!
Nesse momento chegava o rancho dos cavaleiros, cujo primeiro susto se desvanecera com esta observao, que, se tivesse acontecido alguma desgraa, Ricardo houvera 
gritado por socorro.
O Bencio correu direito ao paulista, ocupado em mudar os arreios, e atirou-se ao cho como uma bala:
- Sucedeu alguma coisa?... Tenho aqui meu estojo! Se precisa furar... Olhe, aqui est! Quem sabe se a excelentssima no se machucou. Eu tenho aqui arnica!  uma 
coisa que trago sempre comigo! Ento!...
Vendo aproximarem-se os companheiros de passeio, Guida afastou-se deixando Ricardo s voltas com o Bencio, e foi contemplar o esplndido cenrio que se desdobrava 
em face dela.
Alm, na extrema, campindo os horizontes do soberbo painel, o oceano calmo e sereno que se vinha desdobrar at babujar com branca orla de espuma as praias de Copacabana 
e de Marambaia. Era a tela onde se estampava com vivo colorido, sobre o campo azul, a magnfica paisagem.
Um jardim encantado, como se desenha  imaginao, quando lemos aos vinte anos os contos das Mil e uma noites; um sonho oriental debuxado em porcelana ou madreprola; 
tal era o quadro deslumbrante que debuxavam aquelas encostas.
L, no mar, as ilhas que fingem ninhos de gaivotas, a se balouarem ao reflexo das ondas. Na praia junto  Lagoa, as alamedas do Jardim Botnico, recortando em losangos 
os macios da folhagem; e as palmeiras imperiais meneando s brisas da manh os seus verdes cocares.
No vs junto ao stio aprazvel um enorme caramelo, servido sobre uma taa da mais pura safira, como a promessa dos regalos que a natureza americana oferece aos 
que visitam suas plagas?
 o Po de Acar, no esforo a que o reduzem a distncia e a eminncia, donde o avistamos.
A nossos ps, o gigante da pedra, o prcero Corcovado, que o nauta em demanda da barra antolha-se como o guarda desse Jardim das Hesprides e daqui parece agachado, 
como um ano,  base da grande montanha que nos serve de pedestal.
O que porm dava a essa perspectiva um aspecto fascinador, era sobretudo a difana limpidez do ar e uma plenitude de luz que estofava os objetos, cobrindo-os com 
uma espcie de urea expanso. No se podia chamar resplendor, porque no reverberava nem deslumbrava os olhos; era antes uma pubescncia, doce e aveludada, onde 
se engolfavam os olhos com delcia.
Derramaram-se os passeantes pela borda da esplanada para melhor apreciar os vrios pontos de perspectiva, e cruzaram-se as observaes de toda a casta, e as rplicas 
ou risos que elas provocavam.
-  o reino das fadas, disse Fbio a D. Guilhermina, mostrando-lhe o admirvel panorama. Est a senhora nos seus domnios.
- Se assim fosse, eu encantava-o j, respondeu a moa a sorrir.
- Em qu?
- Nesta flor! tornou mostrando-lhe uma violeta que prendeu ao seio.
A esse tempo dizia o Guimares:
- No sei o que acham demais neste lugar! Abalar-se a gente para ver morros trepados por cima doutros!
- Pretexto para o almoo, homem, disse o Bastos, a quem o passeio afiara o apetite; contando que no se demore o farnel.
Era o nosso corretor desses homens cujo estmago professa a maior independncia em relao ao corao e  cabea: imagem de uma repblica bem organizada, com perfeito 
equilbrio dos poderes.
- Fairy!... Fairy! exclamava entretanto Mrs. Trowshy, estatelada diante daquela magnificncia.
- Oh! Guimares! gritou um dos elegantes da comitiva.
- Que  l?
- Eras capaz de virar uma cambalhota daqui no Jardim?
- Abraado contigo.
No seu entusiasmo travou a inglesa do brao do Bencio, que estava engomando com a mo a cala amarrotada pelo burro.
- Look, Sir, how beautiful!
-  Botafogo, sim, senhora! respondeu o homem sem desconcertar-se.
 parte, o visconde parecia enlevado ante a cena maravilhosa; tal concentrao de esprito mostrava sua atitude contemplativa.
- Est admirando, Sr. Visconde? perguntou-lhe Guida.
- Estava parafusando uma coisa.
- No se pode saber? insistiu a moa com malcia.
- O terreno que Deus desperdiou para fazer mar!
Guida voltou-se com um sorriso para Ricardo que escutara o dilogo:
-  dos meus!
Chegaram  Mesa os copeiros com os petrechos do almoo, que formavam a carga de um burro. O Bastos e o Bencio foram dos primeiros a avistar o farnel e deram as 
alvssaras aos mais.
Dirigiram-se ento os convidados ao bambuzal, onde os esperava um lauto almoo.
O visconde da Aljuba no perdeu seu tempo. Enquanto devorava o improvisado almoo, ia resmoendo os seus clculos. Anexara-se  passeata, com surpresa de todos, unicamente 
para julgar por si da posio do Ricardo em relao a Guida.
Os rapazes, que no podiam nem remotamente perscrutar a inteno do refinado usurio, cuidaram que estava apaixonado por Mrs. Trowshy, e pretendia disput-la ao 
Sr. Bencio, o cavaleiro servente da inglesa.
O velho deixava-os rir  sua vontade, e ia lanando na memria, como em um borrador, as observaes que depois contava tirar a limpo.
Assim no lhe escapou o afastamento que de repente, depois da disparada, havia entre Ricardo e a moa.
- Arrufos! dizia consigo o visconde polvilhando de pimenta-do-reino os camares. Isto arde, mas abre o apetite!
E ria-se por dentro da pachouchada.
Depois do almoo, cada um quis deixar nos bambus uma lembrana do passeio. Escreveram uns o nome e a data; outros a simples inicial; D. Guilhermina foi desse nmero, 
e Fbio cercou o dstico de um trao fingindo um corao espetado em um F.
Durante esse tempo o Sr. Bencio, depois de ter fornecido  direita e  esquerda canivetes e tesouras para os dsticos,  sorrelfa tirava os arreios da baia e passava-os 
para o machinho da carga, sem que os copeiros, ocupados a devastar as runas do almoo, dessem pela barganha.
Ricardo gravou o nome da Lusa, sua irm, talvez na esperana de pungir com aquela recordao a alma de Fbio; mas este nem se apercebia de sua presena ali, to 
enlevado o tinham os olhos da mulher do Barros.
O visconde, armando-se de um garfo, marcou um bambu com um enorme cifro; o que inspirou a Guida um enigma pitoresco. Com um grampo desenhou a moa na casca verde 
da taquara um cifro dando brao a um xis rechonchudo, o que todos aplaudiram com risadas descobrindo a aluso aos requebros da inglesa com o usurrio.
s onze horas montaram a cavalo para a volta. Ricardo, a pretexto de arranjar os arreios do Galgo, deixou-se ficar, resolvido a separar-se da companhia, tomando 
pelo caminho de baixo.

XVIII

Quando sups que o farrancho devia ir longe, Ricardo montou no Galgo e seguiu passo.
- Decididamente esta sociedade no me convm, e eu estou fazendo aqui uma triste figura: a figura de um estafermo num baile de mscaras, ou de um enfermo em dieta 
 mesa do banquete. H certas loucuras e vcios da sociedade, em que o homem deve tornar-se cmplice, sob pena de passar por grosseiro ou imbecil. A mim nem ao menos 
resta a consolao do dilema; na opinio desta gente j tenho direito incontestvel  dupla qualificao. Imbecil, porque me falta o jeito para explorar as boas 
relaes com um milionrio; grosseiro, porque no aplaudo  esperteza de uns, ao descaro de outros, e finalmente aos caprichos de uma menina presunosa e mal-educada.
Desatando indiferente estes pensamentos  brisa, com os frocos da fumaa de seu charuto, feriu-lhe o esprito uma recordao amarga:
- Pobre Lusa!... No me quiseste crer, quando te mostrei o carter de Fbio, como ele , homem do dia ou antes do momento, sem elos no passado, nem cuidados no 
futuro. Esses homens so na sociedade a imagem das plantas aquticas, vivendo  flor dgua, sem razes na terra, nem ramas no ar, ervas sempre, como so meninos 
sempre aqueles homens. Cobrem-nas lindas flores, uma folhagem sempre viosa; mas no h a tronco, nem mago. Bem me compreendeste, e tua alma te disse que eu tinha 
razo! Mas tu j o amavas.
Afundou-se ainda mais em suas reflexes:
- E agora? Agora que se atira  sociedade, faminto dos prazeres e divertimentos que tanto cobiou, querer ele, ou poder, nunca mais voltar ao amor obscuro, suave 
e calmo da famlia?...
No meio de suas cogitaes foi Ricardo surpreendido pelo galope de um cavalo que lhe vinha no encalo, e no tivera o tempo de voltar-se quando Edgard flanqueou 
o Galgo.
- No me esperava, aposto! disse Guida com um gesto garrido.
Perturbado com o gracejo da moa depois do que entre eles houvera, e sobretudo com aquele a ss em um caminho deserto, no soube Ricardo que responder.
- Errou o caminho? perguntou ao cabo de alguns instantes.
- No! Quis ficar atrs; e escondi-me.
Era a verdade. Reparando na demora de Ricardo, suspeitou da inteno do paulista, que ela sabia quanto era desconfiado. Sentindo-se culpada, e r de seus assomos 
altivos, assentou de apagar aquele ressentimento.
Pronta em suas resolues, lanou o cavalo a todo galope, e desaparecendo  vista dos companheiros, ganhou sobre eles uma grande distncia. Chegando ao ponto onde 
cruzava uma picada que vai ter ao Moke, apeou-se e escondeu-se no mato com Edgard.
Da viu passar o rancho, e notando a ausncia de Ricardo, esperou que este passasse, para alcan-lo.
Os dois moos seguiam ao lado um do outro, mudos, e enleados daquele encontro. Afinal Guida, revestindo-se da sua gentil petulncia, rompeu o silncio:
- Eu sou uma estouvada! disse ela voltando-se para Ricardo com expresso adorvel.
E como ele no respondia:
- Confesse! No  esse o juzo que forma de mim?
- Nem tanto, replicou Ricardo no mesmo tom. Se dissesse caprichosa e travessa, eu no reclamaria.
- Entretanto minha av me chama de Santinha.
- Talvez as santas sejam assim quando meninas.
- Que quer? Estou habituada a me fazerem todas as vontades!
- O que  bem perigoso.
- Como assim?
- A vontade?...  a fera mais indomvel que eu conheo, bem entendido, para aqueles que a tm, porque no dou esse nome ao influxo que dirige certos indivduos, 
como o vento impele o navio. A vontade  a soberania dalma, a acentuao de sua superioridade moral;  o rei que temos em ns, e que pode tornar-se de repente um 
dspota, contra o qual no h nem o recurso da repblica. Nas senhoras, este autcrata chama-se capricho, como outrora em Roma lhe deram o nome de imperador, moda 
que pegou. O capricho  um tirano do gnero de Augusto. Ama o despotismo brilhante de luxo e galas, representando no tom da alta comdia, por bons autores, e com 
rica decorao! Ah! perdo que estou falando poltica!... exclamou o advogado interrompendo-se a rir.
Ricardo aproveitara o primeiro tema, para quebrar com uma conversa banal, mais ou menos salpicada do sal e humor do esprito, o acanhamento da singular situao 
em que se achava, s com essa moa, em stio ermo.
- Que tem? Eu gosto da poltica... para rir, bem entendido.
-  para o que ela serve.
- Mas quanto ao capricho, no concordo com sua opinio.
-  natural; as posies so to diversas!
- Ou os gnios.
- E o que  o gnio seno o molde que a sociedade imprime nalma desde o bero, pela educao primeiro, e depois pela opulncia ou pobreza, pela grandeza ou humildade 
de condio?
- Ento acredita que no  a natureza, porm o mundo, que nos faz o que somos? Creio que se engana. H pessoas que vivem deslocadas na posio em que a fortuna as 
colocou, e a quel essa posio no pode transformar a alma que receberam de Deus.
- Excees raras. As almas que resistem ao ambiente que as cerca, e no tomam a conformao  do mundo onde se desenvolvem, mas conservam sempre sua feio original; 
essas almas so privilegiadas. Sua misso  reformar, rompendo as cadeias, que manietam as vocaes. Quantas vezes porm no sucumbem? E o mundo nem se apercebe 
das vtimas desse eterno martirolgio social.
-  verdade! disse Guida gravemente, curvando a fronte pensativa.
Com essa inflexo e o formoso semblante tocado de uma doce tinta de melancolia, continuou o caminho em silncio, e como esquecida do companheiro.
A posio tornou-se de novo incmoda para Ricardo, que em vo excogitava um meio polido de romper esse encontro comprometedor para a moa.
Felizmente que veio tir-lo daquele embarao o gnio obsequiado de uma pessoa, a quem no prestamos ainda a devida considerao.
Surdindo de um desabe do talude onde se metera com o machinho para abrigar-se da soalheira, o Sr. Bencio saiu ao encontro de Guida, com um respeitvel chapu de 
sol, empunhado  guisa de pendo de irmandade.
- Aqui est o guarda-sol, excelentssima!
- Obrigada, Sr. Bencio, respondeu Guida arrancada a suas reflexes com um ligeiro sobressalto.
- Mas o sol est to quente!
- Basta-me o vu, respondeu a moa desdobrando o fil verde do chapu.
- Faa favor, D. Guida?
- No posso com o peso da sua barraca, Sr. Bencio, disse Guida com um remoque.
- Por isso no, eu carrego, respondeu imperturbvel o homem.
- Dispenso! acudiu a moa.
- Com licena! tornou o Bencio metendo os calcanhares no machinho a fim de guardar a moa do sol.
- Ora deixe-me!
- A excelentssima pode ficar doente.
- No tenha susto!
- Ento neste tempo em que h tanta febre por a!...
Guida comeou a solfejar o buona sera do Barbeiro de Sevilha.
- A Sr. D. Paulina no h de gostar, quando souber o sol que a excelentssima apanhou. A senhora j est to afogueada!
- Decerto! replicou a moa.
-  o calor!...
-  o seu guarda-sol que me est irritando os nervos.
- A excelentssima h de ver, se amanh no est com sardas na pele. E ser uma pena!
Colhendo as rdeas Edgard, com gesto de impacincia, fez Guida uma evoluo rpida, e fustigando a valer a anca do machinho em que montava o Sr. Bencio, despachou-o 
a trote largo pela estrada fora.
Sacudido pelo chouto cadente, o homem agarrado ao aro da sela voltou-se ainda para reiterar o oferecimento, que era escandido em uma espcie de soluo causado 
pelo vascolejo.
- A excel (uf)... lentssima(uf)... faz mal (uf)... Aposto que (uf)... chegana (uf)... casasta com... (uf) dor de caba...
E mais diria, se no desaparecesse na sinuosidade da estrada.
Era o Sr. Bencio a encarnao de um tipo muito usual de nossa sociedade, o do homem servial, uma das encarnaes do aresko de Teofrasto.
A maior satisfao desse homem era obsequiar; no pensava em outra coisa, no tinha ocupao. Tanta arte e percia punha nesse mister, que o elevara  importncia 
de uma profisso, embora ningum a tenha exercido com o mesmo zelo e amor.
 certo que tinha um empreguito no tesouro, se no era nalguma secretaria de estado. Mas esse no passava de um pretexto para receber os magros vencimentos, e de 
um meio de exercer com maior proveito a sua vocao irresistvel de obsequiar.
Aparecia s vezes na repartio para tratar do negocinho do seu amigo o conselheiro A. ou de seu amigo baro B.; e aproveitava o ensejo para assinar o ponto e pr-se 
em dia com os atrasados. Essa regalia, o chefe no a permitiria a qualquer; e se o fizesse, havia de coar-se com a mofina que sem falta os empregados teriam o cuidado 
de atiar-lhe nos jornais.
Mas a um homem to servial como o Sr. Bencio, quem podia recusar essas liberdades; e quem teria nimo de censur-las?
Achava-se o amanuense em toda a parte, mas sobretudo onde havia pessoas a obsequiar; s em dois lugares era ele incerto, e at mesmo vasqueiro; na repartio e na 
casa de morada. Afora estas excees, ficava-se tentado a crer que o homem tinha o dom da ubiqidade.
Trazia habitualmente uma grande sobrecasaca de pano azul-ferrete, que era menos uma pea de vesturio, do que um agregado de bolsos. Tinha quatro: dois nas abas 
e dois no peito, mas de tais dimenses que se tocavam, acolchoando todo o forro, com o chumao de papis, lenos, carteiras, fsforos e mil outros objetos de que 
andava sempre munido, para ter o sumo de prazer de obsequiar.
Usava chapu de copa baixa e abas largas. Esse traste caracterstico tinha pregado por dentro uma folhinha-carto, um horrio da estrada de ferro, o mapa da partida 
dos correios, e os sinais de incndio; tudo isto por baixo do forro volante de tafet.
Ningum o via, de dia ou  noite, a p ou de carro, sem o enorme chapu de sol verde-gaio a que dera Guida o prprio nome de barraca. A esse traste precioso, devia 
ele o inefvel prazer de preservar os aldores de cancula, ou da chuva repentina, o seu velho amigo senador C. quando atravessava o campo, e o outro seu velho amigo 
o desembargador D. ao sair da relao.
Se ao sair ameaava chuva, ou os calos lha tinham anunciado  noite, munia-se por precauo de um par de galochas de borracha, que sumia na profundeza de um dos 
quatro bolsos insondveis. Achava-se sempre modos de aparecer a propsito para resguardar da lama os ps de alguns personagens desprecatados.
A essa previso deveu ele a preciosa amizade do monsenhor E. Vendo-o um dia entrar no bonde com sapato fino e meia carmesim, acompanhou-o at Botafogo, e a teve 
a satisfao de encaixar-lhe o par de galochas, com que a excelncia patinhou no mingau do macadame, sem mcula das insgnias prelatcias.
Outros objetos constituam o indispensvel do Sr. Bencio e sem os quais no saa de casa: eram os jornais do dia, uma proviso de lenos brancos e de rap, um papel 
de palitos, caixas de fsforos, e um estojo de viagem no qual havia tesoura, canivete, alfinetes, preparos de costura, e at dois frasquinhos, um com arnica e outro 
com ter.
Perdemos de vista nestes ltimos tempos ao digno St. Bencio; mas apostamos que ele introduziu no seu necessrio mais um frasquinho para a hesperidina.
Assim armado de ponto em branco, lanava-se o nosso homem na labutao do costume; por onde ele passava, no perdia ocasio de obsequiar: era mdico, modista, agente, 
recadista, alfaiate, folhinha, gazeta, almanaque, guarda-roupa, estojo, paliteiro e tudo enfim que fosse preciso, contanto que desse largas a seu gnio servial.
Entre duas e trs horas, Bencio era infalvel na rua do Ouvidor. Se a famlia de seu ntimo amigo
O general F. queria avisar a este do lugar onde o estava esperando; se o seu ilustre amigo o conde G. ao chegar ao largo de So Francisco de Paula no encontrava 
o carro e precisava que o fossem chamar;  se a sua respeitabilssima amiga a baronesa H., que andava s voltas com encomendas, procurava alguma casa de pechincha; 
se finalmente o seu bom amigo o camarista I., ou o almirante K., ou o marqus L. queriam perder-se em certas ruas abstrusas e enganar-se de porta: a estava rente 
o incomparvel Bencio; era ele o homem da situao.
Em um pice dava ele com o general em certa barraca de campanha, que este gostava de contemplar, l para as bandas do Mercado, efeitos da nostalgia guerreira; farejava 
o lacaio do conde na barraca do largo da S onde o brejeiro jogava o pacau por conta do senhor; conduzia a matrona a uma casa misteriosa, onde ia todo o mundo grande, 
mas ningum confessava; e por ltimo tais voltas dava com o camarista, o almirante e o marqus, que eles perdiam-se por detrs de umas rtulas...
O Bencio tinha no s um, como diversos abecedrios de amigos; mas entre esses escolhia uma dzia, que eram os do peito. Havia neste ltimo nmero suas disponibilidades 
necessrias, como outrora no conselho de estado. Assim era de rigor que a estivesse o presidente do conselho certo e o provvel, para o que ningum tinha melhor 
faro do que o nosso amanuense; e isso provinha da sua privana com um particular de So Cristvo, o filho, seno o mesmo, que tivera certa contestao com o Dr. 
Frana, o velho. Destas anedotas, j no se fazem hoje em dia.
Para estes amigos do peito era o Sr. Bencio o Petrus in cunctis, o pau para toda a obra. Por isso lhe pagava o estado um conto e seiscentos como amanuense.
Tal era pelo menos  a convico em que estava o nosso homem.
Incorporando-se ao passeio, no tivera o Sr. Bencio outro fim seno dar pasto ao gnio servial. A princpio a fogosa mula baia o impedira de aproveitar as ocasies; 
mas para a volta tivera o cuidado de passar os arreios para o machinho cargueiro.

XIX

Com a arrancada do machinho, bem a contragosto do Bencio, ficaram outra vez ss os dois moos.
Mas a poucos passos de distncia cruza a volta que desce para o vale.
- Aqui, peo licena para separar-me, disse Ricardo.
- No passa o dia conosco?
- H de me desculpar; tenho necessidade de estar em casa.
- J vejo que no esqueceu!
- O qu?
- A impertinncia de h pouco.
- Oh! minha senhora!
- Tem medo de outra cena igual.
- Que idia!
- E eu me no posso queixar.
-  uma injustia que me faz, D. Guida.
- H um meio de convencer-me.
- Qual?
- Passe o dia conosco.
Ricardo hesitou um instante.
- Passarei, disse naturalmente.
Refletiu que se persistisse em retirar-se naquele momento, deixaria no esprito da moa a convico de o haver ofendido, e o desgosto que sempre causa a suspeita 
de ter decado da estima de um homem sisudo.
Que necessidade tinha de humilhar essa moa, de quem afora um instante de contrariedade naquela manh, s recebera amabilidades e delicadezas? Eram mais algumas 
horas de constrangimento, que lhe custava essa condescendncia.
- Agradeo-lhe de corao, respondera Guida. Em outro dia sua companhia me seria agradvel, como sempre.
Ricardo inclinou-se:
- Hoje se no jantasse conosco, eu ficaria triste, acrescentou a moa com um cndido sorriso.
- Ento fique alegre, replicou o moo retribuindo o gracejo.
- E estou!
Uma terceira voz misturou-se ao dilogo:
- Ento a excelentssima no quer aceitar?
Era, no carecamos dizer, o incansvel Sr. Bencio, que tendo afinal conseguido sofrear o chouto do machinho, voltara atrs; e aproximando-se sem que o percebessem, 
ali estava de espinhao arqueado e brao estendido, a empunhar o guarda-sol, em posio de archeiro.
Desta vez Guida no respondeu-lhe e seguiu adiante. Voltou-se ento o Bencio para Ricardo e apresentou-lhe a veneranda barraca:
- Sr. Doutor, V. S.  servido?
- No; obrigado.
- Olhe que o sol est pelando.
- Nem por isso! Ao contrrio, acho bem fresca a manh! Fizemos um passeio magnfico. No gosta da Vista dos chins?...
- Faa favor! Insistiu o obsequioso Sr. Bencio com o guarda-sol.
-  um panorama admirvel; no creio que haja no mundo uma tela igual, a no ser uma que eu conheo de fundo verde-gaio, por detrs da qual se desenha a figura de 
Mefistfeles. No a que representa no drama de Goethe, mas uma que aparece na farsa do Judas em Sbado de Aleluia.
- Tenho muito gosto! acudiu imperturbvel o Sr. Bencio metendo  cara do advogado o chapu de sol.
O riso cristalino de Guida que, ao remoque do moo, trilara como um colar de prolas a desfiar-se, desatou em risada com a rplica do amanuense.
Ricardo tinha dois fins, travando conversa com o Bencio, e falando-lhe em linguagem que para este era grego ou hebraico.
Conseguia em primeiro lugar reter junto de si aquele algarismo social, que tinha naquele momento a grande importncia de uma unidade; somada ao nmero dois fazia 
trs.
Alm disso defendia-se da serrazina dos oferecimentos com que o ia apoquentar, e nada obstava a que tratasse de rir-se em vez de amofinar-se.
- Olhe! no me incomoda.
- J conhecia a Vista chinesa, Sr. Bencio?
- Vim uma vez, o ano passado, e por sinal que fazia um sol de abrasar como agora, e eu ofereci o meu guarda-sol ao Dr. Nogueira, o que valeu-lhe bem! Aceite, tome 
o meu conselho!... concluiu o amanuense enristando de novo a cana para investir contra o advogado.
Apanhado de surpresa, quando pensava que o Bencio ia devagar, protestou Ricardo no cair mais no logro de escut-lo; e tomando a palavra comeou a fazer ao companheiro 
a descrio pitoresca da Tijuca.
- Mais bonito do que a Vista chinesa,  o Bico do papagaio. Ali  que eu o queria ver, Sr. Bencio, para comparar os dois picos. No de l h justamente por cima 
do nariz da pedra uma rvore que finge bem um chapu de sol!
- No faa cerimnia, Sr. Doutor! atalhou o Bencio voltando  carga.
O amanuense divertia  maneira das caricaturas, que depois de vistas, se tornam montonas.
Assim era o nosso homem quando ele exibia algum de seus perfis, de um cmico irresistvel; mas  fora de reproduzir-se com a regularidade de autmato, caa em uma 
insipidez esmagadora.
No tardou que Ricardo sentisse invadi-lo o tdio a ponto de no poder mais suportar nem a vista do amanuense. Para subtrair-se a esse foco de aborrecimento, apressou 
o animal:
-  de primeira fora! disse Guida lendo-lhe no rosto.
- Com efeito! No imaginava!
- H pouco no dizia o senhor que a vontade ou o capricho  um rei? Pois tem destes cortesos!
- Ah!  preciso! So os cortesos que vingam os oprimidos; quando no comprometem, intrigam ou traem os soberanos, ao menos lhes moem um pouco a pacincia.
- No duvido da utilidade dos cortesos, respondeu sorrindo a moa. Mas quanto  sua comparao, no a acho exata. A respeito de capricho h de concordar, que devo 
entender alguma coisa.
- Muito!
- Por uma simples razo! Sou muito caprichosa.
- No acredito!
- Se eu confesso!
- Por isso mesmo.
- H de mudar de opinio.
- Bem, pode ser.  a moda.
- O capricho est bem longe de ser rei.  apenas o valido, o primeiro-ministro ou presidente de conselho, a quem o rei eleva acima dos outros sditos para ter o 
prazer de o contrair, de picar-lhe a vaidade, de criv-lo de alfinetes como ao Sr.***
Guida pronunciou o nome; eu porm que no estou para divulgar a malignidade, e comprometer-me com gente poderosa, substituo-lhe a reticncia estrelada.
- Mas quem  o rei desse valido? perguntou Ricardo.
- O rei?  o mundo, e portanto qualquer pessoa. Pode ser o senhor, por exemplo.
- Eu?
- Por que no? Vou lhe confessar uma fraqueza minha. Eu tenho nestes momentos trs desejos... No cuide que so os da caixinha do jogo de prendas.
- Ainda bem; eu j me tinha lembrado do Sr. Bencio e de seu chapu de sol.
- Qualquer desses trs desejos depende do senhor; entretanto eu estou certa que no  capaz de satisfazer a nenhum.
Estava Ricardo surpreso ao ltimo ponto da direo que tomara a conversa; mas o modo natural de Guida, e a garridice com que falava, o punham a gosto.
- Est me metendo em brios, notou o moo a rir.
- Tambm tenho a minha diplomacia.
- Mas enfim sem conhecer os tais desejos,  que nada posso dizer.
- Decerto! H quase um ms, que esto me tentando! E eu perderia esta ocasio de acabar com eles; pois bem, convencida de que no posso satifaz-los...
Guida levou a mo aos lbios e soltou um arrulo gracioso, que pareceu, com o gesto, desfolhar nos ares:
- Prrr!... solto-lhes as asas e... Adeus, pombinhos!
- Quem sabe?... A senhora est figurando a coisa como muito difcil, para sazonar o gostinho. Aposto que eu vou, como a lmpada de Aladino, realizar esses grandes 
desejos, o primeiro dos quais eu j adivinhei.
- Ah!
-  tir-la da sombra implacvel de um monstro verde-gaio...
- Ora! Eu j nem me lembrava disso.
- Bem; j vejo que no sou forte na adivinhao; o melhor  escutar.
- E no interromper; porque j estamos perto de casa. Quem sabe se no  tambm diplomacia para ganhar tempo?
- Estou mudo como um reposteiro.
- Pois oua. O primeiro desejo era, note que eu no digo ; era que o Galgo fosse meu.
- No vejo a impossibilidade.
- Eu lhe mostro. Se papai quisesse compr-lo, o senhor recusaria vend-lo.
- Certamente.
- Era o nico meio.
- Perdo; h outro.
- No h mais nenhum. O senhor no podia nem pensar em oferec-lo a pessoas com quem no tinha relaes ntimas; e menos agora, depois desta confisso. Portanto 
 impossvel.
- Assim, decerto.
- Passemos ao segundo.
-  verdade, ainda restam dois desejos.
- O meu segundo desejo... Promete no desconfiar? disse Guida voltando-se para ele com gentileza.
Ricardo teve uma suspeita de que a filha do banqueiro o estava debicando, como costumam as moas bonitas e prendadas, para mostrarem esprito e darem expanso  
natural petulncia de um corao de dezoito anos. O primeiro impulso foi retrair-se; mas no se deixou levar dele; seu carter srio no o inibia de aceitar com 
a moa esse desafio de garrulice.
A borboleta queria voejar, ostentando suas roupagens magnficas e farfalhando as asas sussurrantes. No havia ali flor, que libasse; pois seria ele o pretexto desse 
inocente devaneio, do qual tambm de sua parte contava participar.
- Desconfiar?... Fique descansada; no quero passar por provinciano duas vezes no mesmo dia.
- Lembra-se da primeira vez em que nos encontramos? perguntou Guida.
E fitou no moo um olhar, que esperava a resposta da interrogao.
- Foi aqui mesmo na Tijuca! disse Ricardo.
Assomou  face um leve rubor, que o olhar de Guida evitou, mal o percebeu.
- O senhor estava muito embebido a olhar a florzinha amarela...
- Sim; a da Pedra Bonita?
- Essa mesma.
- Admirava.  um mimo essa flor.
-  uma jia, ; mas deixemos a flor por enquanto. Eu tambm tenho paixo por ela e a admiro. Mas o senhor admirava e fazia outra coisa.
- No me recordo.
- Eis um recurso de que no precisa.
- Tem razo. E por que hei de negar? Beijava-a: est satisfeita?
Guida fez com a fronte um aceno afirmativo.
- Cuidei que essa poesia do sentimento, que faz conversar com uma estrela, beijar uma flor, adorar uma lembrana, j no se encontrava hoje em dia, a no ser nos 
romances. Se alguma vez se misturava com o prosasmo desta nossa vida fluminense, era a moda de comdia de sala: para divertir as moas da moda, que chegaram aos 
dez anos e j no podem mais suportar as bonecas. Ora, desta ltima suposio, est claro que no se trata. A causa portanto  seria.
- Muito sria, acudiu Ricardo.
- Confessa?
- H nada mais srio e real do que a fragilidade humana? Eu lhe conto a histria dos Sonhos douro.  assim que chamo a florzinha amarela...
- O nome  bonito!
- Se tem outro, no sei, dei-lhe este.  bonito e lembra uma coisa muito agradvel. Sonhos douro!... A senhora no pode ter esse prazer; Deus, dando aos ricos 
a opulncia, negou-lhes a ardente esperana de a obter, e reservou-a como uma compensao para ns, os pobres.  somente para ns que essa fada incomparvel levanta 
os suntuosos castelos, os jardins encantados, os parasos na terra. Quando a senhora me viu, eu entrava no mais belo de meus castelos,  vista do qual o rico palcio 
que seu pai tem nas Laranjeiras  um albergue; subia as escadas de prfiro marchetadas de ouro. Abriam-se de par em par as portas de rubi da sala da saudade; e minha 
me aparecia-me sobre um trono de safiras. Atirei-me a ela, que recebeu-me em seus braos, beijei-lhe os olhos, coalhados de lgrimas, e... A senhora acordou-me.
- Ah! Compreendo. Lembrava-se de sua me. Nessa poesia tambm eu creio, disse Guida com terna expresso.
- Dir a senhora que  uma infantilidade cair assim um homem feito, um doutor, a sonhar com o sol alto e os passarinhos a cantar. Mas a isso respondo, que a natureza 
humana  esta mesma contradio. O menino tem homenices... No repare no termo; tenho um mau costume de inventar uma palavra quando no acho outra j feita para 
exprimir meu pensamento. Mas dizia eu que o menino tem suas homenices que o tornam insuportvel; portanto era preciso que o homem tivesse suas meninices, que 
o tornam ridculo.
- Pensar em sua me ausente  uma coisa to santa!
- Mas creio que ainda falta um desejo?
- Ainda; no me esqueci. Ia perguntar-lhe o que representa o desenho... Sabe; aquele que o senhor fazia  janela?...
- No adivinhou?...
- No.
- Quis mandar  minha me uma lembrana de meu sonho. Se eu tivesse talento de retratista reproduziria suas feies. Fantasiei uma moa da corte.
- Favoreceu o original, observou Guida. Galanteria de artista.
- No era possvel. Ainda que eu fosse Rafael.
- O melhor juiz sou eu.  vista do desenho...
- Eis a dificuldade. J ele est em So Paulo.
Foi interrompida a conversa pelo encontro com o rancho dos passeantes, a poucos passos de distncia da casa.
Talvez tenha algum a curiosidade de saber o que era feito do impertrrito Sr. Bencio durante todo esse tempo.
Em posio e a jeito de proteger os dois moos com o formidvel guarda-sol verde-gaio, acompanhou-os passo a passo sempre da banda do poente.
Refocilando no gosto incomparvel de obsequiar o prximo, cara numa espcie de xtase. Imaginava-se, no em cima do machinho a trotar, mas recostado nas almofadas 
de um coche, acompanhando um casamento.
Que glria no seria a dele, quando dissesse aos convidados:
- Eu os resguardei com o meu chapu de sol, no primeiro dia do seu namoro!

XX

Terminara o jantar em casa do Soares.
O crepsculo da tarde cambiava-se com o frouxo lampejo da lua que assomava por trs das serras.
Erguendo-se da mesa, os convidados espalharam-se pelo jardim, uns para gozarem da frescura e beleza da ave-maria campestre; outros para se recrearem com o passeio 
e o movimento; alguns maquinalmente, por imitao.
Mrs. Trowshy traando o brao de Guida e recitando-lhe uns versos de Shakespeare atravessou o jardim:
Come, gentle night, come, loving, black browd night,
Give me my Romeo, and when he shall die,
Take him, and cut him out in little stars,
And he will make the face of heaven so fine,
That the world will be in love with night
And pay no worship to the garish sun.

Encontrando Ricardo, a mestra parou para dizer-lhe em francs:
- Veja que injustia, senhor doutor, Guida no gosta destes versos.
- Oua! disse Guida, e repetiu os versos.
- Se os lesse, poderia dizer alguma coisa, respondeu Ricardo.
- Pois eu pensava que tinha excelente pronncia, acudiu a moa com ar zombeteiro. Minha mestra diz que pareo uma inglesa; salvo quando eu repito o nome dela  missis 
Trixa. A acha-me horrvel.
- Trowshy! emendou gravemente a mestra que pouco entendia de portugus.
- Mas a culpa no  de sua pronncia:  do meu ouvido que ainda no se habituou, nem creio que se habitue nunca, a essa lngua mais de engolir que de falar!
- Pois eu vou traduzir-lhe os versos ao p da letra, se me permite; Vem, gentil noite, vem, amvel noite, vem, amvel e escura noite; d-me o meu Romeu e quando 
ele morrer, tomai-o, cortai-o em estrelinhas, e ele tornar o cu to belo, que todo o mundo se apaixonar pela noite, e no pagar mais tributo ao garrido sol. 
No so magnficos?
Ricardo sorriu:
- So originais, pelo menos.
- Suponha o senhor que um poeta brasileiro fizesse alguma ndia falar semelhante linguagem, e pedir  noite que picasse o seu amado em estrelinhas, no de massa, 
mas de papel dourado. Que risadas no dariam os ingleses e como no encheriam a boca de nonsense? Mas  Shakespeare... o grande mestre...
- The immense, the prodigious Shakespeare!... interrompeu Mrs. Trowshy no plenilnio de seu entusiasmo.
- Talvez o poeta quisesse exprimir por esse modo a ingenuidade infantil de Julieta, que era quase uma criana.
- E no achou um modo mais delicado? O senhor escreveria semelhantes versos?
- No sou poeta.
- Ora! Quem no o  hoje em dia? O senhor conceberia Julieta pedindo a Deus para fazer duas estrelas dos olhos de Romeu; ou para mudar os seus cabelos em raios de 
luz, como os de Berenice; mas para cort-lo a ele em pedacinhos... Shocking! disse a menina pedindo ao ingls a expresso de seu sarcasmo.
A rir afastou-se Guida com Mrs. Trowshy, pelo caminho da Cascatinha que era o ponto do passeio.
O Dr. Nogueira aproximara-se de Ricardo e lhe oferecera um dos seus regalias convidando-o a fumar no canto mais afastado. Ali via-se uma fonte de ferro esmaltado 
representando a niade do jardim dentro duma concha, e banhar-se nas prprias guas que vertiam-lhe dos olhos como torrentes de lgrimas.
Desde o primeiro dia Ricardo notara o Dr. Nogueira, cujo nome j conhecia pela reputao de talento que o cercava, e desejou aproximar-se dele. Deteve-o porm a 
expresso de fria arrogncia que esticava o perfil e o talhe do candidato. Esse empertigamento moral revelava a afinidade que havia entre a alma do candidato e a 
vaidade feminina. Era alma que no dispensava os arrebiques e espartilhos ainda mesmo em casa.
Foi pois com prazer que Ricardo aceitou o charuto e a palestra, que lhe oferecera o Dr. Nogueira.
O candidato, como alguns homens de talento, longe de desdenhar os gozos materiais, entendia que  a carne que faz o esprito, o apura e lhe d o nervo. Assim apreciava 
ele depois de um excelente jantar a febre sibartica, perfumada com as fumaas do melhor tabaco de Havana, e embalada pelo burburinho da gua trepidando na fonte 
ou pelo ruge-ruge das folhas das palmeiras.
E na forma do preceito de Horcio  miscuit utile dulci  aproveitou aquelas horas voluptuosas do quilo, para conhecer o adversrio com que tinha de bater-se na 
campanha matrimonial, em que se achava empenhado.
- Aqui estaremos perfeitamente, disse Nogueira sentando-se na ponta do banco e indicando a seu lado um lugar ao moo. Gosto de fumar neste canto o meu charuto depois 
de jantar. O barulho da fonte, misturado com o dos coqueiros, derrama uma ligeira sonolncia, quanto basta para no pensar; mas no tanto, que se deixe de sentir 
e gozar.
Notou Ricardo que o devaneio desse esprito, como a sua amabilidade, tinham s vezes umas quinas speras: eram como tela de painel, que uma lasca da madeira estofa. 
Uma circunstncia mnima lhe revelou esse trao fisiolgico. O termo barulho para indicar o burburinho dgua, empregado por homem de tribuna e eloqente, mostrava 
um defeito de educao. Como sucede  maior parte dos talentos que figuram em nosso pas, no tinha Nogueira o polimento literrio, e embora sentisse depois de certo 
tempo a necessidade de dar  sua palavra certo verniz de estilo, contudo notava-se ainda muita falha, em que atravs da arrogncia do figuro, percebia-se a crosta 
do filho das ervas. A palavra  para esses mercenrios o instrumento do ofcio, a trolha de pedreiro.
- Temos demais a vantagem de livrar-nos da algazarra, que por l vai. Esta gente avalia do esprito, como do champanha, pelo estouro; e ento desafiam-se a quem 
dar as mais descompostas gargalhadas, para chamar a ateno.
- No fim das contas, parece que eles tm razo.  o rumor quem governa o mundo.
- Quer dizer a opinio.
- No  mesma coisa?
- H a sua diferena, imps dogmaticamente o Nogueira, e passou adiante. A tarde est quente!... A estas horas costuma correr alguma brisa, mas hoje est abafado. 
Neste ponto Petrpolis  prefervel  Tijuca. Eu, se no estivesse preso a esta gleba da cidade,  onde passaria o vero.
- V. Ex.  advogado? perguntou Ricardo para dizer alguma coisa e encher a pausa que lhe deixara o Nogueira.
- Tenho um escritrio com o nome na porta, mas  para constar..., serve de ponto de palestra aos amigos. A advocacia j no  uma profisso.
- Perdo; eu a conto entre as mais nobres.
- Assim devia ser. Mas a, como em tudo, o fato insurge-se contra o princpio. No  esta a histria do sculo dezenove, ao contrrio do sculo dezoito, que foi 
a revolta da idia contra o abuso e o prejuzo? A advocacia no passa de um pretexto;  um ttulo de apresentao na sociedade. No foro inventou-se outrora um nome 
decente para certas indstrias, que se no confessam; certos rus ou testemunhas interrogados aos costumes, declaram que vivem de suas agncias. Pois a palavra 
advogado tem o mesmo prstimo, com a diferena de serem os agentes mais graduados e as agncias mais gordas.
- E V. Ex. pertence a esta classe? observou Ricardo com ironia.
- Por que no? Charles Nodier dizia no princpio deste sculo  Je ne connais quun mtier  dcrier, celui de Dieu!
O Nogueira, que tinha presuno de falar bem as lnguas estrangeiras, pronunciou a citao francesa com uma afetao ridcula e um sotaque que devia ferir o ouvido 
normando.
- Pois eu creio que em Frana nenhum ofcio cara em maior descrdito, observou com muito a propsito o paulista.
- Deixemos de parte a religio.  ponto que no discuto, atalhou categoricamente o candidato e prosseguiu.
Mas Ricardo interrompeu:
- No chamo religio essa explorao da conscincia a que o escritor francs dava com muita propriedade o nome de ofcio.
Custou a Ricardo inserir no discurso do Nogueira esta pequena observao. Foi necessrio cortar-lhe a palavra, e arrostar o gesto desdenhoso e magistral do candidato 
que desviava a rplica, dum revs do rosto.
- Em pas algum  to verdadeiro o dito de Nodier como em o nosso, continuou o Dr. Nogueira com o tom amplo e sobranceiro de que servia-se para abafar as interrupes. 
H coisa que mais se tenha ridicularizado do que sejam as altas posies polticas, e sobretudo o cargo de ministro? E no obstante todos caminhamos para l.
- Nem todos! constestou Ricardo.
- Sou advogado, pois, como serei deputado amanh e mais tarde ministro e senador. Em toda a parte onde se renem i animali parlanti, por fora que h de haver o 
deus e a besta. Ensinam as Santas Escrituras que o Criador formou o homem do lodo, amassando o barro e inspirando-lhe a centelha divina. Pois no  de admirar que 
em se chocando uns com outros, a lama de certas figuras se desmanche, e ento que remdio tm os outros homens, seno patinarem nela, se querem passar adiante?
- Os ambiciosos vulgares, no duvido que tenham pressa de chegar e no escolham caminho, nem companheiros de jornada. Mas h quem se desvie com asco do charco, embora 
se resigne a no passar adiante.
- O senhor formou-se ultimamente? perguntou o Nogueira com um sorriso protetor.
- H cinco anos.
- E  advogado tambm?
O protesto que em tom veemente acabava de fazer contra as doutrinas do Nogueira, no o pudera conter o jovem e brioso paulista. Mas, arrependido, prometeu-se no 
tomar ao srio as excentricidades do Dr. Nogueira, o qual sem dvida sofria de um sestro, que ataca muito os homens vaidosos de seu talento, o sestro do paradoxo.
Assim como as damas, desvanecidas de sua formosura, inventam modas esquisitas e farfalhadas, penteados incrveis, anquinhas atentatrias da moral pblica, escandalosos 
falbals  e cinturas extravagantes, assim os talentos ftuos se deleitam em provar absurdos.
- Aspiro a s-lo; mas no como V. Ex. o entende, respondeu Ricardo com polida ironia  pergunta do Nogueira.
- Pensa ento o senhor, que a cincia do mundo aprende-se nas escolas e academias? Se conheo hoje a nossa sociedade, no foi pelo que me ensinaram em Olinda, mas 
pelo que aprendi em um curso mais longo, em cerca de vinte anos de experincia. Na sua idade tambm tinha a cabea cheia de utopias, e o corao abarrotado de iluses. 
A advocacia representava para mim o sacerdcio da justia, a nobre independncia do talento. A imprensa, eu a considerava como uma realeza, e a mais legtima, porque 
tinha o seu trono na opinio.
- Mas isso no passava de uma abuso?
- Completa, meu colega. Quando tiver alguma prtica do foro, h de reconhecer que so as boas causas as que mais freqentemente se perdem. Quem sustenta um pleito 
justo, confia no direito; mas o seu adversrio emprega todos os recursos: e ganha. Quanto  independncia, no passa de uma burla; todos ns, que mais somos do que 
uma cadeia de fuzis? Cada um segura-se ao anel de cima, e por sua vez suspende o anel de baixo; e assim trabalha a corrente do guindaste.
- No confunda V. Ex. a independncia com a barbaria, ou ainda com a misantropia. A sua virtude consiste justamente em manter o carter no meio das colises e embates 
que o abalam. A est a dignidade do homem, lutar e vencer; isolar-se do mundo, parece mais covardia.
- Devaneios, replicou Nogueira com desdm. Isso que chama dignidade, meu colega,  nada menos que um crime e grave; vale tanto como uma insurreio, ou uma revolta. 
Todos a condenam; ningum perdoa. Se o caluniarem, aparecer um poder chamado moderador, que far presente de sua honra ao pasquineiro; mas para o insulto que o 
senhor fizer a uma cidade corrompida, afrontando-a com os seus brios, para esse delito de lesa-sociedade no h graa; ao contrrio, toda a severidade amassada nas 
altas regies desfechar sobre o ru convicto do pundonor e integridade!
- Neste ponto no duvido que tenha razo. Como Circe que transformava os seus amantes em barres, a poltica namora os mais belos talentos, e nada lhes recusa, contanto 
que fossem.
- Gosta da fbula? disse o candidato com um leve toque de pedantismo. Pois eu prefiro a histria, a grande mestra. A poltica  em nosso pas o mesmo que tem sido 
em toda a parte, uma cortes. Quando recebe na alcova...
- No gineceu...
- Na alcova os Pricles e os Scrates, torna-se Aspsia; mas, se entrega-se aos gladiadores e servos, cai em Messalina.
- Se V. Ex. permite uma observao...
- Sem dvida.
- No foi Pricles quem fez Aspsia; ao contrrio, depois que morreu o grande Ateniense, ela casou-se com uma casta de baro daqueles tempos, um rico marchante, 
e conseguiu tirar desse lixo de ouro um grande orador.
O Nogueira, que no se deixava derrotar, ainda mesmo nos seus eclipses, acudiu pronto:
- Acredita nisso?  uma galantaria do historiador, se no foi do prprio Lisicles, que para lisonjear a mulher, atribuiu-lhe o que s devia a seus esforos.
- Acredito, sim; porque no o dizem somente as tradies de Atenas:  a histria eterna da humanidade. Por toda a parte a mulher  a alma do homem.
Deixou o candidato cair a conversa um instante para repousar a palavra, e ao mesmo tempo imprimir outra direo ao dilogo.

XXI

Tiradas as ltimas fumaas do regalia, e metida a ponta do charuto em um talo da palmeira, com o respeito que o verdadeiro fumante vota s cinzas desse companheiro 
e confidente de mgoas como de prazeres, ergueu-se o candidato, deu alguns passos pelo jardim e voltou para o mancebo que o esperava apoiado ao esteio do caramancho:
- Uma coisa lhe asseguro, meu colega. Se os moos de talento, que vo comear a sua carreira, ouvissem o conselho de minha experincia, no desbotariam por certo 
a flor de sua inteligncia nesse mister ingrato, de urdir enredos forenses, e desbastar autos, consumindo a mocidade na incessante labutao de borrar o papel e 
a conscincia.
- O que fariam ento?
- Para que se matarem a construir pedra a pedra uma posio s vezes bem medocre, se podem tomar de assalto o futuro, e conquistar a reputao dun coup de main, 
como fazem por a os espertos? O processo  simplssimo. Marca-se entre os vultos notveis do pas aquele que mais convm  ambio do pretendente: um estadista, 
se o fuo destina-se  poltica; um literato, se o fuo aspira a escritor. Escolhido o alvo, assesta o sujeito contra ele toda sua metralha: a mentira, a injria, 
o insulto grosseiro. A cidade ocupa-se imediatamente do escndalo. Quem ?... Quem  que ousa atacar o homem eminente? Conhecidos, mas principalmente os amigos, 
correm aodados  compra do pasquim; comentam as insolncias e vo com uma caramunha de jesuta propalando a notcia... O autor, de fuo que era na vspera, torna-se 
personagem; todos inquirem dele, apontam-no quando passa, repetem seu nome como um epteto do carter
  por ele agredido e atassalhado. Assim abre-se caminho at  celebridade, que  a base de toda a grandeza. Obtido esse pedestal, o temvel, ou o parvenu, como 
o chamam os franceses, pode-se deitar  espera das honras e pepineiras que lhe chovem a mancheias. S lhe falta um casamento rico, para coroar a obra de sua rpida 
fortuna. O casamento rico  em verdade um achado da maior importncia. Se o indivduo no tem ptria, nem famlia, d-lhe uma apresentvel; se j possui esses trastes, 
ficam-lhe duas, o que no  para desprezar. So duas amarras para tudo; l e c, diz-se com toda a cerimnia, nosso pas. Alm disso traz o casamento a fortuna 
patrimonial, que tem sempre uma certa respeitabilidade, e serve para decorar umas vergonhas e misrias do passado. Ora, a um homem de recurso no  difcil, desde 
que trepou ao pedestal da celebridade, ou por outra, desde que se tornou um temvel, no  dif EDcil arranjar uma aliana nessas condies.
Sustando a palavra um instante para observar-lhe o efeito na fisionomia de Ricardo, que o escutava com repugnncia, concluiu o Nogueira:
- Eis, meu colega, como um hbil pelotiqueiro de um passe escamoteia parte da reputao por outros laboriosamente adquirida; e com esta sorte edifica um brilhante 
futuro. Experimente!
Ricardo at ali escutara apenas com tdio o que ele tomava por sarcasmo pungente;  ltima palavra alteou a fonte com indignao:
- O senhor no fala seriamente!
Desfechou o Nogueira uma gargalhada cromtica:
- Decerto! Como se h de falar seriamente, quando  to grotesca a verdade? No lhe expendi opinio minha; referi o fato; olhe ao redor de si, e v-lo- talvez bem 
de perto.
- Explique-se V. Ex.; no o compreendo.
- Quando abrir os olhos, compreender.
E Nogueira solfejando a sua risada dirigiu-se para a casa.
Enquanto a um canto retirado do jardim se travara to interessante conversa entre os dois colegas, do lado oposto se havia formado uma roda, a que servia de eixo 
ao Bastos.
O piquenique derrotara o nosso corretor, que mostrava-se um tanto amarrotado, nas feies e nas esperanas.
As barbas j no tinham aquela simetria irrepreensvel que dava-lhes a imobilidade do postio. Uma bomba na praa no houvera estrompado nosso pretendente, como 
aquele maldito passeio  Vista dos chins.
Quando, adiantando-se  comitiva, chegara  casa na esperana de ali encontrar a filha do banqueiro, achou-se em branco. Retrocedeu j um tanto azoado, e de todo 
ficou, vendo aparecer na volta da estrada Guida e Ricardo em conversa animada.
Foi um golpe para o corretor que viu a bancarrota iminente sobre sua empresa matrimonial, que na vspera ainda parecia-lhe to prspera!
Jantou mal, pensando no quanto  vria a fortuna, e incerta a carreira do comerciante.
Contudo no descorooava ainda o Bastos; tinha f no jeito e habilidade do Soares, que bem sucedido sempre em todas as transaes, no havia de errar a boa mo, 
justo em negcio to do peito, e do qual dependia a sorte de sua filha.
Ao levantar da mesa, tratou o corretor de colher informaes exatas acerca do passeio; queria saber ao certo o ponto a que j tinham chegado as coisas, para desde 
logo pedir a interveno paterna, se as circunstncias reclamassem esse extremo curso, ultima ratio dos pretendentes repelidos pela noiva.
Os companheiros de passeio, moos do comrcio, ou porque em verdade nada tivessem observado de suspeito, ou para consolarem o corretor, mostraram-se convencidos 
de que no havia da parte de Guida para Ricardo mais do que amabilidade de uma moa espirituosa e, quando muito, uma pequena dose de coquetterie. Assim falavam eles; 
eu diria: coquetismo em linguagem da moda, e faceirice,  nossa maneira.
O Guimares no tomou a coisa ao srio:
- Ora, esto vocs a com histrias! A Guida o que fez hoje no passeio, assim como no Domingo passado, foi debicar o tal caipira de So Paulo. Aquilo  um pratinho 
soberbo, nem vocs imaginam!...
E soltando um ritornelo da sua implicante risada, l se foi o moo bonito a borboletear entre o crculo das moas, amolando as guias do bigodinho assassino, e mirando-se 
em falta de espelho ngua cristalina que enchia a bacia de mrmore dos repuxos.
Convencido de estarem todas aquelas meninas morrendo por possu-lo, passava l consigo que era uma crueldade causar tantos infortnios para satisfazer a paixo de 
uma s, de Guida. Mas no obstante o desengano, sabia que no podendo resistir  seduo, ardiam em desejos de se fartarem de beijos naquela boca tentadora; imaginando 
que j o perseguiam as mseras namoradas sem ventura, por faceirice furtava-se o rapaz s suas carcias. E com efeito, s vezes interrompendo o giro pelo jardim, 
fazia uma pirueta  vista das senhoras.
Entretanto na roda do Bastos, continuava a investigao dos pormenores do passeio com relao ao ponto importante. Chegara-se o Lima e sabendo do que se tratava, 
quis tambm das a sua opinio, fundada em informaes verdicas:
- Esteja descansado, disse ele ao Bastos. No h nada!
- Deveras! Voc me assegura?
- Pode escrever.
- Mas como sabe? perguntou o visconde da Aljuba, que at a se tinha contentado em ouvir.
-  verdade. Voc no foi do passeio.
- Eu lhe digo o como sei melhor do que todos que l foram. Conversando com D. Guilhermina, antes do jantar, falei a respeito dessa novidade que os senhores trouxeram.
- Eu no! repetiu meia dzia de vozes.
- Creio que foi o Sr. visconde!
- Se fui eu, do que no me lembro,  que algum me disse, respondeu sem desconcertar-se o homnculo.
- Quer saber o que respondeu D. Guilhermina?  Qual, Lima, no acredite! Deixe-os falar! A Guida nem pensa nisso. Pois no v que se houvesse alguma coisa, ele 
no trataria o Ricardo com tanta familiaridade e sem acanhamento, como eu trato o Fbio, por exemplo?
- Esta ltima razo, acrescentou sonsamente o visconde, no me tinha lembrado.  de arromba! Est decidido que no h nada absolu...
No acabou o Aljuba de debulhar tranqilamente as slabas do seu advrbio, porque foi de repente arrebatado  terra, e depois de uma ascenso curta e rpida se achou 
sentado no jardim, sem compreender ainda como isso acontecera.
A causa do fenmeno ali estava em carne e osso. Era o Sr. Bencio que, passando casualmente pela prxima alameda, a farejar no jardim o que no descobrira na sala, 
isto , uma pessoa a obsequiar, bispou de longe a figurinha do visconde aprumada sobre a base.
- O Sr. visconde de p!... exclamou o Bencio.
O incomparvel obsequiador possuiu-se de um horror que talvez no lhe causasse o visconde, se em vez de ter-se direito, como a a natureza o fizera, pusesse as mos 
na areia, e fazendo cauda daba da casaca, imitasse o gamb, de que tinha seus traos fisionmicos.
Em dois saltos o homem servial galgou a escadaria de pedra, arrebatou da sala uma cadeira, e arremessando-se com ela ao jardim, foi cair precisamente no meio da 
roda. A fincando com a mo esquerda a cadeira na areia, com a direita empunhou o exguo visconde pelo pescoo, como o faria ao gargalo de um moringue, e assentou-o 
em cheio na cadeira .
Esta rpida operao foi acompanhada da seguinte jaculatria:
- V. Ex. de p, Sr. visconde! E eu sem ver! Oh! desculpe-me, excelentssimo. Aqui tem V. Ex. uma cadeira! Mas no se incomode, excelentssimo, por quem ! Deixe, 
eu mesmo o sento! Pra que ter este trabalho! Assim; esteja a gosto; no precisa mais nada?
- Nada, nada! obrigado, muito obrigado, Sr. Bencio, mil vezes obrigado! pde afinal responder o visconde, fincado na cadeira, e desdobrando-se como um couro amarrotado.
- Aqui est quem pode dar boas informaes! disse um da roda.
- Oh! o Bencio deve saber. Pois era ele quem os acompanhava, acudiu o outro.
- No vem como est bem penteadinho! tornou o primeiro alisando as falripas do amanuense.
- O qu? O qu, homem? Dizia no entanto o Bencio.
- Estvamos aqui numa dvida de que s voc pode nos tirar.
- Vamos a ver! Para o que  servir aos amigos, eu estou pronto sempre.
- O que acha o senhor? A Guidinha est deveras mordida?
- Heim?
- Deu corda ao bicho?
- Ai, que os amigos querem se divertir  minha custa!
Interveio o visconde:
- No seja desconfiado, homem. Estes senhores desejam saber se pelo que observou esta manh no passeio, especialmente quando acompanhou a D. Guida, percebeu que 
ela tinha sua quedinha pelo tal Ricardo.
- Ah!  isso?...
O homem servial no tinha observado coisa alguma, nem era capaz de semelhante exero de esprito. Acompanhara os dois moos absorvido na satisfao de obsequiar 
dois mortais a um tempo; e isto bastava para ocupar toda a atividade moral de que era capaz o seu indivduo.  certo que l num refolho escuro daquele miolo animal 
despontava um grelo de idia. O homem tinha uma bronca intuio de estar obsequiando os dois moos, no s com a sombra do chapu de sol, mas com a sombra da cabeleira.
Agora, metido na roda, entre as galhofas dos rapazes, e com as explicaes do visconde, o grelo da idia lhe abrolhara no crebro; percebeu do que se tratava, ainda 
mais dando com a cara amarrada do Bastos.
O amanuense tinha especial birra ao corretor. A emulao  achaque de que padecem os talentos. O empenho do Bastos em incumbir-se das encomendas de D. Paulina, de 
Guida e outras senhoras, despertara justo zelo no amanuense, que tomava aquelas obsequiosidades por verdadeiras usurpaes de suas ocupaes privativas. Entendia 
o homem servial, que, dando-lhe uma sinecura, o governo lhe concedera privilgio exclusivo para obsequiar o prximo, e ningum podia priv-lo dessa honra.
Em sua qualidade de animal daninho tem o homem um faro para vingana. Doutro modo no se explica o que passou na cachola do Bencio:
- C pra mim  negcio decidido, respondeu impavidamente o amanuense. Esta manh quando tive a honra de segurar o chapu de sol para os noivos, bem me estava lembrando 
que amanh tenho de visitar o meu amigo monsenhor.  bom a gente andar prevenido; e como eu  que hei de ser incumbido de arranjar os papis na Conceio!...
- So histrias do Bencio, atalhou o visconde metendo  bulha o amanuense. Que o magano no pilha a moa, nem o dote, por essa fico eu, e se quiserem uma apostazinha...
No obstante a confiana na sagacidade do Aljuba e sobretudo em sua avareza, que no havia de arriscar a aposta sem plena certeza de a ganhar, a balela do casamento 
da filha do banqueiro continuou a correr entre os convidados, e no se falava em outra coisa no salo, quando ali entrou Ricardo.
Todas as vistas fitaram-se nele procurando-lhe no semblante a ufania do triunfo; e tal  o poder da imaginao, que muitos a viram desdenhada em uma fisionomia onde 
os paradoxos do Nogueira haviam deixado traos bem expressivos de tdio e desgosto.
Notou Guida essa expresso de Ricardo, que distraidamente e sem preceb-la, sentara-se a seu lado.
- Sabe a novidade? perguntou a moa.
- Qual?
- Ainda no lhe deram os parabns?
- Por que motivo?
- Deveras no sabe?
- Entrei agora mesmo na sala.
- Pois ento, deve-me as alvssaras. O senhor est para casar comigo.
- No entendo! respondeu Ricardo fugindo ao gracejo.
- Parece-me que  bem claro. Depois do jantar no se tem falado aqui de outra coisa.
- Mas  uma indignidade! Exclamou o mancebo, mal contendo a revolta dos brios.
- Faa como eu! acudiu Guida sorrindo. No se importe! A princpio tambm me incomodavam essas impertinncias; agora estou habituada; e ainda agradeo quando no 
me do por noivo algum bobo ou algum traste, como j tem sucedido.
- Mas eu no lhes dei o direito de se divertirem com meu nome!
- E dei-lhes eu acaso? tornou Guida. Tenha pacincia; amanh me inventaro outro noivo; e o senhor ficar descansado. Eu  que infelizmente no tenho quem me tire 
da berlinda.
Ditas estas palavras em tom que flutuava entre o motejo e a contrariedade, a filha do banqueiro ergueu-se para dirigir-se ao piano, onde a chamara D. Clarinha.


XXII

Tera-feira seguinte, estava Ricardo como de costume em seu escritrio.
Seriam dez horas passadas. Reinava na pequena sala, dividida a meio em dois cubculos por um tabique de pinho, um silncio desanimador, sem dvida propcio  meditao, 
porm pouco prometedor a respeito de clientela.
Sentado  clssica mesa de vinhtico inteiramente limpa de autos, Ricardo, trabalhador infatigvel, escrevia desde as nove horas da manh em que habitualmente chegava 
ao escritrio.
Lembrara-se de fazer algumas tradues para distrair as horas enfadonhas do estril planto, nutrindo a esperana de tirar da alguns parcos recursos com que fosse 
atamancando as necessidades.
Ricardo bem sentia que no tinha real vocao para a profisso forense; a aridez desses estudos, que os rbulas costumam amenizar com desbragadas verrinas, no conformava 
por certo  sua inteligncia brilhante, colorida por uma imaginao de artista.
Mas o mancebo, no obstante, aceitava essa carreira como um dever, pela impossibilidade de escolher outra que lhe proporcionasse os meios de subsistncia e os recursos 
para manter a sua famlia, que se achava em circunstncias precrias.
Um camarada de So Paulo se lhe oferecera para obter alguma colaborao em um dos jornais da corte. Mas at ento nada conseguira; as pequenas empresas no podiam 
pagar; as grandes entendem que o verdadeiro redator de uma folha que se respeita,  o soberano pblico  razo de tantos ris por linha.
O livro que Ricardo traduzia era de Balzac: Eugnia Grandet. Esperava achar um editor para a obra-prima do ilustre romancista francs; coisa bem duvidosa.
s vezes deitava a pena sobre a bandeja do tinteiro, e derreando contra o recosto da cadeira, perdia-se em cogitaes que o trabalho interrompera, e agora com a 
pausa voltavam a eito.
Conhecia-se-lhe pelo aspecto que tristes eram aquelas cismas; ressumbrava em seu olhar apagado o desalento que iam derramando-lhe nos seios dalma.
A expresso habitual do mancebo era a sisudez afvel, que nem se arruga na carranca, nem se descompe no frouxo do riso. Nesse dia porm mostrava-se grave e preocupada 
sua fisionomia.
O dinheiro, esse azoto social, sem o qual no se vive nas cidades: eis a grande questo, que se debate nas ruas e praas, desde o mendigo at o rei, um esmolando 
os magros vintns, o outro distribuindo os milhes nacionais.
Era essa tambm a preocupao de Ricardo naquele momento. As circunstncias do mancebo de dia em dia se tornavam mais estreitas.
Morava ele com a me de Fbio, que o agasalhara como o futuro cunhado de seu filho; j essa posio de hspede o constrangia, apesar dos contnuos protestos da boa 
senhora, a repetir todos os dias, que a despesa de casa no aumentara um real por sua causa, e que longe de incomodar-se, tinha ela ao contrrio o maior prazer com 
to agradvel companhia.
Ainda quando assim fosse, e Ricardo procurava tornar-se o menos pesado, acanhava-o essa dependncia de alheio favor, e repugnava-lhe viver a expensas de outrem, 
apesar da amizade de Fbio e dos laos que breve deviam ligar as duas famlias.
Mas o que exacerbara naquele dia estas nobres suscetibilidades de Ricardo, era a posio especial em que se achava com relao a Fbio, desde o ltimo domingo.
J anteriormente no gostara do desembarao com que o noivo de sua irm se portara em casa do Soares; disfarara contudo, fazendo-lhe apenas ao de leve alguns reparos, 
a que o outro no deu importncia.
Foi porm no dia do passeio  Vista Chinesa que Ricardo se recolheu contrariado ao ltimo ponto, no s pela sem-cerimnia com que se intrometera o Fbio na roda 
dos convidados, filando o cavalo do Lima, como pelo namoro escandaloso que travara com D. Guilhermina.
Sentia Ricardo a necessidade de ter com o amigo uma prtica sria, na esperana de coibir a tempo aqueles mpetos e evitar futuros dissabores, seno verdadeiros 
desregramentos, que trariam a infelicidade de duas famlias.
Fbio porm evitava as ocasies em que o assunto pudera muito naturalmente vir a talho, trazido pela divagao de uma palestra entre amigos. Um emprazamento emprestaria 
 conversa ares de solenidade que seriam de mau prenncio. Podia o noivo de Lusa enxergar nas palavras do amigo uma exprobao de quem j se arrogava autoridade 
de chefe de famlia; e irritando-se, persistir no caminho que levava.
Razo tinha Ricardo para recear esse resultado; pois desde a primeira visita  casa do Soares sentia que o esprito de Fbio, arrastado pela seduo daquela sociedade, 
subtraa-se  sua influncia.
O menor arrefecimento nas relaes dos dois moos teria conseqncias graves, pois determinaria a retirada de Ricardo para So Paulo, desvanecendo a esperana por 
tanto tempo afagada de fazer carreira na corte, e preparando para Lusa uma decepo cruel.
Tais eram os pensamentos que nessa manh carregavam a fronte do jovem advogado de uma nuvem de tristeza.
Eram dez horas e meia, e Fbio ainda no chegara ao escritrio. A sua mesa, colocada do outro lado da sala, estava intacta como ele a deixara sbado. Nos dois cantos 
viam-se as rimas de autos velhos, que o moo pedira aos escrives a pretexto de estudar certas questes; mas realmente para dar  sua banca o aspecto forense. Esses 
cartapcios faziam as vezes de uma tabuleta.
-  capaz de no vir hoje, como j no veio ontem, disse consigo Ricardo.
E ia voltar  traduo, quando ouviu passos na escada; momentos depois na porta de comunicao entre os dois repartimentos surdiu a figurinha encarquilhada do Visconde 
de Aljuba:
- Pode-se entrar?
- Oh! Sr. visconde!... Faa favor.
Ricardo, surpreso da visita, ergueu-se para oferecer ao Aljuba uma cadeira a seu lado.
- Custou-me a dar com o escritrio. Tambm foi procurar uma rua to esquisita. Nada; isto no serve.  preciso arranjarmos quanto antes uma sala a na rua Direita, 
ou mesmo na da Quitanda...
- Ainda no  para mim, e quem sabe se o ser algum dia.
- Ora qual! disse o visconde com seu riso fagoteado e batendo no ombro do moo. Voc breve est a recheado! Veja o que lhe digo.
Uma das particularidades do visconde era familiarizar-se com as pessoas que tratava a ponto de cham-las por voc desde o primeiro dia. Entendia que o dinheiro lhe 
dava essa liberdade, como lhe dera a excelncia com que o abarrotavam a cada canto.
Ricardo no gostou do modo achavascado; mas disfarou.
- Dito por V. Ex.,  um bom agouro.
- Oh! Eu c nunca me engano. Sujeito que tem de ser apatacado, eu o descubro logo pela pinta. Olhe o Soares. Foi v-lo, e conhecer logo que aquele patife acabava 
podre de rico.
- Ento acha-me com jeito de homem apatacado?
- Tem todos os sinais.
- Quais so eles?
- Eu c sei. Mas vamos ao que serve. Para comear, temos aqui uns dois negocinhos... Meu procurador h de passar por c depois. Trouxe os papis para explicar-lhe 
bem a coisa.
Tirou o visconde do bolso um mao de papis preso por um elstico, e p-lo na ponta da mesa.
- Este  uma escritura de hipoteca dum sujeito que me deve seis contos. A casa h de valer uns vinte; ainda tem uns escravinhos; bem tangida a embroma, como os senhores 
sabem fazer, podemos passar a mo em tudo.
- Engana-se; eu no sei fazer desse milagres, disse Ricardo, j no podendo conter o sarcasmo.
- Ande l, ande l! Isto agora  uma letrinha dum rapaz, um peralta que j esbanjou a legtima do pai, e est  espera da herana da me.  preciso pr-lhe em cima 
o ano do nascimento e andar com a tramia depressa para arranjar uma sentenazinha, que fique na gaveta bem guardada  espera do bolo. Enquanto o marreco anda na 
pinga, no olha para estas coisas, nem d o cavaco, sobretudo caindo eu com uns cobres, que ele anda seco. Mas assim que meter-se na herana,  capaz de vir com 
histrias de que so falsas as letras, que ele as aceitou quando j estava declarado prdigo, e outras petas.
- Desculpe-me, Sr. visconde, no posso me encarregar destes negcios, disse Ricardo com fria gravidade, carregando sobre a ltima palavra.
- Por que ento?
- Permita-me que reserve para mim os motivos de meu procedimento, tornou Ricardo no mesmo tom.
- Ora j sei!  sobre isso mesmo que eu vinha falar-lhe; mas precisava antes de apalpar o terreno... Compreende, heim!
Foi Ricardo quem dessa vez ficou surpreso do desembarao do usurrio.
- A coisa est bem encaminhada! Voc  um finrio! continuou o visconde apertando o joelho de Ricardo. Mas, olho vivo, que anda uma scia de galfarros  cola da 
rapariga. Ento o Nogueira e o Bastos? Dois velhacos de marca. Deixe-os por minha conta, que os conheo; tm de haver-se com um macaco velho. L o Guimares no 
mete medo,  um pateta.
- Explique-se melhor, Sr. visconde, eu no o entendo.
- Faa-se de inocente! Ah! manago?! Quem no sabe que a rapariga est pelo beio! Voc  um ladro feliz!
- De que rapariga me fala o senhor?
- Ora de quem h de ser seno da Guida, a filha do tratante do Soares? Domingo na Tijuca, todos conheceram como ela se derretia... E tinha razo! Ol se tinha.
- No admito gracejos a este respeito, Sr. visconde.
- E esta! No costumo gracejar com os negcios.
- Ento  um negcio que o senhor veio propor-me...
- E que negcio!... Magnfico!... Olhe; um namoro com uma rapariga como a Guida, custa caro! Eu conheo aquela sujeitinha! Est acostumada a atirar fora as notas 
do banco como se fossem papis de bala! Alm disso h de ser preciso sustentar por muito tempo, um ano seguramente, a tamia, o que fica um tanto salgadete.
O visconde hesitou um momento, calculando uma ltima vez as probabilidades da especulao. Ricardo, mantendo com esforo a calma de um frio desprezo, desviava com 
desgosto o olhar da fisionomia grosseira e astuta do usurrio:
- Pois, meu amigo, eu forneo todo o dinheiro necessrio para o nosso negocinho... J sabe, com a condio de tirar a minha fatia do bolo. Que diz? Vamos ao ajuste; 
sempre  bom.
- Creio que terminou a sua proposta? perguntou Ricardo com a voz contida. Cabe-me agora responder.
- Sem dvida.
- No tenho pretenses  filha do Sr. Soares; nem existe entre ns mais do que relaes do acaso, que vo como vm. Enganou-se, pois, Sr. visconde; no  a mim que 
devia dirigir-se, para a sua especulao.
Deu o aljuba um saltinho na cadeira.
- Ahn! No quer? Percebo a embroma. Fia-se na rapariga? Olhe l, no se arrependa...
- Queira poupar-me  necessidade de dar-lhe a resposta que merecia sua proposio; mas o senhor fora-me...
- Isso de mulher, no h que fiar, insistiu o visconde receoso de que lhe escapasse a pechincha. Ento aquela que  o diabo de saia, ou o pai, o Soares, que tudo 
 um. Aposto que j o engazopou...
Ergueu-se Ricardo afinal ao impulso da indignao que por muito tempo recalcara; abotoou o visconde pela gola do casaco, e arrastou-o at a porta da rua.
Executada esta expulso em silncio, apenas interrompido por algumas interjeies do visconde, Ricardo, vendo que lhe ficara sobre a mesa o chapu do miservel, 
atirou-lho do alto da escada.
S ento reparou ele na presena de Fbio, que se ocultara na janela para deix-lo passar com o visconde a reboque.
- Ouviste?
- Tudo! O sujeito esteve impagvel!
- E sabes quem  o culpado do que acontece?
- Sou eu, se te parece!... Ora, pois, arranja-me da j um processo. Servir para praticares no crime. Cdigo, artigo 264. Mete-me nessa tarrafa policial! Anda; 
um estelionato, de cumplicidade com o visconde!
- No estou de veias para gracejos. Conversemos seriamente, Fbio. Desde ontem que desejo esta ocasio.
- s difcil de contentar. Queres coisa ainda mais grave do que o Cdigo Criminal e um bom processo de estelionato?
Sem atender s facias do amigo, Ricardo continuou:
- So estas as conseqncias do passo errado que me obrigaste a dar, indo  casa do Soares.
- Com esta lgica sou capaz de Ter provar que, se no viesses de So Paulo, no estarias aqui; e portanto o visconde no te pilhava.
- Se todo o mal recasse unicamente sobre mim!... Porm a minha pobre irm Lusa tambm tem o seu quinho. Mal sabe ela que as suas meigas saudades andam aqui desfolhadas 
ao vento do prazer, e quem sabe se j no calcadas aos ps de alguma falsa deidade!
- Meu caro Ricardo, ests hoje ttrico, como o Saio Lobato na Cmara. Aparece-te de repente o Vasques, disfarado em visconde, para representar uma cena cmica, 
e tu em vez de dares boas gargalhadas e te divertires  custa do velho ginja, tomas o caso ao srio, e cais no dramtico! At a, enfim passe. Na cena da ejaculao 
tocaste o sublime. Far-me-ias lembrar o Rossi, se eu o tivesse ouvido. Mas depois de te haveres levantado a essas alturas picas, desceres assim ao sentimentalismo 
corriqueiro de um poeta de sala, eis o que eu na minha qualidade de crtico, de amigo, e de futuro irmo, no posso tolerar.
- Queres fazer o favor de me ouvir? disse Ricardo, atalhando aquela volubilidade jovial, que em outra ocasio o faria rir de boa vontade.
- Espera; deixa acabar. O patife do visconde  um refinado tratante, um velhaco de tal quilate, que logo ao nascer logrou a natureza fazendo-se homem em vez da ratazana, 
para que ela o destinara. Mas para ter boas idias, no h como essa gente. Aproveita a que ele te deu, que  excelente, e logra-o...
- Fbio! exclamou Ricardo com severidade.
- Que maior prazer pode ter um homem honesto do que o de flambar um velhaco?... Pensa nisso, que aproveitas mais o tempo do que lendo o farelrio do Lobo. At 
logo!
Ditas estas palavras, o peralta do rapaz ganhou a porta da escada, e desapareceu.

XXIII

Havia grande banquete no palacete do Soares,  praia de Botafogo.
Era dia de anos. Guida entrava nos dezenove; o que anunciava para breve um grande acontecimento.
Sabia-se que o pai prometera deixar  filha toda a liberdade para se divertir at dezoito anos com a condio de casar-se logo depois. Chegado o dia, Guida sofismou 
a promessa, declarando que se deviam entender os anos completos: pois at a vspera de fazer dezenove, ela se considerava na casa dos dezoito.
-  assim que ns as moas contamos os anos, disse ela para o pai.
O pai condescendera, e a poca do grande acontecimento foi prorrogada at o dia em que fizesse os dezenove anos.
Esta circunstncia produzia nos convidados certa emoo se a moa tivesse de fixar naquele dia a sua escolha.
Quando a curiosidade excitava tais abalos, imagine-se do que no sentiriam os pretendentes, receando ver de repente se desmoronar o edifcio de suas fagueiras esperanas.
Corria o ms de abril.
Uma semana antes deixara a famlia do Soares a Tijuca, e voltara  sua residncia habitual de Botafogo, onde com a passagem para o inverno j no havia a temer os 
grandes calores.
No se esquecera Guida de convidar Fbio, que tinha continuado a freqentar a casa; e nessa ocasio pediu-lhe transmitisse o convite a Ricardo, porque este no voltara 
 Tijuca desde o passeio  Vista chinesa.
- Ele est mal conosco? disse a moa a rir.
- Era preciso que fosse um herege, D. Guidinha.
- Pois ento pea-lhe que no falte.
- Prometo traz-lo.
Os sales enchiam-se de convidados; mas eram em geral parentes, ntimos e pessoas de pouca cerimnia, com quem o Soares no se constrangia. A festa aristocrtica, 
 qual concorria todo o alto coturno fluminense, era o baile  noite.
Fbio acabava de entrar e aproximou-se para cumprimentar Guida.
- Seu amigo? perguntou-lhe a menina.
- No veio, murmurou o mancebo.
No rosto gentil da filha do banqueiro pintou-se uma faceira expresso de desdm e enfado.
- Eu no devia apresentar-me aqui sem uma certido de bito em devida forma, acudiu Fbio em tom galhofeiro; mas ainda creio que me seria mais fcil trazer o sujeito 
a modo de convidado de pedra do que em carne e osso.
- Ele ter suas razes, disse a moa com indiferena.
- O que ele tem  uma sem-razo, tornou Fbio no mesmo tom.
No jantar achou-se Fbio colocado  esquerda de D. Guilhermina, como de costume. Havia entre os dois um arruo, que j durava alguns dias.
- Sinto me tivessem reservado este lugar, que outrora era minha ambio, disse o mancebo com sentimento.
- E que hoje lhe aborrece! tornou D. Guilhermina.
-  verdade; pela certeza que tenho de a estar incomodando.
- Engana-se!
- Tem razo; uma criatura de todo indiferente no pode incomodar aqueles que nem se apercebem de sua presena.
- O senhor  muito injusto! murmurou a moa com inflexo queixosa.
- Que direi eu? ser justo roubar a alma e a vida de um homem, e no conceder-lhe sequer a mnima consolao?
- Uma entrevista s,  noite, no jardim... Se eu me prestasse a esse capricho, o senhor havia de ser o primeiro a reprovar consigo mesmo essa imprudncia e a condenar-me.
- Para que fingir, D. Guilhermina? A causa, eu a conheo! Est defronte de ns!
E o olhar do moo fitou-se no Lima, scio do conselheiro.
- Ento o senhor pensa?...
- Eu no penso.  o que se ouve por toda a parte;  o que diz todo o mundo, tornou Fbio.
- Assim, o senhor tambm acredita?... balbuciou D. Guilhermina com lgrimas na voz.
O mancebo, comovido, receou que o soluo rompesse do seio opresso da moa.
- D. Guilhermina! exclamou com voz submissa e suplicante. Podem reparar!
- Que mal faz!... Para eles, como para o senhor, no sou uma... desgraada.
- Para mim!
- No confessou que tambm cr no que se diz por toda a parte?
-  diferente!... Pode-se ter uma afeio...
- Mas  falso!
- Assegura-me?
- Juro!
- Em vez do juramento, d uma prova.
- Qual deseja?
- A que eu lhe pedi.
D. Guilhermina hesitou.
- Quer me perder em vez de salvar-me? disse a senhora com a voz repassada de tristeza.
- No quero prova alguma; acredito, atalhou Fbio.
Acabado o jantar, quando os convidados derramaram-se pela sala de bilhar e jardim, Fbio encontrou-se com Guida:
- O senhor h de me dizer uma coisa.
- Muitas e com o maior prazer.
- Que razo  essa pela qual o Dr. Nunes deixou de freqentar a nossa casa?
- Pois h uma razo?
- O senhor disse-me quando chegou.
- Perdo, D. Guidinha; se bem me lembro, eu disse que havia uma sem-razo.
- Ou isso! tornou Guida a rir.
-  muito diferente.
- E essa sem-razo no se pode saber?
- Guarda segredo?
- Inviolvel.
- Eu desconfio que  o visconde da Aljuba.
- Como? exclamou Guida na maior surpresa.
Ela no compreendia de que modo pudesse o usurrio arredar a Ricardo de sua casa.
- A est o enigma!
- Brigou com o visconde?
- No; briga no houve. Apenas Ricardo enxotou-o do escritrio.
Guida aplaudiu com riso franco.
- Mas por qu?
- Decifre. No lhe disse que  um enigma?
- Vamos a ver.
- O tal visconde  um especulador terrvel. De tudo faz negcio. Nascimentos e bitos, casamentos e divrcios, heranas e dotes, nada lhe escapa. No foi debalde 
que ele comeou por belchior! Pois o homem parece que lembrou-se de propor um dos seus negocinhos a Ricardo.
- Ah!...
- Paulistas, a senhora sabe como so desconfiados. Ricardo no quis ouvi-lo; mas como o homem valeu-se de seu nome... disse Fbio hesitando.
- Acabe! Instou Guida com autoridade.
- Est acabado. Ricardo apanhou-o pela gola e sacudiu-o na rua, como se faz com uma barata, para no sujar as mos.
- Creio que j decifrei. Mas vou pensar ainda, respondeu Guida com um sorriso, onde borbulhava o desprezo pela infmia do usurrio.
- No me comprometa!
- Esteja descansado.
O Soares conversava no terrao com o conselheiro Bastos, o baro do Sa, o visconde da Aljuba, Nogueira e outros.
- Papai, escute!
Soares afastou-se com a filha.
- Hoje  dia de meus anos, creio que no se esqueceu?
- Tu terias o cuidado de lembrar-me?
- Entretanto ainda no me deu o presente de anos!
- Ah! E esta pulseira de esmeraldas que a tens no brao? Aposto que nem imaginas quanto custou no Farani? Eu tenho vergonha de confessar! Cinco... No digas que 
foram contos... Cinco histrias...
- Isto foi presente do banqueiro; e o pai?
- Nada de espertezas!... Eu c sou um s; a obra no tem dois volumes. Por conseguinte deixa essa rabulice para o fisco, que reparte um homem em vrios inquilinos 
para cobrar-lhes diversos impostos pessoais.
- Neste caso, aqui tem sua pulseira, disse Guida calcando a mola do bracelete para tir-lo. De meu papai eu quero amor e no dinheiro.
- Bem! O que tu queres  pedir-me alguma coisa, e ests com estes rodeios. O que ?
- Faz?
- Se no for um impossvel.
- No deixe que o visconde venha  nossa casa.
- Por qu?
- Insultou-me!
- Que fez ele, Guida?
- Especulou com meu nome.
- Como sabes?
-  meu segredo.
- Tens certeza?
- Toda.
Um instante depois o Soares tranando o brao ao visconde levou-o at o quarto dos chapus, e disse-lhe:
- Visconde, voc sabe o provrbio: Duro com duro no faz bom muro. Ns somos dois espertalhes; no podemos embaar-nos um ao outro; portanto cada um seu rumo. 
Aqui est seu chapu.
- Isto quer dizer que me despede?
-  conforme a maneira de entender. Sou em quem se despede de suas relaes. Boa noite.
Meia hora depois Fbio tornava  casa onde ia preparar-se para o baile.
Ao passar pela rua da Ajuda, lembrou-se o moo de alguma coisa, que o fez retroceder o espao de dois ou trs edifcios, e penetrar em um corredor escuro. No fim 
havia uma escada, que chegada ao tope no primeiro andar, voltava para cima.
Subindo a correr os dois lanos, achou-se em um sto baixo e pequeno, composto de duas peas, uma das quais abria para a escada. Estava apenas cerrada a porta; 
no foi preciso bater.
Ricardo escrevia  luz de uma lamparina de querosene.
Uma semana havia que Ricardo se instalara em sua nova habitao. A fortuna lhe enviara um sorriso, bem escasso ainda, que no obstante luziu como aurora na sombria 
perspectiva de sua existncia.
Conseguira ao cabo de muita pacincia a traduo de um folhetim, que lhe deixava uns setenta mil-ris por ms; e tivera uns dois processos policiais que, pagos mesquinhamente, 
lhe tinham metido no bolso uma nota de duzentos. Finalmente, procurando um cmodo, achara na Rua da Ajuda aquela metade de sto mobiliado, a trinta mil-ris por 
ms includa a comida; mas a dona da casa, uma senhora viva, vendo que tratava com pessoa instruda, props-lhe como pagamento ensinar suas trs meninas e dois 
rapazes; o que Ricardo prontamente aceitou.
Fbio ops-se  mudana, na idia de que o amigo fosse levado pelo receio de ser pesado; mas Ricardo demonstrou-lhe que daquele modo promovia seus interesses. Alm 
de no custar-he o cmodo nada, seno trabalho, gnero de que tinha boa proviso, podia entre os conhecidos da viva obter novos discpulos.
- E te sujeitas a isso? perguntara-lhe Fbio admirado.
- O trabalho honesto honra; e este de ensinar  dos mais nobres, respondera simplesmente o paulista.
No momento em que entrava o amigo, Ricardo escrevia  sua me, e confirmava-lhe as boas notcias que at ento apenas lhe deixara entrever, receoso de afag-la com 
falaz esperana.
- Trabalhando sempre! disse o trfego fluminense recostando-se na marquesa de vinhtico.
- Estou escrevendo para So Paulo, respondeu Ricardo com uma inflexo triste na voz.
- Oh! diabo!...  verdade, amanh sai o vapor. Espera!
De um salto chegou-se  mesa, tomou uma pena, e escreveu no primeiro bocado de papel que achou, estas palavras:
La vita uniti
Transcorreremo.
- Toma; mete isso em tua carta!
E acendendo o charuto, voltou  marquesa, onde espichou-se cantarolando o dueto da Traviata. Passado um instante ergueu-se; olhou indeciso para Ricardo que lhe dava 
as costas escrevendo; passeou a esmo pelo estreito aposento, e aproximou-se da mesa:
- Queres um charuto?...  fazenda superfina!... Duque!... J vs que para fum-los  preciso ser prncipe pelo menos. Mas o Soares, que trata este mundo de resto, 
abarrota com eles aquela scia acostumada ao trabuco de vintm! Fazia d ver como atolavam as mos nas bandejas de prata dourada!... Toma, no queres provar?
- Deita-o a, respondeu Ricardo metendo a cara na capa, e pondo-lhe o sobrescrito.
Secou-se a musa ao Fbio com aquela indiferena do amigo; deu outra vez algumas voltas pela casa, e afinal decidiu-se:
- Podes ouvir-me um instante?
- Acabada esta carta;  a de Lusa e Bela.
Fbio fez um trejeito de homem pilhado na esparrela.
- Podes falar.
- Sem prembulos. Queres fazer tua felicidade?
- Para isso trabalho eu h dez anos.
- Pois no  preciso mais trabalhar: basta que estendas a mo.
- Achaste a lmpada de Aladino, e me queres fazer presente dela?
- No; mas descobri que o anel da Guida que  mais precioso do que o de Giges, foi feito para teu dedo. Ah! Assim me servisse ele!
- J te pedi que no repitas esse gracejo.
- No estou gracejando; falo srio, mais srio que a burra de bronze de teu futuro escritrio. A Guida gosta de ti, acabei de convencer-me hoje.
- No suspeites da pureza de uma menina sisuda, e com m inteno, disse Ricardo abrindo um livro para cortar a conversa.
- Assim recusas! Quando a riqueza e a felicidade te procuram e vm tirar-te desta boceta que por uma metfora atrevida e arriscada, como dizia o Padre Fidlis, chamam 
sto, e onde vives empalado, tu a enxotas como uma importuna? E no te lembras de tua me, de tua irm, dos teus, sobre quem se derramaria a tua felicidade como 
um benefcio do cu?... s um egosta, Ricardo!
Ricardo ergueu-se.
-  pena realmente que o anel no sirva em teu dedo, Fbio! Pois tu no hesitarias em sacrificar-te para a felicidade de todos ns, inclusive a de Lusa!
- Sem dvida!
- Ao menos tens o mrito da franqueza, tornou Ricardo com ironia repassada de desgosto.
- Ora! tu no me pareces um advogado da corte! No h estudante de So Paulo que no saiba ao terceiro ano o que  um caso de fora maior, e quais so os seus efeitos 
jurdicos. Pois, meu caro Ricardo, um dote de um milho com a perspectiva de outro por herana, em matria de amor no  s fora maior,  uma fatalidade.
- Vejo que aproveitaste bem o teu curso!
- Se que que amo Lusa, e estou na obrigao de am-la toda a vida, salvo o caso de fora maior, a esquecesse para casar-me a com qualquer outra moa, seria decerto 
um ingrato, um monstro de perfdia. Mas sendo para casar sem amor, por clculo, com uma boneca do valor de um milho, daria um exemplo sublime sacrificando a paixo 
aos ditames da razo. Os heris da histria e da fbula so todos feitos por esse modo. O corao fica intacto; e dentro dele, como a lmpada do santurio, arde 
sempre o primeiro e eterno amor. Eis como eu penso.
- E Luisinha pensar do mesmo modo?
- Deve, porque me ama.
- A razo  original!
- Julgo-a por mim. Sabes que amo tua irm. Pois bem; aparecesse um casamento milionrio para ela, e eu seria o primeiro a dizer-lhe: Lusa, eu no sou o nec plus 
ultra dos homens; mas um pobre mortal com algumas qualidades e muitos defeitos. Como eu, se encontram a pelas ruas s dzias. Um milionrio porm, meu anjo,  uma 
espcie rara, um animal extico, um fenmeno social; vale a pena dar a gente um molho de esperanas que afinal murcham como o alecrim, para ter o prazer de possu-lo.
- No me admira essa linguagem da parte de um homem que ama  tua maneira.
-  outro ponto em que discordamos. Tu tens a fidelidade do frade, eu a do soldado; tu foges, eu combato. Quando um homem conta  mulher amada suas conquistas e 
as sedues que sacrificou  sua beleza, ela deve ter legtimo orgulho.
- Guarda o teu esprito para o baile, Fbio; no o estejas esperdiando nesta cela, onde s cabem as tristezas  e preocupaes da vida. Melhor farias se me respondesses 
seriamente a uma pergunta.
Fbio calou-se surpreso da severidade do olhar de Ricardo.
- Donde te vem o dinheiro que despendes nesta vida de luxo?
- Ora! Uma ninharia!
- Vs; tu coras e evitas responder-me.
- Emprestaram-me.
- Quem?... Ela?...
- Ricardo!... Que idia fazes de mim?
- Desculpa-me!... Conheo teu carter; mas no mundo em que andas agora,  to fcil um deslumbramento, um eclipse!...
- Tens razo! Prometo abandonar semelhante vida... Irei ao baile desta noite porque estou obrigado.
- Vai e diverte-te, disse Ricardo, que desejava apagar no esprito do amigo o travo de sua injusta suspeita.
- No queres vir tambm?
- Tenho muito o que fazer.
E despediram-se.

XXIV

Estamos em junho.
s onze horas saa Ricardo de seu escritrio, j melhor situado, na Rua do Rosrio, e dirigia-se  casa da Relao, onde dava audincia a 3 vara municipal.
Tratava-se de um processo-crime importante; uma falsificao de firma. O negociante, vtima da fraude, tinha procurado Ricardo para incumbi-lo de promover a acusao 
com energia, pois era mister um exemplo.
Por avano dos honorrios deixara-lhe sobre a mesa naquela manh um conto de ris.
No era este o primeiro cliente importante que o jovem paulista vira aparecer-lhe de repente. De um lado chegavam as propostas, que exigiam para resolv-las um jurisconsulto, 
ou pelo menos um provecto advogado. Do outro, minutas de contratos e escrituras. Sentia Ricardo, que seu nome granjeava entre os comerciantes um favor, que no sabia 
explicar.
Agora mesmo, descendo a Rua do Ouvidor, perscrutava ele debalde a causa do conceito que subitamente adquirira como advogado na corte, onde tantos existem e to ilustres.
No podia atribuir o fato ao seu mrito, ou  voga artificial que se arranja por meio de anncios, e at de escndalos. Tambm no se oferecera para advogado de 
alguma beneficncia estrangeira, com o fim de captar a clientela dos scios.
Lembrava-se de ter visto muitos desses novos clientes em casa do Soares; e quis supor um instante fosse tudo efeito da amizade de Fbio, que naturalmente falava 
naquela roda a seu respeito com o entusiasmo do costume.
Mas no tardava em repelir essa suposio. Ricardo tinha experincia e sabia que a palavra sincera e convencida  pedra solta e no edifica neste pas;  preciso 
pr-lhe um comento: o medo, a comodidade, o lucro, a paixo, etc.
Quando, fatigado de excogitar em vo, punha o nimo  larga, espraiando a vista pela Praa de So Francisco de Paula, aonde saa naquele instante, deu com os olhos 
em Guida. Diante dele acabava de parar uma meia vitria, tirada por duas mulas possantes.
O lacaio, saltando da almofada, em vez de correr a abrir a portinhola, foi tirar questo com o cocheiro de uma diligncia, que impedia a vitria de chegar  boca 
da Rua do Ouvidor.
- Psiu, ol, patro, deu fundo a?
- O largo  bem grande, respondeu o outro empoleirado.
- No v que  o carro do Sr. comendador Soares? Retorquiu o moleque com a insolncia do lacaio de um milionrio.
-  melhor que os outros?... Se tem muito dinheiro, guarde-o, que passa-se muito bem sem ele.
- Dobre a lngua, s atrevido, gritou o moleque pronto a saltar-lhe s bochechas.
D. Paulina e a filha debalde chamavam o pajem, receando que a rezinga desse em briga; Guida porm julgou que o mais expedito era descerem ali mesmo, fazendo cessar 
a causa da altercao e obrigando o lacaio a acompanh-las.
Reclinou para abrir a portinhola, mas Ricardo antecipara-se:
-  o Dr. Nunes, mame!
Apearam-se as duas senhoras e receberam os cumprimentos do moo.
- Ora estimei muito encontr-lo, disse D. Paulina com sua habitual singeleza. Quero fazer um presente ao Soares; mas ele no gosta que lhe dem coisas de luxo, que 
no tenham utilidade. Incomoda-se!
- Acho-lhe razo! disse Ricardo por delicadeza e para mostrar interesse na conversa.
- E eu no lhe acho nenhuma, acudiu Guida voltando-se: um presente  uma lembrana, e no um fornecimento de vveres, roupa ou qualquer outro necessrio.
Ricardo fitou a moa para conhecer-lhe pelo rosto se fora sua inteno dar-lhe uma lio de urbanidade; mas ela dobrava distrada o canto da Rua do Ouvidor, deixando 
sozinha a me.
- Disse-me o Bastos que a Notre Dame tem camisas de homem muito bonitas. Quero ver o seu gosto. Vamos,  perto.
Lembrou-se o advogado da inquirio; mas tinha meia hora e o recurso do tlburi. Condescendeu, pois, tanto mais que seria pouco delicado deixar ali s no meio da 
rua a mulher do banqueiro, sem a filha que desaparecera, e o pajem que ainda grazinava com o conheiro.
- Com muito prazer, minha senhora, ainda que no me posso demorar muito.
-  um instante!
Entraram na Rua do Ouvidor, onde Guida os esperava.
- H tanto tempo que o senhor no aparece, Sr. doutor; est mal conosco?
- As minhas ocupaes, D. Paulina, no me permitem.
- O Sr. Dr. Nunes trabalha muito, mame! observou Guida voltando-se.
- Seu amigo gosta mais de se divertir. Como vai ele?... Ah! aqui esto as camisas.
E D. Paulina mostrou a Ricardo a vidraa do Notre Dame, onde se viam as caixas de camisas francesas com toda a sorte de punhos e colarinhos.
A casa da Notre Dame  uma espcie de secretaria da moda fluminense; h naquele ministrio do luxo diversas sees, e diretorias, melhor regidas talvez do que 
a dos correios, dos telgrafos, e outras.
D. Paulina e Ricardo entraram na sala da roupa branca, lingerie; e apesar da condescendncia do advogado, disposto a conformar-se plenamente com a escolha de D. 
Paulina, para mais depressa libertar-se, um quarto de hora foi consumido no cotejo, nas indecises, e mil rodeios, com que as senhoras costumam deliberar em conselho 
de estado pleno sobre a magna questo da compra de uma fita, por exemplo.
Durante esse tempo, Guida na prxima repartio, a das sedas, soierie, fazia desmoronar-se, a um aceno da ponteira de seu chapelinho de sol, as rimas de caixas e 
pacotes, que atopetavam os armrios.
Tinha prazer em ver se desdobrarem assim aquelas ondas de seda e veludo; em contemplar as galas da moda, examinar as mais esplndidas sedues do luxo, e sentir-se 
calma e indiferente.
- No me agrada!
Esse dito desdenhoso, o repetia ela de cada vez que afeitavam-lhe diante dos olhos um corte de nobreza rutilando aos toques da luz, os nimbos da tarlatana orvalhados 
de pingos de cristal, ou os flocos da gaze de Chambery flutuando como nuvens douro.
Debalde os caixeiros excediam-se na lbia francesa, com a qual no compete nem o puff ingls, nem o humbug americano.
Foi impossvel excitar na moa a cobia por qualquer das ltimas novidades e fantasias da moda.
- Quero comprar alguma coisa, para no dar-lhes trabalho -toa.
Nesse momento aproximaram-se D. Paulina, e Ricardo que vinha despedir-se.
- J vai? perguntou a moa com indiferena.
- Se me permite!... Devo achar-me s onze horas na Relao.
- Ah! O senhor j sabe? acudiu a moa pondo-se a contraluz de um rico vestido de gorgoro para ver-lhe o efeito: o visconde da Aljuba no freqenta mais a nossa 
casa. Qual acha mais bonito, o azul ou o verde?... Este?...  tambm o meu gosto.
Voltou-se para o caixeiro:
- Mande-me este a Comait.
Depois tornou a Ricardo:
- Como algumas pessoas no gostavam de encontrar-se com ele... por isso lhe previno.
- Eu nunca lhe dei ateno.
- Ah! pensei.
-  verdade, acudiu D. Paulina. O senhor h de jantar conosco Sbado. No falte; promete?
- Terei esse prazer, disse Ricardo.
- Mas olhe que  segredo.
- Ah!  um banquete poltico?
-  uma conspirao, observou Guida.
Saindo de Notre Dame, no viu Ricardo duas pessoas recostadas no guarda-vidraas de metal dourado.
Eram o visconde da Aljuba e o Dr. Nogueira, que enfiando os olhos pela vidraa, acompanhavam os movimentos da Guida, fazendo a propsito algumas observaes.
- O farsola  capaz de lograr-nos! dizia o visconde designando Ricardo.
- J lhe tomei o pulso, respondeu o Nogueira com a peculiar jactncia: est muito calouro ainda!
- E a sua candidatura, como vai?  uma coisa que havia de ajud-lo muito.
- As coisas esto bem dispostas, mas sem algum dinheiro...
O visconde pulou  semelhana dum martelinho de piano, quando lhe tocam na tecla:
- No creia nisso. Eleio, meu doutor,  o governo que a faz; o mais so petas. Quando ele perde,  de propsito para pregar o mono a certos sujeitos. Se o senhor 
tem o governo por si, deite-se a dormir, no precisa de mais nada; se no o tem perde seu tempo e seu cobre.  cuidar noutra coisa.
- No  tanto assim...
Nesse momento sara Ricardo da loja.
- Chegou a sua vez, disse o visconde ao Nogueira empurrando-o amigavelmente. V emgambelar a rapariga. Arde, ponha para fora toda a sabena e desbanque-me o tal 
bonifrate! Eh!eh!...
E trinando o seu riso em falsete, o Aljuba l se foi a trote miudinho, rua acima, para o escritrio.
Entretanto cismava Ricardo no segredo do jantar para que fora convidado; e dois dias depois, na manh de sbado, ainda ocupava-se com esse capricho de senhoras, 
muito inclinado a abster-se do convite, apesar de o haver aceitado por delicadeza.
Achou porm em seu esprito boas razes, que o dispuseram; e s quatro horas da tarde apeava-se do tlburi no palacete de Botafogo.
A reunio era mais numerosa que de costume. Alm dos infalveis, notava-se grande nmero de capitalistas e negociantes, a creme da praa. A estavam todos os nossos 
conhecidos, menos o visconde da Aljuba.
Havia na sala a atmosfera moral que se forma pela expectativa e curiosidade do desconhecido. Os amigos encontrando-se inquiriam da novidade e perdiam-se em conjeturas 
acerca da reserva com que se tinham feito os convites, do segredo recomendado, e da surpresa que sem dvida estava preparada para o banquete.
Sintoma bem significativo da importncia dessa reunio, que sob a aparncia de festa ocultava talvez um acontecimento, era a presena de D. Leonarda Torres, a av 
materna de Guida, ou a avozinha como a chamava a menina.
A me de D. Paulina, velha de sessenta anos, nunca aparecia na sociedade; o defeito de uma perna proveniente de reumatismo gotoso, e o  gnio a retinham constantemente 
em casa.
Nesse dia, Guida conseguira arranc-la de seu retiro para faz-la assistir  festa. E o que no obteria a gentil menina da velha, que morria-se de amores por ela?
 chegada de Ricardo, Guida o levou para junto da velha, sentada  parte em uma cadeira de roldanas:
- Avozinha, aqui lhe trago uma pessoa para conversar.  o Dr. Nunes.
-  mdico? perguntou a velha.
- No, respondeu Guida sorrindo-se por adivinhar o pensamento da av, que era falar de seus achaques. Mas  filho de So Paulo.
- Est bom!
- Fale-lhe de sua terra! disse Guida voltando-se para Ricardo. Ela passou l muitos anos, quando menina; e ainda tem saudades.
- Ah! morou em So Paulo algum tempo? disse Ricardo. Na capital mesmo?
- No Brs. No conheces a casa de D. Belmira de Leme Torres?
- Muito; minha famlia e a sua visitam-se.
- Pois estimo bem.  minha prima.
- Agora, disse Guida alisando os cabelos brancos da velha, no se h de aborrecer mais. Tem quem a distraia; no  assim?
E deixou os dois em conversa.
De todas as pessoas na sala nenhuma estava to desnorteada, como ficou o Soares que ao voltar do escritrio para o jantar caseiro e o repouso da sesta, encontrou 
o palacete em festa, cheio de amigos com que decerto no contava achar-se naquele dia.
- Que histria  esta? perguntou o banqueiro que tudo levava em ar de brincadeira. Querem ver que o Aljuba espalhou que eu ia pr-me ao fresco, e vocs pelo seguro 
vieram cercar-me a casa? Finrios!... Tambm tu, conselheiro! Vieste agarrar o teu velho camarada!
- Que dizes?... No vo bem os teus negcios? acudiu o Barros amornando a sua fria e pachorrenta gravidade. Bem sabes que at onde eu puder!...
Soares abraou-o com efuso, mas logo afogou esse impulso na perene galhofa:
- Ests sonhando, meu velho! Nunca me correram tanto  feio os negcios, como depois que o farsola do visconde me anda a agourar. Tu sabes, praga de urubu... Mas 
deveras que vieram vocs a fazer? Quem os chamou c?
-  boa! Pois no nos convidaste para jantar!
- Eu! Vocs querem divertir-se.
- Foi o recado que recebemos.
- Hum!... No passa de invenes da senhora minha filha! No resta dvida!
O banqueiro levou o dedo  boca:
- Esperem que vou tente-la.
Nisto apareceu Guida:
- Sim senhor, papai, muito bonito! convida a cidade do Rio de Janeiro em peso para jantar, sem prevenir a mame, nem dizer a pessoa alguma! Pois isto se faz?
- Henh! esto vendo, vocs! disse o Soares disparando a rir.
- Ora no disfarce, papai. Todos estes senhores receberam seu convite, e com a recomendao de guardar segredo!
-  verdade?
- Ento!... Mame e eu amos sair, quando comeam a chegar convidados. Os senhores ho de ter pacincia e desculpar. Um banquete no  um discurso, que se improvisa.
-  pena que no se possa mudar de sexo, Guida. Tu serias o primeiro banqueiro do Rio de Janeiro.
- Esse lugar j est tomado, papai.
- O jantar!... gritou o Daniel na porta.
- Brejeira! murmurou Soares fazendo ccegas nas faces de Guida.
Sentaram-se os convidados  mesa, onde o cozinheiro teve o talento de concentrar os espritos na mais sria das preocupaes da vida quela hora crtica do jantar. 
Assim j poucos se lembravam que ali tinham ido para outra coisa que no fosse apreciar a boa mesa do Soares.
- Aposto que est muito curioso de saber o segredo? disse Guida a Ricardo que lhe ficava ao lado.
- Confesso que tenho alguma curiosidade; mas por um motivo que no supe.
- E se eu adivinhar?
- Tem muitas prendas para que lhe desse mais essa a natureza.
- O senhor suspeita que o segredo  uma brincadeira, um logro.
- Pior do que isso. Antes de ter o prazer de conhec-la, ouvi falar da anedota de um mdico, que se mandou chamar de madrugada a toda a pressa para ver uma cachorrinha.
- Ah! contaram-lhe isso? tornou Guida a rir; mas sem dvida no disseram que foi uma aposta!
- Em todo o caso...
- Papai duvidou que eu fosse capaz de fazer o doutor ir a um baile ou coisa que se lhe parecesse; eu apostei. Arranjei uma partida em nossa casa, mas com o maior 
segredo.
- Como o jantar de hoje.
- Tal e qual; s onze horas, quando as salas estavam cheias escrevi ao doutor, em nome de meu pai, a carta chamando-o para ver minha querida Sofia, que estava 
gravemente enferma. Ele veio; levou a coisa de brincadeira; e ao retirar-se teve de sair pelas salas, pois no havia outro caminho. A as minhas amigas, que j estavam 
prevenidas, rodearam-no com muitas festas, e tanto fizeram que o velho danou uma quadrilha para recobrar a liberdade. Eu ganhei a minha aposta e meu pai deu-me 
Edgard. Bem v que lucrei com a travessura.
- J no me admira que faa tantas.
- Fiz; tinha dezesseis anos apenas;  verdade que, se no as fao ainda hoje, no  por falta de vontade, mas por acanhamento. J tenho dezenove e contudo ainda 
me sinto menina.
Nesse momento ergueu-se comovido o baro de Sa.
- Meus senhores, vou fazer um brinde.
Compreenderam todos como por uma repercusso moral que era chegado o momento da explicao; e abriu-se profundo silncio.
Guida e Clarinha, a filha do baro, trocaram um olhar de inteligncia que no passou desapercebido a Ricardo.
O baro props a sade nestes termos:
- Ao meu velho amigo Soares, ao homem honrado que se fez por seu trabalho, e a quem o povo despachou comendador por aclamao, antes que sua Majestade houvesse por 
bem nome-lo. Aqui est o decreto.
O velo com gesto solene abriu o pergaminho, onde se via uma assinatura de quatro contos de ris; as outras eram bagatela.
Ao mesmo tempo D. Clarinha, a filha do baro, prendia ao peito do Soares a venera da Rosa cravejada de brilhantes.
Patenteou-se o segredo; e as explicaes correram ao redor da mesa.
Uma semana havia que no Jornal do Comrcio comeara a aparecer uma mofina concebida nestes termos:
COMENDADOR CHENCHM

Um marreco bem conhecido na praa, por suas especulaes e trapaas, assentou de fazer-se comendador de meia-cara. O ttulo soa e no custa cinco rs ou ris.

O banqueiro, quando lhe mostraram o jornal, riu-se:
- So as unhas do tratante do Aljuba... No resta dvida.
-  um desaforo! diziam-lhe os amigos.
- Pois eu tomo a coisa s avessas.  uma fineza, que ele me faz diferenando-nos.
Quem mais se incomodou com o caso foi o baro de Sa, que no maior segredo tratou de comprar a comenda para seu velho amigo, a fim de malograr a vil mofina. D. Paulina 
e Guida, de combinao com ele, prepararam a surpresa, a cujo desfecho acabamos de assistir.
Muitos dos convivas no se tinham apercebido da mofina, pela indiferena com que passam os olhos por essa arena da imprensa, onde se esgrime, de envolta com idias 
e sentimentos nobres, toda a casta de paixo.
Valeu-lhes o Bencio, que ningum jamais apanhou desprevenido.
Submergindo a mo pelas profundezas do bolso, tirou dois ou trs retalhinhos de jornal; eram exemplares da mofina que tinha o cuidado de cortar cada dia para apresent-la 
cheio de pesar e indignao a quantos encontrava, aproveitando a ocasio para fazer o pomposo elogio de seu ntimo amigo, o Soares, que, isto  dele, metia no chinelo 
todos os comendadores havidos e por haver.
- A mofina?... Querem ver o desaforo?... Aqui est, essa pouca-vergonha! dizia o homem servial obsequiando aos vizinhos.
Erguera-se o Soares:
- Meus amigos. Isto nada vale por si, disse com o chasco habitual, pondo o dedo na venera; nada, nem como comenda, nem como jia. Como comenda,  uma encomenda, 
que j no recomenda ningum. Como jia, eu tenho no corao do meu velho Joo, e dos amigos aqui presentes, um diamante de melhor gua e quilate do que qualquer 
destes. Mas a inteno, essa  um tesouro;  a alma de um homem honrado e amigo dedicado.
Sentiu-se que o Soares estava comovido.
- Guida, minha filha, vem c. Toma esta jia; ela te h de servir de broche. Em teu colo todos ho de admir-la; e tu podes ter orgulho, minha filha, de adornar-te 
com a probidade de teu pai!
Guida lanou os braos ao pescoo do Soares.
Romperam os aplausos. A comoo era geral. Havia na reunio a eletricidade moral dos espritos em ebulio, que s esperam uma centelha, para se inflamarem. A cena 
a estava aberta; desenhada a situao; faltava s a palavra eloqente, que a exprimisse.
Algumas vozes proferiram o nome do Dr. Nogueira, como o homem do momento. Ele hesitou: no tinha previsto o lance; podia arriscar a sua reputao; era mais prudente 
deixar-se ficar na penumbra desdenhosa de seu incontestvel talento.
Foi ento que Ricardo exaltando-se com aquela cena onde vibravam as cordas mais nobres e generosas do corao, ergueu-se num assomo de entusiasmo, e sua voz sonora, 
palpitando aos impulsos do sentimento, arrebatou a ateno geral.

XXV

Trila o piano. As notas frescas, brilhantes e vivazes de um romance de Schubert se escapam em enxames pelas janelas, voluteando, como os coleiros que esvoaam pelo 
jardim, entre os ramos floridos dos reseds.
Eram onze horas.
Mrs. Trowshy, sentada junto  mesa carregada de livros, mapas e outros objetos, espera gravemente que Guida se resolva a comear a lio; mas a menina inteiramente 
embebida na execuo da msica, nem se lembra da mestra.
- Alons, Guida.
Afinal conhecendo, depois de trs advertncias inteis, que perdia seu tempo, aproximou-se do piano e abriu o livro da msica sobre a estante, para evitar que a 
discpula tocasse de cor.
Guida levantou-se logo do tamborete; e a mestra pensando que ela cedia-lhe o lugar para v-la tocar a pea e corrigir algum engano, sentou-se ao piano e executou, 
com o maior escrpulo, a linda composio de Schubert.
Mas Guida que ela supunha  sua beira, acompanhando atenta a sua lio, estava bem sentada  mesa, onde abrira a sua caixa de tintas e coloria uma aquarela, mas 
a seu moo, pintando a folhagem de encarnado, os bois e os carneiros de verde, e a gua de amarelo.
Dando a mestra por falta da discpula a seu lado, tornou  mesa para observar a pintura da moa:
- What horror!... exclamou ela espantada com o disparate das cores.
- A senhora no tem bom gosto, Mrs. Trowshy, disse Guida. No sabe apreciar a originalidade!
A inglesa disparou a rir, passando com extrema volubilidade do horror  gargalhada:
- How funny!... How funny!...
- No se ria, Mrs. Trowshy! Isto que a senhora est vendo  uma obra-prima! Que vigor de colorido! Que tons brilhantes!... Os versos de certos poetas, se fosse possvel 
pint-los, saam assim.
A mestra divertida com a travessura da menina, tomou to vivo interesse, que segundo o seu costume entrou logo em colaborao. Mas Guida no estava de veia nesse 
dia, pois abandonando-lhe o pincel e a cadeira, esqueceu aquele divertimento e foi  cata de outro.
Deu duas voltas pela saleta, sem lembrar-se de coisa em que esperdiasse o tempo, porque de lio, no queria ela saber naquele dia, e tinha resolvido na sua fantasia 
um sueto.
No fim de contas foi Sofia quem deu o tema para a nova travessura. Sentou-a Guida em uma cadeira defronte de si, com as patas dianteiras erguidas; e abrindo seu 
costureiro de pau-de-cetim embutido de bano, disps-se a cortar para a felpuda cachorrinha um vestido de cauda  Pompadour, com dois tremendos pufos.
- Que est fazendo, Guida?
- O enxoval para Sofia.  verdade: ainda no lhe comuniquei o seu prximo casamento com um gentledog que est apaixonadssimo do seu dote!
Nesse momento Soares apareceu  porta e chamou:
- Guida!
- Papai ainda no foi para o escritrio?...
- Chegaram visitas, quando ia sair, e trouxeram umas novidades que te ho de interessar!
- Ah! So figurinos? perguntou Guida ocultando sob um remoque a sbita emoo.
-  outra espcie de novidade.
Travando-lhe da mo, Soares levou-a at o gabinete, e a f-la sentar perto dele na sua secretria.
- Lembras-te da conversa que tivemos aqui neste mesmo lugar h perto de quatro anos?
- Era to criana ento!... Se ainda hoje sou! atalhou Guida gentilmente.
- Esperta! acudiu Soares beliscando-lhe o beio; j estas preparando a retirada!
- Ah! ento  um ataque? Foi bom prevenir-me!
- Pois defende-te! Essa conversa, que tivemos h quatro anos, veio, recordo-me bem, por causa do susto que te causaram, com a inveno de que eu ia te casar antes 
de um ms com o Bastos.
- Susto que ainda me faz estremecer, observou em aparte Guida.
- Ento eu te prometi duas coisas: primeira, que antes de completares dezoito anos, eu no te falaria nem por sombras em casamento; segunda, que tu mesma, de tua 
livre vontade e a teu gosto, escolherias um marido.
- Disso me lembro perfeitamente, e o trago bem guardado; pois  a maior prova do bem que me quer e da confiana que tem em sua filha.
- Ela merece tudo e mais, tornou Soares; mas a essas duas obrigaes contradas por mim correspondiam duas clusulas a que de teu lado te submeteste.
- Vamos a ver.
- De tua parte, me prometeste que em completando os dezoito anos farias logo tua escolha; e no caso de no concordar eu, por estar um de ns enganado, te sujeitarias 
durante um ano s provas a que eu submetesse o escolhido, para conhecer-lhe o carter a arrancar a minha ou a tua iluso. Foi isto?
- Literalemnte.
- Bem. Os dezoito anos se completaram h perto de trs meses: e a escolha?... Est feita?
- No, papai.
- E quando se faz?
- Quando aparecer aquele a quem eu devo escolher. No posso inventar um noivo, papai! Tenho eu culpa se todos esses que me cercam nos bailes, e me perseguem com 
sua corte, me so indiferentes? Se nenhum desperta em mim a menor emoo, que se parea com a afeio terna e pura da mulher por seu marido? Se os acho banais e 
ridculos, e me fazem rir, quando no me aborrecem?
- Eis a, replicou Soares; tu dizes que no podes inventar um noivo, no que eu plenamente concordo; e entretanto no cuidas de outra coisa seno desse invento. Fantasiaste 
como toda a moa um homem  tua idia, como no se encontra neste mundo; e cotejando os outros de carne e osso com o teu exemplar, os achas a todos uns bonecos sem 
graa.
- No  isto, papai; no sou romntica; bem ao contrrio; se h coisa ridcula para mim,  o ideal desses heris de romance que sabem tudo, podem tudo, e tudo adivinham. 
Para uma pobre moa como eu, seria um traste bem incmodo. O que desejo  um homem de carter nobre, que me ame, e por quem eu sinta verdadeira estima e afeio, 
para desculpar seus defeitos e no ver suas fraquezas. Parece que no peo muito!
- Mas, Guida, at agora no pudeste encontrar este homem? Em nossa casa vem a flor do Rio de Janeiro; e se falta algum,  porque assim o queres. Bastava uma palavra 
tua. Tu freqentas os melhores bailes, conheces toda a sociedade escolhida da corte.
- Ainda  cedo! disse Guida.
- Cedo!... Agora vive-se depressa, minha filha; essa palavra quase que est eliminada do vocabulrio da poca. Dezoito anos  a mocidade da mulher, como os cinqenta 
e cinco que j esto c, so a velhice do homem. Amanh pode ser tarde para ns ambos.
- Deixe-se dessas idias, papai!
- H quinze dias, me pediste para romper com o visconde por andar ele especulando com teu nome. No me quiseste dizer de quem se tratava. Ontem me avisaram de um 
infame ajuste feito entre ele e o Nogueira, sob a garantia de teu dote.
- Eu j sabia, disse Guida.
- Tu sabias, sim; mas pensa qual deve ser a minha tristeza lembrando-me que te posso deixar s no mundo,  merc de semelhantes infmias. Se fosses pobre, a tua 
virtude bastava para defender-te; mas rica!... Serias o prmio da especulao, a vtima das trapaas, o alvo de todas as ambies, que te disputariam como um privilgio 
de bondes, ou um monoplio dgua. No te horroriza esta idia, e no avalias das inquietaes de teu pai?
Guida reclinou sobre a mo a fronte pensativa e Soares ergueu-se ao impulso da comoo que o abalava:
- Essa imensa riqueza, que me invejam, de que me serve, pois em vez de garantir, compromete o futuro de minha filha? Se com um milho, dois, tudo quanto possuo, 
pudesse criar um homem digno de ti...
- No se aflija! disse Guida meigamente passando-lhe a mo ao pescoo. Prometo escolher.
- Srio?... E quando?...
- Em um ms.
- Deus te abenoe, como eu, e te inspire.
O pai estreitou a filha ao corao.
- Mas, tornou Soares de sbito,  por tua vontade!
- Inteiramente!
- Sem constrangimento!
- Nenhum.
- Vou descansado.
Guida acompanhou o pai at o porto, onde o esperava o carro para lev-lo ao escritrio. Pelo caminho folgavam os dois como camaradas de colgio ao sair da aula 
em vspera de feriado.
Ficando s, a moa foi esconder-se a um recanto do jardim, em um nicho de trepadeiras; e a ficou cismando cerca de uma hora. A mgoa que disfarara em presena 
do pai, derramava-lhe agora no lindo semblante uma doce tinta de melancolia.
 tarde Guida lembrou-se de ir ver a av no Andara.
A vivia D. Leonarda retirada na chcara, onde nascera, no meio de uma rcua de crioulas e um bando de moleques de todos os topes e de todas as cores. Aquela criao 
pululava e crescia  manga lassa, como bezerros do serto sem freio e sem educao.
D. Leonarda, desde que a serviam nos poucos misteres para os quais bastava uma criada diligente, deixava a troa das mucamas na mais completa liberdade, at nove 
horas, em que punha-as todas, mes e avs de filhos, debaixo de chave, como donzelas recatadas; e nessa conta tinha-as a todas, crendo realmente enjeitados pelas 
vizinhanas os moleques que lhe enchiam a casa.
Alm da sua perna e das contas do seu procurador, D. Leonarda no se ocupava doutra coisa seno dos moleques, de coser para eles, distribuir-lhes um vintm para 
cocada, e ensinar-lhes a rezar.
Quando o carro de Guida parou na frente da chcara, correu ao porto o enxame de moleques e a troa das mucamas, gritando e saltando para festejar a chegada da menina.
Era sempre assim.
A entrada de Guida na casa da av produzia o mesmo efeito que um sol de abril rompendo a bruma depois de uma manh de chuva, ou para empregar imagem menos rstica 
e potica, o de uma msica de batalho passando em rua escura e retirada.
O rancho das raparigas e moleques corria ao porto. D. Leonarda, a coxear, arrastava-se com o arrimo de uma bengala at a porta, onde acabava de aparecer. No se 
pinta a expresso de jbilo que afogava o semblante da velhinha, com as alvssaras da chegada de Guida.
Para a velha, aquela criana era todo o amor, como toda a alegria; ou antes, a criana era ela, que se deixava acalentar pelas carcias e meiguices da neta; e bebia-lhe 
nos lbios mimosos o doce riso que ainda iluminava-lhe as faces plidas, e o prazer que lhe orvalhava as tristezas e achaques de velhice.
Subiu Guida ligeiramente os degraus da escada de pedra e apertou nos braos a av, beijando-lhe os cabelos brancos e amimando-a com a graa que espargia-se em seu 
menor gesto, mas com uma ternura, que mui rara transpirava, como perfume de flor cerrada, a qual s rescende na soledade.
Entretando Mrs. Trowshy, ao descer do carro, como de costume tapou os ouvidos com as mos para tornar-se impenetrvel  algazarra da molecada, e soltando um esplndido 
brrrrrr da genuna escola inglesa, foi acab-lo numa cadeira de balano da saleta, onde arreou-se como uma bala de algodo no bojo dum saveiro.
- H que tempo, ingrata! disse a velha.
- Oh! avozinha! No tinha com quem vir! Mrs. Trowshy andava com os seus faniquitos.
Depois de ter acarinhado a seu gosto a avozinha, Guida levou-a na sua cadeira de roldanas para o vo de janela que abria sobre o jardim, e a de joelhos sobre a 
ponta do banquinho, o busto reclinado ao brao da poltrona, comeou a falar baixinho ao ouvido da velha com extrema vivacidade. Dir-se-ia que receava encontrar-se 
com suas prprias palavras, pois as despedia mui depressa, e s escondidas.
Algumas vezes parava para observar a fisionomia de D. Leonarda, onde atravs do embevecimento que lhe causava a voz querida, espontava uma leve surpresa.
- Como h de ser? perguntou a velha uma vez.
- Escute, respondeu Guida.
E tomando entre as mos a cabea da velha com um gesto gracioso, conchegou-a a seus lbios, no intento de tornar ainda mais ntima e reservada essa confidncia, 
que se no roseava-lhe a face nvea imaculada, alvoroava-lhe os espritos, a arder nos olhos e a arfar no seio.
- Pois sim! disse a velha dando-lhe um beijo. Arranja tudo.
Guida chamou um pajem:
- V  casa do Sr. Bencio, sabe?
-  o procurador de sinh velha?
- Esse mesmo. Dize-lhe que venha falar com a avozinha amanh  noite sem falta.
- Sim, nhanh Guida.
- Ento vens amanh? Perguntou a velha contente.
- Por fora!

XXVI

Meio dia.
Abrasa o sol a rech onde se desdobra o bairro do Andara, precintado por um cordo de montanhas que lhe interceptam a passagem das brisas do largo.
 um desses dias de vero, que chofram de repente no meio de frias temporadas como vedetas ou postos avanados do estio a explorar as nvoas do inverno, e fazer 
experincias no barmetro dos calos e reumatismos dos velhos fluminenes.
Um tlburi pra no porto da chcara de D. Leonarda; e dele apeia-se um mancebo trajado com a severa elegncia, que revela o esprito superior, irisado pelo prisma 
brilhante da imaginao, mas contido pelo recato da dignidade.
No fim do curto passeio de murtas apareceu um negrinho que dobrava o outo de casa; logo aps outro pirralho, e outro, at que formou-se uma pinha dos tais diabretes.
O mancebo caminhou a eles para confiar a um o seu carto de visita; mas no tinha dado trs passos, que a alcatia alvoriou, dispersando-se pelo terreiro afora 
e escondendo-se por trs da casa.
Abrira-se porm a porta de entrada, e apareceu no patamar uma mucama:
- O senhor  S. doutor Ricardo?
- Ricardo Nunes, confirmou o advogado.
- Pode entrar.
Acha-se o mancebo na sala de visitas, extensa pea, embora um tanto estreita, com cinco janelas rasgadas sobre o jardim, cujas ramadas lhe cobriam as portadas de 
verdes sanefas, por onde envolta com a fragrncia do jasmim coava-se a luz, peneirada no crivo das folhas e roseada pelo reflexo dos lilases.
Esta sombra luminosa, como a chamara Mlton, derramava no aposento uma tinta de serena e doce quietude, que repassava a alma de um indefinvel enlevo, especialmente 
ao surdir-se das torrentes de um sol tropical. Sentou-se o mancebo  espera, com alguma curiosidade de conhecer ao justo o fim de sua vinda ali.
Dois dias antes lhe aparecera no escritrio o obsequioso Sr. Bencio; depois dos usuais oferecimentos, sacara do bolso as trs clssicas e enormes carteiras, colocara-as 
diante de si em cima da mesa, esvaziara dois dos profundssimos bolsos, tornara a atopet-los baldeando a carga da direita para a esquerda, e afinal depois de toda 
essa pesquisa como no a faria melhor a polcia aduaneira, desenterrou das cavernas de uma algibeira uma nota de que deu leitura ao advogado:
- Dr. Ricardo de Melo Nunes, advogado. Escritrio, rua do Rosrio, 27.  isto?
- Deve ser! respondeu Ricardo a rir, seno o senhor c no chegaria.
- Eu c trago estas coisas em ordem, tornou o amanuense; e acabou de ler a nota.  Negcio de D. Leonarda.
Depois dessa formalidade explicou Bencio ao mancebo que a sogra do Soares o incumbira de pedir-lhe o favor de achar-se em sua casa tera-feira ao meio-dia em ponto, 
para na qualidade de advogado aconselh-la em negcio importante e at mesmo arranjar certos papis necessrios.
Assegurou Ricardo que as ordens de D. Leonarda seriam cumpridas; e ali estava exato no dia e hora que lhe fora designado. Viera o mancebo com certa emoo incompreensvel, 
que ainda naquele momento no pudera dominar ao todo, e menos assinar-lhe a causa.
Atribua  curiosidade. Que lhe queria a senhora? Teria ele de penetrar nos segredos de sua vida? Pretendia a velha incumbi-lo de redigir seu testamento? Ia ele 
tornar-se o confidente de alguma dessas dissenses intestinas que s vezes lavram no seio das famlias?
Abriu-se a porta; e Guida apareceu em companhia de Mrs. Trowshy.
A moa trajava nesse dia com extrema simplicidade. Estava toda de branco, e a alvura de suas vestes de cambraia sob a nvea ctis dava-lhe a serena transparncia 
da luz mate. Sua bela esttua parecia flutuar nesse ter difano onde brilhavam com vivo fulgor os olhos negros e as tranas opulentas de seus cabelos. O lbio talvez 
plido em outro semblante menos puro, no seu era folha de rosa nadando em leite; e por ele perpassava um sorriso merencrio como deve ser a ptala aveludada da flor 
quando se despede da luz, de que embebia-se.
Ao v-la entrar na sala como uma doce viso de manh de abril, Ricardo, imaginao de artista, com o culto da forma e o entusiasmo do belo, no pde conter os raptos 
de seu esprito; e esteve por alguns momentos no enlevo da admirao.
- Est cansado de esperar? disse Guida saudando o advogado.
Feitos os cumprimentos, Mrs. Trowshy foi sentar-se na outra parte da sala, no vo duma janela, com um volume de Dickens. Os dois moos ficaram onde estavam, Guida 
no sof, e Ricardo na cadeira do lado.
- Minha av est arranjando sua papelada. Talvez se demore, e por isso incumbiu-me de uma coisa bem difcil; distrair-lhe a impacincia.
- A senhora dispensa o cumprimento? perguntou Ricardo gracejando.
- Decerto; cumprimentos a esta hora entre o advogado e seu cliente... Porque eu estou aqui representando minha av. No  verdade?
- Assim o entendo; e eu no seria advogado se no houvera aprendido a fundo a pacincia; alm de que, no tenho pressa. Consagrei o dia de hoje  Sr. D. Leonarda.
- Ento no lhe incomoda esperar?
- De modo algum; antes me d o prazer...
- Ai! ai!... que l se vai o advogado.
-  verdade!
- Estimo bem que no estivesse aflito por ir-se, porque minha av  muito vagarosa, coitada, to doente; e eu no sabia como fazer-lhe passar desapercebido esse 
tempo. O piano... Se ainda tivesse cordas, podia tocar-lhe o Capenga no forma. Mrs. Trowshy quando se agarra com seu romance, ningum conte com ela. Ento Dickens!
-  o seu autor favorito?
Acenou a moa que sim.
No estava Guida, essa manh, no seu natural, que era uma doce jovialidade, salpicada s vezes de ironia, e outras de meiga afabilidade. Em seu vulto perpassava, 
como na face cristalina de um lago, as mutaes do pensamento.
Ao entrar tinha ela a atitude sria e concentrada, porm ao mesmo tempo decidida e serena, de quem atravessa um momento difcil da vida, mas arrima-se, para transp-lo, 
a uma resoluo inabalvel.
A conversa tirou-a dessa reserva, sem contudo dissipar-lhe de todo na fronte a sombra da preocupao. Buscou reassumir o seu gentil e grgulo sorriso, mas a harmonia 
e a graa dessa mimosa expresso ressentia-se de uma ligeira crispao. As fibras nervinas desse delicado organismo, alguma forte comoo as tinha percutido.
Agora, em meio de um gracejo, deixava-se colher por sbita distrao, como se o pensamento, transformado em uma borboleta, lhe fugisse pela janela a farfalhar entre 
as flores do jardim; mas, a ser assim, depressa achara a idia que buscava, pois tornou logo  conversa.
- Dickens?...  o autor de sua paixo, disse afinal confirmando o aceno, e com uma ligeira confuso.
Delicadamente Ricardo fingia observar Mrs. Trowshy, para no se mostrar apercebido do enleio da moa.
- Gosta dos romances ingleses? perguntou Guida.
- Poucos tenho lido. A literatura francesa nos invadiu; e por algum tempo foi nosso nico fornecedor de idias. Das outras apenas conhecamos as obras-primas, os 
grandes poetas. Ultimamente j entramos em comrcio com outras literaturas; mas a mim falta-me o tempo e o gosto.
- Alguns acham os romances ingleses muito inspidos.
-  natural. Somos uma raa to diversa! Eles ho de achar os nossos extravagantes.
- Oh! quanto  extravagncia, quero contar-lhe o desfecho de um que li h tempos; creio que  de... No me lembro! disse Guida com certo assomo nervoso.
Fitou a moa os olhos nas grinaldas que pendiam da janela, acompanhando o volutear de um colibri que chupava o mel das flores. Deste modo no se podia cruzar o seu 
olhar com o do advogado.
- O ttulo... no me lembro. Era uma moa, filha de um banqueiro muito rico. Quanto  descrio, imagine o senhor, que sabe desenhar: o romancista a d como bonitinha; 
no era nenhum primor; bem longe disso.
- A est-se revelando a escola inglesa, observou Ricardo.
Riu-se Guida maliciosamente da observao do moo, e continuou:
- O pai tinha declarado  filha quando ela tornou-se moa, que a no constrangeria, mas ao contrrio lhe deixava plena liberdade para escolher um marido; contanto 
que chegando aos dezoito anos se casasse. Tambm  ingls, no lhe parece?
- Genuno.
- Vai ver o resto. Chegou a moa aos dezoito anos; e completou os dezenove. O pai exige o cumprimento da promessa.
- E ela casa-se! exclamou Ricardo com vivacidade, levado por estranho impulso.
Retraiu-se porm o moo e desfolhou dos lbios um irnico sorriso. Guida, que deixara suspensa um instante a exclamao do moo, continuou galanteando:
- O senhor quer precipitar o desenlace. No seja to sfrego. Oua; temos muito tempo. Avozinha no vem to cedo.
Guida parecia recobrar sua habitual iseno a garridice:
- O pai exigiu o casamento; mas a moa no tinha escolhido.
-Ah!
- E no s no tinha, como no podia escolher. A ningum amava; no conhecia um homem por quem sentisse as doces emoes, os estremecimentos, que fazem a felicidade 
conjugal. Donde provinha isto, no sabia explicar o romancista, e menos eu. No teria corao essa moa, ou se lhe havia cegado? Era isso feito da educao, ou da 
sociedade em que vivia, cercada de galanteios ridculos, de clculos vis, e de grosseiras afeies? Pode ser que sucedesse  alma da moa o mesmo que a um boto 
de cacto, quando h tempestade: choca e no abre em flor. Pode ser!
- Mais tarde. Quem sabe! disse Ricardo sorrindo.
-  a minha...
Atalhou-se Guida em cujas faces espontava um vislumbre de prpura. Ricardo olhava-a com emoo.
-  minha esperana, repetiu Guida pausadamente. Assim disse a moa, uma vez que lhe acudiu esse mesmo pensamento. Mas os dezoito anos eram passados; fugia o tempo, 
e seu pai que a amava extremosamente, afligia-se com a idia de a deixar s no mundo  merc da especulao. Reconheceu a moa que era foroso o sacrifcio; e no 
hesitou em jogar seu destino ao azar, para sossego de quem morria-se por ela. Escolheu.
Ricardo recolheu-se todo em si como se tivesse de assistir a uma importante revelao.
- No careceu escolher, continuou Guida. Conhecia o moo, que fora algumas vezes  sua casa; tinha plena confiana em seu carter e na sua educao. Era um homem 
probo e delicado. Podia confiar-lhe o seu destino. A primeira vez que o encontrou, confessou-lhe tudo; disse-lhe que, se no lhe tinha afeio, ou nunca a teria 
por ningum, ou s ele a podia inspirar.
Guida que falava sfrega, moderou-se.
- Se pois no lhe repugna aceitar a mo de uma mulher nestas condies, e pensa que ela vale a pena de arriscar a sua independncia, o senhor me salva da maior 
humilhao. Eis o que ela disse, concluiu Guida.
Os olhares dos dois moos se encontraram e fugiram-se.
- No considera extravagante este procedimento? disse Guida rindo, para disfarar a emoo.
- Est fora do comum;  novo, excepcional, como as circunstncias que o determinaram; mas no h nele que repreender. Admiro a energia e esprito dessa moa, que 
em to difcil conjuntura de sua vida, no sucumbiu  debilidade de seu sexo e teve coragem para decidir ela mesma e deliberadamente de sua sorte. Surpreende-me 
esta iniciativa, que atribuo  educao; e ainda assim parece difcil de v-la produzir-se na vida real.
- Pois h de ver, disse Guida meia voz.
- Como?
- Mas o senhor que aprova o procedimento da moa, no caso de ser a pessoa por ela escolhida, o que responderia?
- Eu no podia ser essa pessoa, disse gravemente Ricardo.
- Por qu? perguntou Guida com af.
- O homem a quem essa moa se dirigiu estava livre; podia dispor de seu corao e de sua vida!
- Ah!
Descaiu-lhe,  Guida, a fronte abatida, Ricardo olhou-a um instante com uma ternura melanclica. Depois, reclinando para no arranc-la  sua posio, fez-lhe a 
confidncia de sua vida em breves palavras:
-  uma afeio de infncia. Brincamos juntos, e aprendemos a amar-nos. Esperava formar-me, mas tendo falecido meu pai, fiquei nico arrimo de uma famlia pobre 
e endividada. Meu tio, o pai de Bela, adiou o nosso casamento, apelando para minha honra. Que futuro reservava eu para sua filha, pobre tambm? Parti para a corte; 
vim pedir ao trabalho os recursos indispensveis para desempenhar a velha casa onde mora minha me, e que  nosso nico patrimnio.
- E  preciso muito dinheiro? perguntou Guida com interesse. Quanto?
- Acanho-me de falar-lhe dessas particularidades.
- No adquiri esse direito fazendo-lhe minha confidncia? tornou a moa com meiga exprobrao.
- Tem razo.
E Ricardo completou a breve histria de sua vida; e contou-lhe, como o faria  sua me, as nsias dos seis longos meses passados no Rio de Janeiro, os desnimos 
que tantas vezes dele se apoderavam; at lhe escaparam as mgoas causadas pela volubilidade de Fbio, e os receios epla ventura de Lusa, sacrificada com tamanha 
ingratido.
- Avozinha est-se demorando. Com licena, vou saber a causa, disse Guida.
Ficando s na sala, pois Mrs. Trowshy continuava ausente, na Inglaterra onde se passa a ao do romance que lia, buscou Ricardo compenetrar-se da realidade dos fatos 
em que tomara parte, e no pde. Seu esprito, ainda atnito pela estranheza do episdio em que se envolvera imprevistamente sua existncia, no recobrara a reflexo; 
tudo quanto podia no meio da surpresa, era recordar-se.
A espera foi breve. D. Leonarda veio finalmente  sala, acompanhada por Guida.
- Aqui tem os papis, senhor doutor, disse a velha depois dos cumprimentos usuais, e volvendo a mido os olhos para Guida. Quero que examine bem para ver quem tem 
direito, porque no desejo questes, sobretudo com vizinhos.
-  ento uma questo de limites? Perguntou o advogado.
- No sei...  isso mesmo, respondeu a velha corrigindo-se ao aceno da menina.
- O senhor me permite? Eu lhe explico. O vizinho da esquerda pretende apoderar-se de um pedao de terreno, que foi sempre de minha av. O senhor doutor leva os papis, 
para examin-los; depois dar sua opinio. No  melhor, avozinha?
- Eu acho que ! disse a velha batendo com a cabea.
Na ocasio de se despedirem disse Guida ao advogado, em cujo semblante no se apagara a tinta de melancolia que derramara a cena anterior:
- No se aflija. O romance que eu lhe contei, acaba alegre.
E para confirmar o dito, o seu lindo semblante banhou-se em um riso feiticeiro.

XXVII

Logo depois que Ricardo saiu, mandou Guida prepara o carro para voltar  sua casa.
- Ento est decidido? perguntou a velha ao ouvido da menina.
- Ainda no, avozinha. Ficou para outro dia.
- Ora! fez a velha com um gesto displicente.
No carro Mrs. Trowshy, que tambm era curiosa, indagou nestes termos do xito da conferncia a que assistira de parte.
- Que disse o advogado? Ganha o processo?
- Est perdido, respondeu Guida a rir.
- No  possvel.
- Completamente.
- Oh! que pena!
Chegando a Botafogo, s trs e meia, esperou Guida na saleta que seu pai voltasse do escritrio, para receber o beijo que lhe costumava dar na face, em retribuio 
das festas e carinhos com que era acolhido.
- Que milagre; est-me nascendo uma rosa entre meus jasmins! Exclamou o Soares reparando no vislumbre de prpura que roseava a face da moa.
- H de ser do calor; cheguei do Andara.
- Ah! e como vai a avozinha?
- Na mesma.
Subiu o Soares ao sobrado brincando com a filha, que ria-se das pilhrias do pai, e tornava-lhe os folguedos e as meiguices com o mesmo contentamento.
No topo da escada separaram-se.
Foi ao entrar no seu toucador, que o esto dalma rompeu, como a onda por muito tempo comprimida. A moa levou as  mos ao seio que arfava a estalar na nsia, e caiu 
sobre o leito, escondendo o rosto nas fronhas de cambraia, comprimindo nas almofadas os quebros soluos.
No seu desespero, espedaou o vestido que a estringia como uma forma de bronze, e arremessou para longe de si os trapos da seda. Sobre as espduas nuas desdobraram-se 
as cascatas dos opulentos cabelos negros, com que ela envolveu o colo e os seios, conchegando-se com um gesto pudico.
Afinal saltaram-lhe as lgrimas ardentes dos olhos, que logo debulharam-se em pranto abundante. Foi serenando a violenta comoo, que subvertera os seios dessa alma; 
e Guida ergueu-se a custo, abatida pelo abalo que sofrera, mas surpresa e atnita da crise que de repente a acometera.
Apoiando sobre a almofada a curva do brao mimoso, reclinou a face na mo, e ficou pensativa:
- Ser isso o amor? perguntou a si mesma.
E entrando de novo em si, penetrando nos refolhos dalma, sentindo vibrarem novas cordas no seu corao, e derramar-se no ntimo uma luz que nunca at aquele dia 
resplandecera em seus sonhos de menina e moa, Guida compreendeu que era realmente amor, essa agitao indefinvel que perturbara sua vida serena e tranqila.
A alegria inefvel, o jbilo que teve, no os podem conceber aqueles que nunca duvidaram de si, nem jamais em horas de desnimo se tiveram por deserdados do corao. 
Parecia  moa que outra vida, no essa de flor ou de passarinho que vivera, mas a da poesia e da paixo, a vida da mulher, acabava de surgir para ela naquele instante.
Estas lgrimas aljofradas, que seus dedos mimosos estalavam nas faces, eram os orvalhos de uma aurora. Raiasse ela embora entre os abalos de uma tormenta, era bem-vinda; 
era a luz criadora, o raio celeste, que afinal luzia em sua alma.
O esprito de Guida no se demorou na idia da impossibilidade de seu amor. Que valia isso na histria de sua existncia, seno um pequeno acidente material? O grande 
acontecimento era o despertar de seu corao virgem e indiferente, era a revoluo que se acabava de consumar em seu organismo, selando enfim a infncia.
A magia das novas e deliciosas sensaes que iam acordando em seu ser, o infindo prazer de se lhe povoarem de flores, de magnificncias, de harmonias e perfumes, 
o ermo ingrato e sfaro que poucos momentos antes assolava sua alma, a possuam tanto e to intimamente, que no bastavam as foras de sua natureza para essa ventura 
suprema de sentir-se outra e saciar-se dessa nova existncia, ainda no vivida.
Eram horas do jantar.
Vestiu-se a moa rapidamente, com a costumada simplicidade, mas sem o esmero costumado, para o qual no havia tempo. Entretanto nunca o seu bom gosto combinou melhor 
o traje, nem este realou-lhe tanto a beleza nativa, como naquela tarde.
Mas o encanto desse vesturio no estava no delicado padro do simples vestido de organdi, e na forma elegante e original do penteado. O que a ornava era sobretudo 
o brilho suave dos olhos, a meiga aurola da fronte, o sorriso delicioso dos lbios, e a graa inefvel do gesto.
Essa beleza at agora mimosa, gentil e garrida, tinha trocado o seu lirismo pela brilhante epopia do corao. J no  o colibri borboleteando entre as flores, 
ou o raio de luz irisando-se na gota de orvalho. Agora  a mulher;  o anjo, que agita as asas de fogo, com os olhos no cu e a voragem a seus ps.
- Como ests bonita! exclamou Soares vendo a filha.
- Ela sempre foi! disse D. Paulina.
- Sempre; mas hoje!...
- Foi o passeio! disse Guida com um sorriso, que era um enlevo de graa.
- O passeio... repetiu o banqueiro. No duvido.
E fitou o olhar vivo e perscrutador da filha, cujo enleio velou-a com uma encantadora expresso de melindre que lhe dava um encanto irresistvel.
Depois do jantar desceu Guida ao jardim, e percorrendo lentamente as alamedas, seus olhos acariciavam as flores, que dantes a deleitavam apenas como as fitas e outros 
enfeites.
Lembrou-se da flor rstica da Tijuca, a que Ricardo dera o nome de Sonhos douro. Havia o jardineiro trazido mudas, que arranjara em um alegrete, ao lado da casa. 
No tivera a moa ainda a curiosidade de ver a planta, depois da sua volta a Botafogo.
Nessa tarde, porm, apertaram-lhe as saudades. No tinha flores o arbusto, que s em novembro cobre-se de botes; alisou-lhe a moa com a mo as folhas glabras, 
afagou-as com o olhar; e tamanha era a efuso de ternura, que teve mpetos de beij-las, e arrancando uma, colou-a aos lbios ardentes.
Pungiu-lhe o corao uma dor viva e intensa, como o cravar de uma lmina. Recordou-se da primeira vez que vira Ricardo; e compreendeu ento o arroubo e veemncia 
de sua alma na contemplao da florinha agreste.
- Ele amava!... balbuciou Guida. Lembrava-se de Bela!...
E invejou a felicidade de sua rival, sem contudo querer-lhe mal. Ao contrrio, sentia curiosidade de conhec-la; e acreditava que havia de Ter-lhe amizade.
Durante alguns dias viveu Guida no embevecimento de sua paixo. Sentava-se ao piano, e escolhia as msicas ternas e sentimentais, que tocava com muita alma e expresso. 
As notas, que tantas vezes tinham ressoado a seus ouvidos apenas como agradvel harmonia, feriam-lhe agora as cordas mais ntimas, e percutiam todo seu organismo, 
como uma vibrao eltrica.
Outras vezes esquecia-se a cismar, com os olhos engolfados no azul do cu, onde rutilavam as primeiras estrelas; ou enlevada a contemplar uma flor, cujos perfumes 
derramavam-se dentro dalma com uma fragrncia celeste e cujo matiz aveludado afagava-lhe a vista, como um beijo da luz.
No raro se tingiam esses devaneios de uma sombra de melancolia, quando o esprito da moa voltava-se para o futuro e o via to esplndido submergir-se em um abismo 
inexorvel, o impossvel.
Mas amava, sentia-se viver no seu amor; e o pensamento, recolhendo-se a esse limbo suave de sua nova existncia, esquecia o mundo, o tempo, a sorte, para embeber-se 
de felicidade e exaurir-se nesse gozo supremo da paixo.
Foi Soares que a arrancou a esse longo xtase.
Uma tarde que ela cismava no jardim, o pai viu-a da janela, e foi-lhe ao encontro com ar brinco:
- Ai, minha sonsinha!... Temos novidade, hem! E no me queres dizer?
- O qu, papai? perguntou Guida arrancada  sua cogitao.
- Como disfara! Pediste um ms para escolher; mas creio que estes olhinhos andaram mais depressa. Nessa idade eles pulam... Desconfiei logo; quando te vi pelos 
cantos, toda sorumbtica, percebi. O bichinho est fazendo artes l no coraozinho da minha Guida. No  verdade?
Estas palavras brincadas, e envoltas na ternura risonha do pai, retalharam a alma da moa. No meio do enlevo de seu amor, quando no vivia seno desse afeto, por 
ele e para ele, vinha surpreend-la a realidade e reclamar sua existncia, para vot-la ao mais atroz dos sacrifcios, que pode sofrer a mulher: para at-la como 
a um poste de infmia, ao homem a quem ela despreza.
- Adivinhei, confessa. Tu j escolheste.
- J, papai, disse com veemncia; infelizmente j; mas aquele a quem amo, no me pode amar.
- Ora! fez o Soares com o sorriso de um homem que sabe quanto pode.
Guida abanou a cabea:
- No,  impossvel! Todo o dinheiro do mundo no bastaria para comprar-me a felicidade.
- Quem  ele? perguntou Soares, sentindo apoderar-se de si o desnimo da filha.
Contou Guida ao pai a simples histria de seu amor, boto que desabrochara recentemente em flor, ainda impregnado de vivos perfumes.
- Estava resolvida a casar-me j para seu sossego e tranqilidade, papai; a saudade, que eu teria de minha vida de solteira, me havia de pagar com usura e felicidade 
de o ver contente.
- Guida! exclamou o velho enternecendo-se.
- Mas com esta afeio, no posso, papai; o sacrifcio excede minhas foras. Parece-me que me insultaria a mim mesma, casando-me com outro homem. Seria uma degradao...
- No falemos mais disso, minha filha!
- Deixe-me esquecer, deixe-me sufocar esse corao que eu julgava morto, e que reanimou-se por meu mal. Daqui a um ano ter passado.
- Tudo o que tu quiseres, respondeu Soares, contanto que no fiques triste. Brinca, diverte-te bem. Inventa novas travessuras. Ainda que me custem muito dinheiro, 
muito... Para que prestar ele, se no for para te distrair?
- H uma coisa que, eu sinto, me havia de fazer muito bem, disse Guida timidamente.
- O que ?
- Ele  pobre... Sua felicidade depende de vinte contos... Eu daria meus alfinetes...
- Criana. No estou eu aqui? A dificuldade, desconfio que ser obter dele que aceite...
-  verdade.
Nesse momento parou um carro ao porto; e com pouco apareceram D. Guilhermina e o marido.
- Havemos de achar um meio; pensa tu de teu lado, que eu no me descuidarei.
O banqueiro foi ao encontro do conselheiro e subiu com ele  varanda, enquanto D. Guilhermina passeava no jardim com Guida.

XXVIII

Depois de algumas voltas pelo jardim, as duas amigas sentaram-se em um banco de grama, prximo ao gradil da rua, onde enramava-se uma trepadeira de flores escarlates.
Houve na conversa breve pausa. D. Guilhermina espreitava disfaradamente pelos claros do gradil; e Guida com o sobrolho levemente rugado parecia refletir observando 
distrada o gesto da amiga.
- Sabe, D. Guilhermina, esse moo... o Dr. Nunes..., disse Guida com indiferena.
- O amigo do Fbio?
- Est justo para se casar com uma prima em So Paulo.
- E anda por aqui divertindo-se?
- Que injustia! Veio na esperana de ganhar alguma coisa para pagar as dvidas da me, e casar-se ento; porque a noiva  to pobre como ele.
- Coitadinha!
- E no  muito dinheiro de que precisam. Vinte contos apenas!
- No  qualquer bagatela, Guida!
- Ora! Voc no gasta mais do que isso por ano?
- Sim; mas em minha posio!...
- Pois esse dinheiro que ns deitamos fora em vestidos, jias e luxo durante um ou dois anos, bastava para fazer a felicidade de tanta gente e por toda a vida.
- Que gente?
- O Ricardo tem uma irm, D. Luisinha que tambm est para casar com o amigo...
Guida sentindo a inquisio suspeitosa do olhar de D. Guilhermina, disfarou a colher uma flor e concluiu:
- Com o Fbio!
- Ah!... Quem lhe disse? exclamou a mulher do Barros mordendo os beios.
- O Dr. Nunes!
- No sabia que estava to ntimo com voc, Guida!
- Eu o estimo pelas suas qualidades e sisudez.
Erguera-se D. Guilhermina, e a pretexto de olhar para a rua, afastou-se um momento para dominar a comoo produzida pelas palavras da amiga, e que no primeiro instante 
contida, a estava sufocando.
De seu lado favorecendo-lhe os desejos, Guida aproximara-se da casa, fingindo que a chamavam; mas realmente para deixar a outra em liberdade.
Quando de novo se encontraram, os olhos de D. Guilhermina estavam magoados, e as faces conservavam a marugem das lgrimas. Guida que se teria rido um ms antes, 
compreendeu aquela dor e respeitou-lhe a mudez, mostrando-se inteiramente alheia.
- Eu, se pudesse, disse Guida reatando a conversa, teria um prazer imenso fazendo-os felizes e realizando de repente os seus lindos sonhos!... Deve a gente sentir-se 
no cu, quando faz-se instrumento da graa e misericrdia de Deus!...
O profundo sentimento que ressumbrava nestas palavras de Guida, o fervor de seu gesto e o esplendor que iluminou seu lindo perfil, surpreenderam D. Guilhermina que 
fitou admirada o rosto da amiga; a cintilao dessa luz que manava o corao, filtrou-lhe nalma; ela compreendera.
- Tambm eu! murmurou corando.
- Pois ajude-me!
- Como?
-  preciso conhecer as particularidades da famlia... O Dr. Nunes, se eu lhe perguntar, desconfiar e com certeza h de recusar, mas o Fbio...
- Ele nunca me falou na famlia do Ricardo.
- Porque no lhe tocou nisso.
- Hei de perguntar-lhe!
- Talvez ele aparea aqui esta tarde.
- No deve tardar... Isto , creio que ele vem, corrigiu a tempo a moa com vexame.
Mas Guida no fez reparo; e afastou-se na direo do gradil, olhando para a rua atravs dos recortes da folhagem. Momentos depois voltou pressurosa ao lugar onde 
ficara D. Guilhermina triste e pensativa:
- A est ele.
Efetivamente chegava Fbio ao porto; e avistando as senhoras ao atravessar o jardim, foi-lhes ao encontro.
Depois dos cumprimentos e banalidades usuais, Guida trocando com a amiga um olhar de inteligncia, procurou um disfarce para deix-la s com o Fbio.
- O senhor nunca me disse que seu amigo Fbio tinha uma irm? foram as primeiras palavras que D. Guilhermina dirigiu ao moo, interrogando-lhe a fisionomia com o 
olhar.
Ficou passado o Fbio. Apesar de sua leviandade, evitava com o maior cuidado tocar no que tinha relao com sua vida de So Paulo, pelo receio de divulgar o seu 
ajuste de casamento com Luisinha.
Imagine-se pois do atordoado que estaria, vendo a pessoa de quem mais desejava esconder essas particularidades, to ao corrente, e sentindo assim evaporar-se de 
repente o seu castelo encantado.
- No sabia que a senhora tomava tanto interesse por meu amigo! respondeu o moo buscando uma evasiva nessa ponta de cime.
- Mais do que o senhor pensa; e tanto que desejo pedir-lhe certas informaes a respeito dele.
- A mim!
- Sem dvida. No  o senhor amigo ntimo do Dr. Nunes?
- Por isso mesmo, deve compreender quanto as suas palavras me fazem sofrer.
- No vejo motivo. Conheo uma pessoa, que, sendo infeliz no seu casamento, consola-se quando pode fazer a felicidade dos que se amam.
Vinham estas palavras envoltas em um suspiro e perfumadas de suave melancolia.
- E recusa fazer a minha, quando sabe a paixo com que a adoro!
- Essa pessoa soube, no sei como, que o Ricardo tinha um casamento ajustado em So Paulo com uma moa a quem ama; mas sua felicidade depende de uma soma necessria 
para o pagamento de certas dvidas...
- Sua felicidade dependia de um escrpulo. Hoje nem isso!...
- Deixe-me acabar. O que eu desejo que o senhor me diga, pois est no segredo da famlia,  o modo de pagar essas dvidas, sem que seu amigo saiba, nem desconfie, 
seno depois de tudo acabado. Assim no haver mais impedimento  felicidade dele...
A voz da bela senhora afogou-se na reticncia de uma lgrima.
- E  sua! disse afinal com emoo. O senhor poder casar-se com aquela a quem ama, Lusa, no  o nome?
O primeiro assomo de Fbio foi a negativa; mas  sua alma, nobre no meio da volubilidade e extravagncia da mocidade folgaz, repugnou essa apostasia de sua primeira 
afeio.
- Eu amo Luisinha, confesso; mas tambm a amo, D. Guilhermina, e com paixo!
- Essa paixo  impossvel.
- Porque a senhora a despreza.
- Eu devo-lhe as nicas alegrias de minha vida, condenada a um triste desencanto. Deixe-me guardar estas recordaes doces e puras dos dias passados; no devemos 
envenen-las com um crime que faria a infelicidade de duas pessoas e a nossa.
Fbio travara da mo da senhora e a beijava. D. Guilhermina retirando-a enternecida, chamou a amiga para romper o a ss que a estava comovendo:
- Guida!...
- Cruel!...
- Ainda no satisfez o meu pedido sobre a dvida de seu amigo.
- Oh! isso  fcil. O pai de Ricardo deixou a chcara hipotecada na casa bancria de Gavio Peixoto pela quantia de dez ou doze contos de ris; mas com os juros 
j monta a dvida a vinte. Desembaraada a casa, podia D. Benvinda viver com a famlia modestamente sem pesar sobre o filho.
- O senhor me h de dar por escrito uma lembrana de tudo isto, com os nomes...
- Para qu? tornou o moo com escrpulo.
- J lhe disse.
- Para apressar o casamento de Ricardo com Bela?... Mas  intil.
- Deveras? perguntou D. Guilhermina lanando um olhar para Guida que se aproximava.
- Foi uma surpresa! Ontem, quando menos esperava, recebeu Ricardo uma carta de So Paulo. Abriu; era de Bela, que lhe participava seu casamento com o Lemos, outro 
primo.
Ouviu Guida essa notcia, ao aproximar-se; e vacilou com a emoo que abalou o seu talhe esbelto. Felizmente passava naquele momento por uma esttua de bronze representando 
Flora, cujo pedestal lhe serviu de apoio e tambm de refgio para esconder a alterao do gesto, pois Fbio colocado do lado oposto no podia perceber-lhe o vulto.
Notando o soobro da amiga, a arfagem violenta do seio, que se expandira com o mpeto dalma, e a contrao do rosto ao esforo da vontade a reprimir o grito que 
rompia do seio, D. Guilhermina voltou-se para o outro lado, o que obrigava o moo a imit-la, desviando assim os olhos da esttua.
- O que dizia a carta? perguntou a mulher do Barros.
- No devia Ter dado a notcia, disse Fbio arrependido; mas como sempre se havia de saber...
- Decerto. Que mal faz?
- Quanto  carta, no posso. Ricardo no me perdoaria.
- Essa  a confiana que lhe mereo? disse D. Guilhermina queixosa.
- Se fosse meu, no hesitaria. Mas este segredo no me pertence.
- E pertencia-me a mim a afeio que lhe dei?
- Direi, com uma condio.
- Por negcio, dispenso.
E a moa deu ao talhe uma lnguida inflexo que era o irresistvel condo de sua beleza.
- Pois bem,  senhora eu conto, disse o moo correndo o olhar em torno.
Guida, j sobre si, tivera o cuidado de colher a cauda do vestido e ocultar-se por trs do pedestal de bronze, de modo que Fbio no se apercebeu de sua presena.
- Pode falar, disse D. Guilhermina. Ningum nos ouve.
- A carta era muito curta. Bela dizia a Ricardo que, no podendo fazer sua felicidade, cedia aos desejos do pai aceitando o esposo que tinha escolhido.
- E o Ricardo, como recebeu a notcia?
- Tem sentido muito. Ele amava sinceramente a prima; era uma afeio de infncia.
- Mas h de consolar-se.
- Que remdio!
- Os homens esquecem depressa!
- As injustias que lhes fazem aquelas a quem adoram.
- H de ver que daqui a um ms o Ricardo amar outra.
- Duvido, disse Fbio. Eu o conheo;  dessas almas concentradas, onde tudo, afeio, idia, lembrana, cria raiz funda.  preciso tempo!
- Veremos!
Deixara D. Guilhermina cair essa palavra do lado da esttua, afastando-se para deixar a Guida retirar-se sem que a percebesse Fbio. Aproveitou a moa o momento, 
e deu uma volta para encontrar-se mais longe com os dois.
Ao tomar pela alameda que prolonga-se com o gradil, viu uma pessoa que entrava o porto e que dirigindo-se  escada de mrmore, parou de repente em meio caminho.
Reconheceu Ricardo, e notou sua perturbao; no gesto e olhar traa-se a perplexidade do esprito. Aps breve luta, voltou ele sobre os passos; e saindo novamente 
o porto, afastou-se apressado para o lado de So Clemente.
Teve Guida mpetos de cham-lo; mas faltou-lhe o nimo. J no possua a sua antiga iseno.
Chegaram D. Guilhermina com Fbio:
- Sabe quem passou por aqui? disse Guida com uma voz que apesar do esforo tremia: seu amigo.
- Ricardo?
Acenou Guida que sim, fitando um olhar fagueiro em D. Guilhermina.
- Por que no vai cham-lo? disse a mulher do conselheiro a Fbio. Se ele soubesse que o senhor estava aqui, com certeza entrava.
- Maado como anda?
-  bom que se distraia, disse a senhora, e voltou-se para Guida:
- O Dr. Nunes teve um desgosto.
- Ah!
- Mas no quer que se saiba, acudiu Fbio.
- Esteja descansado, que ningum vai tocar-lhe nisso. No se demore.
- De que lado tomou?
- Seguiu para So Clemente, respondeu Guida.
Fbio saiu naquela direo. A pequena distncia encontrou o amigo, que naturalmente j vinha de volta, pois no tardou que as duas moas, atravs da folhagem, os 
avistassem a ambos, passando em frente ao gradil.
Em um irresistvel assomo de jbilo, Guida abraou a D. Guilhermina, que retribuiu-lhe afetuosamente a carcia, murmurando:
- Voc pode ser feliz!
Sentiu Guida o egosmo de sua alegria, e apagou com um beijo o sorriso triste que abrira nos lbios da amiga.

XXIX

Na linda vrzea do Brs, onde se desdobra um dos mais pitorescos arrabaldes da capital de So Paulo, h uma chcara extensa, cujos terrenos bordam a margem esquerda 
da estrada de ferro.
A casa  grande, abarracada, ao gosto paulista, e bem antiga. Cercam-na vastas hortas e largos tabuleiros de flores.
No mesmo dia em que Ricardo recusava a mo de Guida, por volta de seis horas da tarde estavam reunidas vrias pessoas na varanda daquela casa, em volta da mesa de 
jantar, onde acabavam de colocar dois castiais com velas de estearina.
A senhora idosa, de agradvel parecer e porte refeito, que sentava-se  cabeceira da mesa, era a me de Ricardo, D. Benvinda. Com as mos cruzadas ao peito, no trepasse 
do leno vermelho que trazia aos ombros, escutava com religiosa ateno a leitura de uma carta.
A seu lado estava uma linda moa, tipo dessa beleza plstica e serena, que distingue as paulistas, e  qual s falta um nada da petulncia que tm as fluminenses 
s vezes em demasia. Era bela, essa moa; e ao v-la no repouso de sua formosura correta e imaculada, compreendia-se o culto de Ricardo que tinha em alto grau o 
sentimento artstico.
A Bela seguia-se Luisinha, e depois os irmos e irms. Era a fisionomia de Ricardo, reproduzida sete vezes, em traos mais indecisos; neste perfil, com a suavidade 
do contorno feminino; naquele, com a alacridade da travessura infantil.
E dias de chegada de paquete, como esse, Bela que morava perto da matriz, vinha passar a tarde com a tia, para receber notcias da corte, e ouvir as longas cartas 
que Ricardo escrevia com recados para todos, especialmente para ela.
Acabava Juca, um dos filhos de D. Benvinda, de chegar do correio, trazendo duas cartas, uma delas bastante volumosa e portulada com um batalho de estampilhas. Pelo 
sobrescrito conheceu logo a velha que a do filho era a mais pequena.
Abriu-a, e disse com um suspiro ao pass-la  Luisinha para ler:
- To curta!
-  mesmo! repetiu Luisinha com a doce voz arrastada. Ele sempre escreve tanto!
A carta continha apenas estas palavras:

Minha boa e querida me.
De preveno e  pressa lhe envio estas linhas. Estou ocupado com um trabalho importante, que devo concluir at amanh; e receio me roube o tempo que eu destino 
para conversar com aquelas a quem amo.
Mas trabalhando, no tenho eu sempre vivas em minha alma, para dar-lhe coragem, a sua imagem, minha querida me, a de Bela, de Luisinha, de todos aqueles por cuja 
felicidade eu rogo a Deus todos os dias?
Abenoe-me, querida me; e d a Bela o santo beijo que eu de longe no posso receber.
Seu filho
Ricardo
18 de agosto de 1871.

Quando Luisinha terminou a leitura da breve carta duas lgrimas rolavam pelas faces de D. Benvinda, que parecia absorvida na imagem do filho ausente. Bela se erguera, 
e enxugando com o leno de cambraia as faces da velha, dobrou os joelhos para receber na fronte o beijo de Ricardo, ungido pela bno materna.
Entretanto Luisinha voltava de todos os lados a carta volumosa, em cujo sobrescrito reconhecera admirada a letra de Fbio, o qual raras vezes escrevia e sempre de 
afogadilho, por desencargo de conscincia.
- E esta  de Fbio? perguntou D. Benvinda.
- No sei, respondeu Luisinha vermelha como lacre. Creio que .
- Basta ver a letra, disse Bela.
- Desta vez desforrou-se! observou D. Benvinda contando as laudas da carta que tinha aberto. Toma, Luisinha; vamos ver o palavreado do rapaz. J estou-me rindo!
- Leia voc, Bela, murmurou Luisinha com as faces a arderem.
Era o costume. As duas noivas trocavam a vez nessa leitura.
A carta de Fbio era uma garrulice de estrina, mas no destituda de chiste e boas lembranas.
Suprimidos os nomes prprios, e metida em meia dzia de colunas, aquela prosa caseira e do cote, podia bem gozar das honras do folhetim, e no teria que invejar 
aos mais asseados e domingueiros que a aparecem.
Ao escrever essa carta passava o noivo de Luisinha por um desses momentos de plenitude moral, em que o esprito, como o corao, transbordam, e carecem de vazar 
a afluncia de vida. Durante seis meses fartara-se de prazeres, divertira-se a no poder mais, gozara do mundo, era amado por uma mulher bonita e do grande tom. 
Estava cheio.
Retido em casa  espera de uma resposta que devia trazer-lhe dinheiro, o moo lembrou-se, para disfarar a impacincia, de escrever  sua futura sogra, e comeou 
neste belo teor:

Minha futura me e respeitvel senhora.
H tempos recebi uma carta sua em que me perguntava como ia na advocacia. Deixei passar alguns meses, antes de responder, para dar-lhe uma informao mais segura.
Agora posso dizer-lhe tudo que h a tal respeito e no  muito. O nosso Ricardo est com um escritrio j bastante acreditado; tem clientes magnficos; e vai ganhando 
sofrivelmente. Eu s apareo l, de longe em longe, para no espantar a caa; mas vou-lhe mandando as causas que posso. Sou um jornal vivo; mas jornal de sala, que 
 mais aristocrtico, e mais barato.

Neste gosto continuava a carta, que Bela ia lendo no meio das risadas de D. Benvinda e dos muxoxos de Luisinha. Chegou, porm, um ponto, em que redobrara a ateno 
das trs senhoras:

A Bela deve estar orgulhosa do noivo que tem. Se ela soubesse at que ponto Ricardo a ama!... Ele, estou certo que nada lhe dir; mas eu  que no sou caixeta de 
segredos; e este me est fazendo ccegas.
A vai, no ouvido, de cochicho, que no o oua uma certa sonsinha, cujo pecado  a curiosidade.

- Isto  com Luisinha! Disse D. Benvinda.
-  o que ele sabe me dizer.
Imagine-se a curiosidade com que foi ouvido o trecho seguinte, que leu Bela com a voz palpitante de emoo:

H aqui na corte uma moa, que  a rainha da moda; chama-se Guida;  filha de um homem que no sabe quanto possui; tem dezenove anos e muito esprito; a respeito 
de beleza e elegncia, no se fala;  o tipo: ningum a excede.
Imagine quantos sujeitinhos andam-lhe arrastando a asa, apaixonados ao mesmo tempo pelos olhos pretos e os milhes amarelos dessa peregrina formosura.
Todo o alto coturno comercial, poltico, literrio, inscreveu-se neste concurso; e cada um espera que lhe toque o anel.
Mas ela no faz caso de nenhum destes pretendentes; e o seu fraco  por um certo advogado paulista, que nem d f das provocaes, to voltado anda para essas bandas 
da nclita Paulicia, onde lhe ficaram os olhos e o corao.
Bastava-lhe querer para em pouco tempo estar senhor de uma riqueza colossal e marido da mais bonita moa do Brasil, j se sabe, depois das duas que no  preciso 
mencionar. Mas ele sacrifica tudo  constncia.

-  bem meu filho! Interrompeu D. Benvinda com assomo de orgulho materno.

  verdade que no  ele o nico; pois tambm outra pessoa tem sofrido sem pestanejar o fogo rolante dos mais feiticeiros olhos do Rio de Janeiro; mas, etc., etc., 
o resto pelo seguinte vapor.

Terminada a leitura, quanto Luisinha e a me se inclinaram para acariciar Bela e regozijar-se com ela por mais essa prova do profundo amor de Ricardo, viram, ao 
retirar-lhe o papel ainda aberto diante dos olhos, que tinha o rosto banhado de lgrimas.
- Est chorando, Bela! exclamou Luisinha.
-  de felicidade, menina; tambm eu tenho os olhos cheios dgua, disse D. Benvinda.
Desde criana, de envolta ainda com os brincos da infncia, comeara Bela a amar Ricardo, com a efuso de uma alma que se entrega sem reservas de todo e para sempre. 
Estava em sua natureza querer com esse abandono de si mesma, sem pedir nem esperar retribuio.
Quando Ricardo formou-se, no lhe permitindo as apertadas circunstncias da famlia realizar desde logo seu casamento, Bela resignou-se a esperar, com plcida confiana, 
e possuda da inaltervel convico de fazer a felicidade daquele que a amava.
Freqentes vezes insistiu seu pai em convenc-la da necessidade de casar-se com o Felcio Lemos, outro primo seu, tambm formado, que desde a infncia a disputava 
a Ricardo, mas preterido sempre. Aos reiterados pedidos opunha a moa uma repulsa doce, magoada, quase splica, mas inflexvel. Ela julgava-se um bem de Ricardo; 
acreditava que deus a reservara para fazer a ventura desse corao, que ela admirava. No discutia pois, no se defendia; refugiava-se em seu amor.
Ao ler a carta de Fbio, no meio do espanto que produzia-lhe o tom leviano do estouvado a profanar as coisas mais santas, pela primeira vez uma dvida cruel traspassou-lhe 
a alma. No era ela  a nica mulher do mundo que podia fazer a felicidade de Ricardo? Havia para esse homem outra ventura, outro futuro, outra existncia, alm 
que de lhe devia dar o seu amor?
Com o soobro causado por essa primeira percusso dalma, arrasaram-se-lhe os olhos de lgrimas sem que ela mesma soubesse por que chorava. Assim, quando ouviu a 
explicao que D. Benvinda deu a seu pranto, disse com um sorriso contrafeito:
- H de ser de alegria mesmo!
Momentos depois recolhia-se Bela  sua casa e achou na sala o pai, o Dr. Lopes, em companhia de Felcio Lemos.
- Estvamos falando em voc, Bela, disse o pai que dobrava um papel.
- Meu tio! Vm. prometeu-me que no contaria a Bela, disse o Lemos com exprobrao.
- Mas  necessrio que ela saiba, para perder a iluso em que vive; portanto dispense-me da palavra que lhe dei.
- Perdo, meu tio, eu o respeito muito, mas neste ponto no devo condescender. Bela pode suspeitar que so meios empregados para demov-la de sua resoluo.
- Todos sabem que voc  incapaz disso.
- Embora; no quero ser portador de ms novas.
- Mas o que , meu pai? perguntou Bela. Alguma notcia triste?
- Eu lhe digo. Ao passo que voc espera com uma constncia nunca desmentida ao homem a quem prefere sem razo, o ingrato l na corte est tratando de arranjar um 
casamento rico.
- Ricardo? disse Bela com sublime confiana.  impossvel, meu pai.
O Dr. Lopes desdobrou a carta que tinha em mo e apresentou-a  filha.
- Ainda duvida? pois leia, Bela!
- O senhor me compromete! disse Felcio com reproche, afastando-o do lado da janela.
Surpresa, e cerrado o corao de pressentimentos, correu Bela os olhos pelo papel.
A carta escrita ao Felcio por um colega da corte, repetia os boatos da Rua do Ouvidor que davam Ricardo como pretendente assduo da filha do banqueiro Soares e 
o preferido entre todos pela moa.
- Ento? perguntou o Dr. Lopes  filha quando esta acabou de ler.
- Ricardo no falta  sua palavra, meu pai.
E deitando a carta sobre a mesa, recolheu-se  alcova.
- Breve se h de desenganar! exclamou o pai irritado com aquela cega confiana.
Decorreu uma semana, durante a qual a alma de Bela, como um vaso de jaspe onde a custo filtra a essncia, levou a embeber-se dos acontecimentos, que vieram perturbar 
o sereno remanso da sua vida de amor e saudades.
Outra vez chegou o correio, mas nesse dia a moa no foi como de costume para a casa da tia esperar cartas; e desculpou-se com uma enxaqueca, esse grande recurso 
diplomtico das mulheres. Por volta de ave-maria trouxeram-lhe da parte de D. Benvinda uma carta.
De longe, apenas a viu na mo do portador, Bela adivinhou que era de Ricardo.
 frouxa luz do crepsculo, recostada  ombreira da janela, com os olhos midos e a alma tomada de um indefinvel sobressalto, leu a moa as palavras afetuosas que 
lhe dirigia o noivo.

Minha querida Bela.
Deus ouviu suas preces, as preces de um anjo, e abenoou os meus esforos.
Breve estaremos reunidos e para sempre. Viveremos na pobreza, a que a sorte nos condena; mas no  s a opulncia que tem o direito de ser feliz neste mundo; ao 
contrrio, muitas vezes ela no acha no meio de seu luxo um instante da alegria que enche a casinha do pobre.
Teremos de passar ainda por grandes provanas, minha querida Bela; no devo iludi-la. A vida  difcil para aqueles que trilham a spera vereda, e no se deixam 
arrastar pelas brilhantes equipagens, que passam cobrindo-os de p!
No me assusta a luta; conto, para dar-me coragem, com o nosso amor, que tem sido e h de ser o conforto de minha vida.
s vezes perdido neste turbilho da corte, minha querida Bela, tm-me vindo tambm a mim sonhos douro, castelos encantados como fazem todos que tm imaginao. 
A riqueza para certos indivduos no passa de uma indigesto de dinheiro,  na mo de quem compreende um dom sublime, quase celeste, porque transmite ao homem um 
influxo da Providncia: enxuga as lgrimas da misria, fortalece a virtude vacilante, e anima os nobres cometimentos.
Mas eu os espanco, a esses silfos tentadores, que agitam sussurrando suas asas de ouro, e me refugio nos meus sonhos de amor. Sob as tuas brancas asas, e me refugio 
nos meus sonhos de amor. Sob as tuas brancas asas, meu anjo da guarda, estou com Deus; e posso desafiar o mundo. Sei para sempre. Ricardo.

Soavam trindades na torre fronteira da matriz.
Ajoelhou-se Bela para rezar a ave-maria. As andorinhas esvoaavam pela fachada da igreja, retalhando os ares com vos intermitentes. J caa a noite quando duas 
se encontraram diante da janela,  beijando-se com alegres chilidos, que assustaram a moa.
Ainda Bela no tinha rezado, to absorvida estava em seus pensamentos.

XXX

No dia em que Ricardo recusara a mo de Guida, espontaneamente oferecida, chegou  casa de volta de Andara, atordoado ainda pelo procedimento singular, como pela 
deciso de carter dessa moa.
Eram trs horas.
O jantar o esperava, e durante ele, a conversa com a dona da casa e a tagarelice das crianas o distraram da preocupao que trazia e  qual desejava arrancar o 
esprito.
 tarde, fumando um charuto e sentado  janela do sto donde avistava as verdes encostas de Santa Teresa e mais longe o Corcovado, o moo deixou-se ir  discrio 
do pensamento que o levava para os acontecimentos daquela manh. No tardou o envolvesse um desses castelos encantados de que falava na carta a Bela.
Imaginou-se outro homem, que no ele. Um moo pobre, de alguma inteligncia, lutando corajosamente com a sorte, mas sem o vnculo de uma afeio, que o prendesse 
para sempre. Caminhava curvado ao peso do trabalho, quando uma voz celeste o chama. Ergue os olhos, e v descer das nuvens a moa mais gentil, deslumbrante de beleza, 
cintilando graa e esprito que lhe diz:
Minha alma  virgem e pura, como o sorriso de que Deus a formou. Nunca amei; no sei que mistrio  esse da criao. Ensinai-me vs a amar; acordai em mim as doces 
emoes dessa felicidade que eu no conheo. A linguagem dos anjos que eu falava no cu  doce; mas quero aprender em vossos lbios outra linguagem mais suave e 
maviosa, a que entende o corao. Eu sou a flor que nasce, cheia de fragrncia, que toda guardei para derramar em vosso seio: colhei-me.
E o moo ficava enlevado a admirar a esplndida formosura, no podendo crer que Deus houvesse formado aquela sublime criatura e a conservasse imaculada no regao 
do cu, para envi-la de repente a ele, como um anjo, que o inundasse de felicidade. Mas interrompendo um instante o af, ajoelhava para admirar a peregrina imagem.
Erguei-vos, dizia-lhe a moa. Meu senhor no h de calcar o p da terra. Tenho riquezas sem conta para dar-lhe. Quero ser querida em um palcio, entre as magnificncias 
do luxo, cercada de tudo quanto seduz e deslumbra. Quero ser amada assim para que, no meio de todos esses esplendores, ele s busque meus olhos, s deseje meu sorriso.
Desfraldando as asas, a imaginao de Ricardo bordou sobre o gracioso tema um desses arabescos orientais, cheios de encantamentos e fascinaes, como so os contos 
rabes.
Quando ele surpreendeu-se no meio desse devaneio, teve um remordimento; e para fugir aos enlevos da fantasia, asilou-se nas recordaes das puras afeies da famlia 
e dos santos amores de sua infncia.
Tomou a pena e escreveu a Bela a carta que este lera  janela, na hora da ave-maria; depois conversou longamente com sua me, em duas folhas de papel, renovando 
as reminiscncias dos tempos que tinham passado juntos em So Paulo antes da separao.
No dia seguinte recomeou Ricardo a lida do escritrio; e o trabalho, que  o mais forte detersivo do corao, apagou os vestgios da alucinao que sofrera. Todavia, 
quando uma circunstncia lhe recordava Guida, sentia-se o mancebo tomado por um terror indizvel, e estremecia com a idia de cair outra vez no sonho, ou antes no 
pesadelo douro, que j uma vez fizera presa nele.
Antes de findar a semana, estando Ricardo em seu escritrio, recebeu do carteiro sua correspondncia de So Paulo. Dentro da carta de D. Benvinda, que dava notcias 
de todos os seus, achou uma de Bela; e guardou-a para a ler em casa, a ss, sem risco de o interromperem.
Avalia-se do espanto de Ricardo ao ler estas poucas linhas:

Meu primo.
Um pressentimento, que no engana, diz-me que sou um obstculo em sua vida; e portanto o meu dever  afastar-me para que voc possa livremente seguir a brilhante 
carreira que lhe prometem seus talentos e virtudes.
Outra, mais prendada e escolhida por Deus, far sua felicidade, oferecendo-lhe toda a sorte de alegrias e encantos, que eu no poderia dar, eu que apenas tenho um 
corao. Esse o acompanhar de longe com seus votos; e creia, meu primo, que outros no haver mais ardentes pela sua ventura.
Desde que nos separamos, meu querido pai insta para que aceite uma unio, que ele sempre desejou. Ocultei-lhe este segredo de famlia para no afligi-lo, em compensao 
de tantos sacrifcios que voc a sofria s; era justo que tomasse para mim unicamente essa contrariedade.
Enquanto me julguei necessria  sua felicidade, tive foras para resistir a meu pai; agora faltam-me, e tambm o direito de opor-me  sua vontade, e recusar o destino 
traado por ele, quando outro no me resta, nem eu tenho mais que esperar do mundo.
Quando receber esta carta, j estar partido o vnculo que nos unia; pois vou dar a meu pai o consentimento que me pede h tanto tempo.
Sua prima e amiga
Isabel Lopes
20 de agosto de 1871.

Por diversas vezes, Ricardo retrocedeu ao princpio da carta e releu os perodos, para compenetrar-se do pensamento, que exprimiam essas palavras. A surpresa e pasmo 
produzidos por to inesperado teor tinham-lhe embotado a compreenso; com os olhos fitos no papel, havia momentos em que no via as letras, ou vendo-as, no sabia 
soletr-las.
Passado o primeiro abalo, quando o mancebo pde coligir as idias e refletir sobre o caso, sua mente procurou naturalmente a a explicao do estranho acontecimento; 
e certo de a ter encontrado, deleitou-se em pass-la e repass-la no esprito.
Foi um consolo.
Para Ricardo a carta de Bela no era seno um engenhoso meio de justificar sua ingratido e perfdia. Cansada de esperar, a moa de corao volvel, resolvera casar 
com o Felcio Lemos, que alm de arranjado, estava  mo.
A indignao do mancebo, a revolta do seu carter em face de tal procedimento, sobrepujou a mgoa de se ver esquecido, e a dor de perder as mais doces iluses de 
sua vida.
- E foi por essa mulher, que eu recusei um corao virgem, e o futuro mais brilhante que podia sonhar em meus arroubos de imaginao!
 noite Ricardo saiu  procura de Fbio, a quem encontrou na Rua do Ouvidor. Conseguiu traz-lo  casa, para mostrar-lhe a carta de Bela, e vazar em seio amigo a 
exuberncia de sua alma.
Fbio informou-se do que havia, tratou o ocorrido com a sua habitual leviandade, consolando Ricardo dessa insignificante derrota, que s vezes, dizia ele, era o 
princpio dos mais esplndidos triunfos.
- Vem dar um passeio comigo ao Carceler. Um sorvete e um charuto de Havana, so os melhores especficos para esses achaques. O primeiro apaga um incndio mais chibantemente 
do que o coronel dos bombeiros; o segundo desfaz em fumo a paixo a mais descabelada. Ontem ouvindo o Rossi, fiz esta reflexo, que tem escapado aos mais profundos 
pensadores: Se Otelo fumasse, no estrangulava Desdmona, e Shakespeare no poderia escrever aquela cena sublime do final; ficaria reduzido ao soco ingls.
No ouvia Ricardo as pilhrias do amigo, nem deu f quando ele, no meio da sua parolice, eclipsou-se pela escada do sto, para ir pautear pela calada do Carceler 
e Rua do Ouvidor, na esperana de encontrar a mulher do conselheiro Barros.
No dia seguinte, recordando o golpe que na vspera sofrera, e estava ainda aberto dentro nalma, teve Ricardo uma veleidade, um desejo, um impulso... Ver Guida. 
Para qu? Sob que pretexto? Em que intuito? Nem ele o sabia; nem lembrou-se de inquirir de si prprio; pois logo repeliu essa idia como uma extravagncia do esprito.
Durante as horas do trabalho, a agitao da cidade, o movimento dos negcios, o rumor das ruas, distraram o moo.  tarde, porm, a lembrana que despontara pela 
manh, tornou-se em necessidade imperiosa: e ele no pde resistir.
Deixou-se levar  toa, como um batel que voga ao fluxo das guas. Chegando  praia de Botafogo, apeou-se do bonde e seguiu a p at o porto do palacete. Foi depois 
de entrar, que se lhe apresentou a estranheza do passo.
S a convite, e de longe em longe, viera  casa do Soares; nunca tinha freqentado as reunies de todas as noites, nem mesmo as partidas semanais do banqueiro. Que 
explicao tinha pois essa visita avulsa e sem causa?
O resultado da reflexo foi sair apressadamente, receoso de que o vissem. No tinha porm dado cem passos, que j se arrependera de no haver realizado o primeiro 
intento, e moderou o andar, pensando em retroceder.
Avistou Fbio que saa nessa ocasio; foi-lhe ao encontro. A estava o pretexto da visita.
- Vi-te passar. Estava em casa do Soares, no jardim; vem comigo; passaremos l a noite.
- Tens razo, respondeu Ricardo apertando-lhe a mo. Neste momento preciso muito daquele gramo de loucura, com que o poeta manda temperar o juzo; e que realmente 
 o melhor sal da razo, pois a preserva de corromper-se.
Comeava o crepsculo.
Apesar da sombra que j havia no jardim, sobretudo onde copava o arvoredo, perceberam as duas moas a profunda alterao da fisionomia de Ricardo, no que estivessem 
descompostas suas feies, mas havia nelas a impresso digna e fria da dor vencida aps uma luta herica.
Guida envolveu em seu olhar compassivo o rosto do mancebo e murmurou dentro dalma:
- Como ele a amava!
Entretanto, D. Guilhermina procurava reanimar a conversa:
-  um milagre, v-lo, j no digo em nossa casa, porque a no ser uma visita de carto, no lhe merece mais; mas aqui! Nem passando lembrou-se de entrar.
- Tenho desculpa, minha senhora. Falta-me o tempo.
- Agora no a tem!
- Agora, por qu? perguntou Ricardo volvendo um olhar suspeitoso para Fbio, que se eclipsou.
Guida estremeceu; e D. Guilhermina mordendo o beio com um riso malicioso, afastou-se do lado que tomara Fbio, tanto para evitar um novo lapso, como para deixar 
os dois em liberdade.
Apoderou-se de Guida um enleio invencvel, quando se viu a ss com Ricardo, no jardim; e mais crescia sua perturbao com o silncio do moo, que de seu lado tambm 
parecia tomado de sbito constrangimento.
Nesse momento, as salas iluminadas derramaram sobre o jardim o claro das janelas; e um murmrio de vozes na entrada anunciou a chegada das visitas habituais, que 
vinham passar a noite em casa do Soares.
-  melhor entrarmos, disse Guida; e correu ao encontro de Clarinha, que passava com o baro de Sa.
Ricardo a acompanhou de longe, e instantes depois procurava nas conversas e burburinhos da sala, aquele gro de sal de que ele carecia para serenar a sua tristeza.
Mais de uma vez chegou-se para a filha do banqueiro com inteno de lhe dirigir a palavra; mas alguma fora oculta o tolhia, que afastava-se, disfarando o primeiro 
movimento.
No escapou a Guida esta perplexidade. Convencida de que Ricardo lhe desejava falar, mas retraa-se na presena das pessoas que a cercavam, afastou-se um instante 
da roda das moas e cavalheiros a pretexto de ir ao interior; na volta chegou-se ao piano, e demorou-se em escolher uma pea para tocar.
Ricardo, recostado nesse momento ao vo de uma janela, foi talvez a nica pessoa que seguiu os movimentos da moa, enquanto ela folheava o lbum, e no chamava a 
ateno ferindo as teclas do instrumento.
Guida colocou o livro na estante, e afastando o banco com a ponta do p, volveu os olhos para Ricardo. Encontrando os dele, sentiu expandir-se a alma, que veio abrir-se 
em flor num sorriso fagueiro.
Esperou ainda um momento e sentou-se. Debaixo de seus dedos mimosos cantaram as teclas a splica maviosa do dueto final de Romeu, escrito por Vaccai:
Vieni, ah! vieni,
Mio bene, mia speme;
Fugiamo insiemi,
Amor ci condurra.
Ricardo no ouviu as notas, como no vira o sorriso.
Vexado de que lhe surpreendesse a moa o olhar ansioso, dissimulara, com inteno de aproximar-se logo depois, como atrado pela msica.
Com efeito assim fez, mas ao mesmo tempo que ele, chegava Clarinha, o Guimares, e todo o enxame de adoradores cercava o piano, levando o advogado a arredar-se, 
o que alis fez de bom grado.
Pouco depois era meia-noite. As famlias se retiravam; D. Paulina com a filha as foram acompanhar at o porto, como de costume, por fineza aos hspedes e por passeio.
Guida, de brao com Mrs. Trowshy, aproximou-se de Ricardo:
- Como est a noite serena! disse a moa. Havemos de Ter uma bonita manh para ir a Andara, Mrs. Trowshy.
- E a lio de harpa?
- Que tem isso?
Voltou-se para Ricardo:
-  verdade! Quando leva aqueles papis  avozinha? Creio que ela precisa deles.
- J devia ter ido... Talvez amanh.
- Eu a prevenirei para esper-lo.
Este curto dilogo passou desapercebido no meio do gorjeio das moas que se despediam.

XXXI

No dia seguinte, s onze horas e meia, chegou Ricardo no Andara.
Achou na sala de visitas D. Leonarda recostada no sof; Guida sentada a seus ps na almofada desenhava  aquarela sobre uma mesinha de charo para divertir a av; 
e Mrs. Trowshy fazia frivolidade ( frivolit).
Guida estava triste.
A efuso de alegria que tivera na vspera a ver Ricardo, quando j o sabia desobrigado da promessa que o separava dela, essa primeira expanso de sua alma desvanecera-se 
mais tarde, durante a viglia.
Como uma gota de fel, caiu-lhe do esprito no corao uma idia, que a amargurou. O af com que Ricardo aproximava-se dela, logo depois da decepo, e sem dar tempo 
 alma no j de esquecer, mas de acalmar-se, no estava revelando o plano de uma vingana ou de um clculo sfrego?
Esteve a no ir ao Andara; mas pensou que o melhor era no demorar essa crise de sua vida.
Viera; no com a alma cheia de enlevos e ternuras como a tinha na vspera quando tocava Romeu, porm no desencantamento de um corao que sente fanar-se morno bafo 
do aquilo, a primeira bonina, que apenas comeava a florir.
Desculpou-se o advogado na demora da restituio dos papis; elogiou a aquarela de Guida, o que levou a conversa para os desenhos de Ricardo e as recordaes do 
vero passado na Tijuca. Falou-se da beleza das pitorescas montanhas, dos encantos de stios to aprazveis; e uma doce tinta de saudade ressumbrava nessa conversa 
de passatempo.
Depois de um quarto de hora ou mais, vendo Ricardo que no havia mutao de cena, e perdendo a esperana de uma longa e ntima efuso, como ali tivera Guida com 
ele vinte dias antes, ergueu-se com inteno de sair.
- O senhor ainda no viu a chcara da avozinha?  muito bonita.
- Qual! disse a velha. J foi, agora est maltratada.
- Quer dar um passeio? perguntou a moa.
- Com muito gosto! respondeu Ricardo.
- Vamos, Mrs. Trowshy.
A mestra estava pronta sempre para passear.
Querendo facilitar a Ricardo a entrevista, que ele desejava, e sentindo ao mesmo tempo vexame de achar-se de todo a ss com o mancebo, Guida escolhera o passeio, 
que lhe deixava toda a liberdade de movimentos para dissimular as emoes e interromper a conversa a propsito.
O bando de moleques disparou adiante, como um rebanho de cabritos, quando o soltam do redil pela manh, e espalhou-se pela chcara, a pretexto de apanhar frutas 
para nhanh Guida, mas realmente para as comerem eles e fazerem mil diabruras.
Mrs. Trowshy, que despedira da cancela pela rua afora, como bala de canho, e l se fora em passo de carabineiro ingls assaltando um reduto, depois de trs voltas 
sentara-se esbaforida  sombra de uma jaqueira, a debulhar um cacho de uva para refrescar-se.
Em frente da jaqueira passava uma rua de mangueiras, por onde vinham Guida e Ricardo a par, em um silncio que os embaraava a ambos; mas nenhum queria romp-lo 
com banalidades, receando afastar o momento da confidncia e talvez impedi-lo.
Animou-se Ricardo afinal:
- Lembra-se do que me disse aqui nesta casa, h quase um ms, quando nos despedimos? Que seu romance acabava alegre.
-  verdade! respondeu Guida. Eu disse e...
A moa conteve-se, receando lhe escapasse o segredo das lgrimas que tinham orvalhado seu amor ao nascer.
Ricardo esperou um instante, mas vendo que o silncio ia outra vez envolv-los, continuou:
- Pois o meu acabou triste, bem triste.
- Conte-me, disse Guida com bondade.
- No vale a pena. Uma afeio de infncia, que lutou anos contra a adversidade para ser trada e ludibriada no momento em que lhe sorria a esperana! Quem d valor 
a estas futilidades do corao? concluiu o mancebo em tom amargo.
- Compreendo quanto deve doer a perda de uma iluso, observou a moa.
- No  a perda de uma iluso, mas a runa de minha vida inteira. O corao est morto;  uma terra sfara onde no brotar nunca mais a flor de uma afeio. E  
esta a maior felicidade que Deus me pode conceder ainda neste mundo!
Volveu Guida um olhar tmido e queixoso.
- Por qu?
- Amar outra vez? Seria martrio incessante. No me animaria jamais a oferecer quela a quem eu amasse os destroos de uma vida despedaada pela traio, os bocejos 
de uma alma devorada pela dvida. Oh! no! Se isso acontecesse por minha desgraa, eu havia de ador-la em silncio, no mais recndito de minha conscincia, quando 
no conseguisse arrancar do corao esse espinho doloroso.
Com a fronte inclinada e o seio palpitante, escutava Guida  as palavras de Ricardo, que as proferia com o olhar vago, receando pous-lo no semblante da moa. Timidamente 
observou:
- No conheo os mistrios do corao. Mas penso que no pode haver maior jbilo do que seja esse de reviver um corao morto, de apagar um passado triste, e criar 
para aquele a quem se... estima, uma nova existncia!
- Quantos encontraram no mundo um anjo como esse? perguntou Ricardo.
Guida no respondeu.
- Quando recebi a carta, que deu o golpe  minha vida, a princpio no pude entender. Pensei estar louco. Li e reli; aquilo excedia minha compreenso. Enfim a certeza 
penetrou-me como um raio, e senti-me como arremessado do alto de um rochedo, que me dilacerara a alma. Reneguei tudo quanto respeitava; descri das coisas mais santas; 
cheguei a duvidar de minha me!... Era a vertigem; a dor veio depois, e atroz. Carecia de um corao amigo, com quem desabafasse. Aqui s tinha Fbio; mas com ele 
era profanar a minha desgraa. Lembrei-me da senhora. Talvez no devesse; mas acreditei que me havia de compreender.
- No se enagnou.
- E, no sei por qu, tinha um pressentimento de que isso me havia de fazer bem: e fez. Estas poucas palavras que trocamos restituram a calma a meu esprito. Sentia 
vacilar-me a razo a modo de brio; parecia-me que a conscincia faltava-me, como a terra embaixo dos ps; e agora estou outra vez seguro de mim; perdi as iluses 
e as crenas, mas conservo a possesso do eu; j no receio que uma paixo ou um vcio me arrebate na correnteza como s alforrecas, que o mar lana  praia.
- Mostre-me a carta! murmurou Guida.
- Aqui a tem; eu a trouxe pensando que desejasse v-la.
Recebeu Guida o papel com a mo trmula, e procurou o abrigo de uma mangueira, cujo grosso tronco a escondia, para ler sem despertar a curiosidade da mestra. Ricardo 
voltou-se para no vex-la.
Estava a moa comovida e palpitante. Aquele momento ia decidir de seu destino; e era preciso que ela tivesse ainda uma vez a energia de curvar a fortuna a seu imprio, 
e vencer ela mesma, de iniciativa prpria, os obstculos.
Sua alma superior compreendia agora o assomo confuso, obscuro, travado de hesitaes e arrojos, que desde a vspera impelia Ricardo para ela, sfrego de abrir-lhe 
o corao. O fenmeno que o mancebo no podia bem discernir em sua prpria conscincia, ela o penetrava com a luz pura de seu nobre corao.
Com as mos apertadas ao seio para recalcar a efuso de seu jbilo, murmurou consigo:
- Ele me ama, sem o pensar. Quando viu-se livre, lembrou-se que nada o separava de mim. Mas eu sou rica e o mundo no acredita que se possa amar uma msera criatura 
de carne, de preferncia a uma barra de ouro!... Ricardo duvidou de si, ele mo disse h pouco; julgou-se arrastado para mim, no pelo afeto mas pelo interesse. Ento, 
revoltando-se contra si mesmo, em vex de me dizer: - Sou livre, aceito  ao contrrio, procura cavar um abismo que o separe para sempre de mim, a fim de no sucumbir 
 tentao. No pode mais amar? Pertence  outra para sempre? Pois bem! Assim  que eu o quero, para afast-lo tanto desse pesadelo vivido sem mim, que no se lembre 
de ter jamais amado a outra mulher.
Estes pensamentos no os alinhou Guida em palavras na mente, mas desenhavam-se como figuras de painel iluminadas de repente por um jato de luz. Tambm no duraram 
seno o tempo de abrir a carta de Bela, que a moa amarrotara entre as mos, quando comprimira a arfagem do seio.
Leu Guida uma e duas vezes. Na Segunda, sua mo caiu-lhe desfalecida. Compreendera tudo: divisara naquele papel mudo o pensamento de Bela como perscrutara pouco 
antes o segredo do advogado atravs de suas palavras confusas.
Dobrou a moa a carta enquanto se dominava e aproximou-se de Ricardo:
- Bela o ama, como eu pressinto que havia de amar, se Deus no me houvesse retirado sua graa.
- E esta carta?
-  uma sublime abnegao. Bela acreditou que era ela quem a condenava  pobreza e  obscuridade. Enganaram-na certo, asseverando que o senhor tinha outra afeio; 
fez o que devia: renunciou  sua felicidade para no sacrificar aquele a quem ama.
Ricardo abriu a carta que a moa lhe restitura, e leu-a de novo. Ali estava a alma de Bela, a santidade daquele corao em todo esplendor. Fora preciso que a palavra 
pura e nobre de Guida lhe dissipasse a nvoa dos olhos para que ele visse.
Erguendo os olhos, pousou-os brandamente no rosto de Guida.
- A senhora que l no corao de Bela, inspire-me! Que devo fazer?
Guida voltou-se e colheu uma folha de avenca, nas fendas de um velho muro. Era um disfarce para ocultar o soluo que rompia-lhe o seio.
- O seu dever. Bela espera a resposta;  ela que vai decidir de sua sorte. V, v a So Paulo e...
Pareceu que a voz de Guida afogava-se num soluo. Ricardo olhou, e viu-a sorrindo acabar a frase:
- E seja feliz!
A moa foi ter com Mrs. Trowshy e instantes depois, terminado o passeio, retirava-se Ricardo.
- Ela no pode amar-me!... pensou o moo em caminho para a cidade. E eu... eu tenho medo de am-la!
Dois dias depois partia o vapor de Santos. Ir a So Paulo, como lhe dissera Guida, foi idia em que no se demorou o nimo do advogado; no o permitia o escritrio, 
nem o estado de seu esprito. Resolveu porm escrever a Bela em termos que a demovessem da suspeita de no ser amada, como o fora sempre.
- Serei eu quem me sacrifique  sua felicidade.
No momento de pr a pena no papel corou: nunca poderia escrever o que no sentisse; no falou a linguagem do corao, mas a da razo.

Bela
A vida  uma coisa bem sria, que no se deve fazer tema de caprichos e arrufos.
Amamo-nos desde a infncia, e juramos unir-nos para sempre. Pertencemo-nos pois um ao outro, e nada neste mundo a no ser a violncia pode jamais separar-nos.
Vi em sua carta uma suspeita, que no devia demorar-se em seu esprito. Considero-me seu marido perante Deus; e conheo meu dever.
Adeus, etc.
Ricardo

Esta carta fria e austera ainda mais confirmou Bela na convico de que j no era amada como o fora outrora. Documento do nobre carter de Ricardo, tinha a secura 
do pergaminho.
Contudo a moa no precipitou o desfecho do drama ntimo de sua vida, e deixou escoar-se o tempo, at que decorridos uns trs meses e insistindo seu pai em favor 
do Felcio, arrancou-lhe o consentimento para essa unio.

XXXII

Depois da entrevista de Andara, Guida e Ricardo encontraram-se freqentemente na sociedade.
O advogado, cujo escritrio rendia para lhe permitir mais que a decncia, sem sacrifcio de alguma economia, procurava nas salas e reunies o sossego de esprito 
que no encontrava em seu gabinete de trabalho, e nos passeios solitrios pela calada da noite.
No via Guida sem emoo; e se no cedia  atrao que a gentil menina exercia sobre ele, tambm no a evitava como anteriormente, quando o acaso os aproximava. 
Ao contrrio, nessas ocasies, se alguma circunstncia no o vinha distrair, ou se a moa no se afastava, ele se esquecia com ela em alguma dessas conversas cintilantes, 
que lembrava-lhe o seu passeio  Vista dos Chins.
No se falava porm mais entre eles da matria sentimental; esse captulo estava cancelado. Nenhum se animava a folhe-lo.
Como um homem, que tem conscincia de sua fora, e conta com uma vontade inflexvel para sofrear os mais veementes impulsos, Ricardo permitia-se aquele inocente 
devaneio, que lhe caa nos seios dalma como orvalho celeste. No tinha receio de trair-se; e pois bebia o doce cordial como um enfermo, que precisa restaurar as 
foras.
Sabia retrair-se a tempo, e afastar a taa dos lbios, quando sentia a primeira nvoa da ebriedade desse amor impossvel, que ele rejeitara, mas no podia extirpar.
De seu lado Guida, se algumas vezes cedia ao embevecimento dessas conversaes, no despia a reserva com que tratava ultimamente a Ricardo; reserva que era to-somente 
o pudor de sua afeio, como o receio de afagar um amor condenado, que devia morrer desconhecido, como tinha vivido.
Assim decorreram trs meses.
A notcia do casamento de Bela, que se realizou em poucos dias, produziu nas relaes de Guida e Ricardo uma alterao sensvel.
A princpio a moa deixou-se influir um assomo de altivez. Entendeu que no devia aceitar o sacrifcio de Bela, por lhe parecer humilhante. Preferia matar seu amor, 
sufoc-lo no seio, a profan-lo em um casamento frio, e rejeitado por outra.
Mais tarde, mudou completamente. No vendo Ricardo, adivinhou que era a dor da perda de Bela que o afastava dela, e teve cimes. Outra vez sentiu o impulso generoso 
de disputar esse nobre corao ao desnimo e  descrena, de povoar com seu imenso amor o deserto daquela alma assolada pela desgraa.
Ricardo porm sucumbia ante a perda irreparvel da mulher a quem amara; e s ento conheceu a profundeza do golpe que sofrera. Por muito tempo ele pertenceu exclusivamente 
 mgoa que enlutara sua vida e  saudade do passado amor.
Quando Guida o viu, desfigurado e plido, respeitou a santidade dessa dor, e aprendeu nela a resignar-se.
A continuao de se tratarem freqentemente, depois de gastas as primeiras expanses da mtua, mo no correspondia afeio, tornou-os ao cabo de algum tempo indiferentes. 
Encontravam-se j em emoo, como sem enleio.
No vero passado Guida passou em Petrpolis os dois meses de mais forte calor. O pai deixou-lhe a escolha; ela no quis a Tijuca, de que tanto gostava anteriormente.
Nessa ocasio espalhou-se a notcia de estar justo o casamento de Guida com o Bastos. O Soares interpelado riu-se; e Guida j no correspondeu s perguntinhas das 
amigas com um remoque, segundo o seu costume.
Grande mudana se tinha operado no corretor. O Soares uma vez depois do jantar enfiara-lhe o brao, e lhe dissera brincando:
- Meu caro Bastos, o que seduz as borboletas so as flores e no os frutos. J tens bastante dinheiro. Trabalha menos, e agrada mais.
- De que modo?
- Vs esta pedrinha? disse o Soares apontando para um seixo reluzente entre a areia do passeio. Foi a correnteza dgua que a poliu; atira-te na correnteza dos homens. 
A massa  boa, por fora que h de sair alguma coisa.
Saiu um homem elegante, de bom senso e inteligncia elevada, que, embora no dado a estudos tericos, pde desenvolver-se com acerto e superioridade em qualquer 
assunto.
O Guimares foi  Europa gastar a henrana do pai; e o Nogueira, atordoado com a dissoluo inesperada que lhe gorou a candidatura, vai-se consolando na advocacia 
administrativa da sua dupla derrota, a poltica e a matrimonial.
Mrs. Trowshy anda muito contente com a esperana de voltar breve  Inglaterra na companhia de Guida, a qual naturalmente logo depois do seu casamento far uma viagem 
 Europa.
Fbio casou-se; mora em So Paulo, e tem um projeto de estrada de ferro para Santo Amaro, primitiva colnia alem, onde se faz boa manteiga fresca, igual  de Petrpolis. 
J requereu o privilgio, e conta ganhar uma centena de contos, para vir gozar da corte, de que tem saudades.
O visconde da Aljuba, consta que anda arranjando um escritor para zurzir o autor deste livro, por t-lo copiado to ao vivo; portanto prepare-se o pblico para ler 
as rajadas que no tardam a aparecer por a em estilo de nquel.
Informaram-me tambm que o Sr. Bencio j foi  cocheira do Porto, examinar o mais rico dos cups de gala, a fim de estar preparado para encomend-lo apenas se marque 
o dia do casamento de Guida.
Por seu gosto no seria Bastos o noivo; pois o bom do amanuense no perdeu ainda o teir que tomara ao corretor pela concorrncia ativa que este lhe fazia antigamente 
no artigo das encomendas. Mas, quando se tratava de obsequiar, no havia sacrifcio que fizesse recuar o herico Sr. Bencio.
Assim terminaram estes sonhos douro, to parecidos com os outros que a cada instante por a acendem e se apagam, como os arrebis da tarde.

FIM


CARTA AO EDITOR

Ilmo. Sr. Garnier

Se ainda no tirou a lume a Segunda parte dos Sonhos douro, peo-lhe o favor de mandar imprimir o incluso ps-escrito que leva a ltima notcia de nossos personagens.

Amigo e atento venerador

SNIO

S.C. 6 setembro, 1872


PS-ESCRITO

H quinze dias teve Ricardo de assistir a uma vistoria, em questo de terras, para o lado de Jacarepagu.
Na volta lembrou-se de visitar D. Joaquina, a quem no via desde muito. Achou a casinha e a dona no mesmo estado: velhas como as deixara, mas contentes e sossegadas.
A tia de Fbio recebeu o advogado com muita festa e agasalho; perguntou notcias do sobrinho e da nova sobrinha; e pediu a Ricardo que lhes mandasse muitas e muitas 
recomendaes, quando escrevesse.
Eram duas horas. J D. Joaquina tinha jantado; mas havia carne assada e improvisou-se uma fritada, que Ricardo aceitou de bom grado, para Ter o prazer de passar 
com a velha o resto da tarde. O advogado comeu com apetite; e no trocaria o copo dgua cristalina, que bebeu depois do melado, pelo mais esquisito champanha.
- O senhor  que ainda no quis casar? disse D. Joaquina, preparando-lhe uma chvena de caf.
- Creio que fiquei para tio, disse Ricardo sorrindo.
- Qual!... A dificuldade  encontrar a algum peixozinho que lhe ponha um feitio; como um que veio aqui outro dia.
- No tenha receio, trago uma figa, que me livram do quebranto, tornou Ricardo no mesmo tom.
- Deixe ver, disse a velha.
- Esto l dentro, no corao.
A velha riu-se. E o advogado acendendo o charuto saiu a dar uma volta de passeio a p, enquanto se ia buscar ao pasto o Galgo, que naturalmente andava tambm matando 
saudades, pois desde muito tempo residia na corte  Travessa do Esprito Santos, n. 19, cocheira do Viana.
Tomou Ricardo pelo mesmo caminho em que  primeira vez o encontramos, e no tinha dado vinte passos que as recordaes de outros tempos surgiram para envolv-lo 
como o aparato de uma cena armada de improviso.
Ouviu tropel de animal; reconheceu o Galgo; viu passar Fbio; trocou palavras com ele; perdeu-se entre os tufos do arvoredo; sentiu o sobressalto que tivera outrora, 
despertado por um riso argentino; e contemplou com entusiasmo de artista, e um enlevo que ento no sentira, o gracioso vulto da gentil amazona.
Depois correram as vistas; novas cenas sucediam-se; e a imaginao as povoava de recordaes vivazes, que entretanto pareciam extintas.
Este volver ao passado incomodava Ricardo, que pensou escapar-lhe fugindo quele stio.
Ao voltar uma curva descobriu duas senhoras, que se aproximavam lentamente pelo mesmo caminho; e qual no foi seu espanto reconhecendo Guida acompanhada de Mrs. 
Trowshy.
Desde certo tempo a sade de Guida se alterara. No se queixava, nem tinha mesmo incmodo ou mal determinado. Perdera a alegre vivacidade; e sentia invadi-la um 
abatimento indefinvel. Sua vida nos meses ltimos no era mais do que um lento delquio; parecia-lhe que estava desmaiada. As flores, se  que tm sensibilidade, 
devem experimentar uma impresso igual quando murcham.
Ultimamente o desfalecimento chegara ao ponto de inquietar a famlia; os mdicos receitaram as duas panacias do costume, o casamento e o campo. Pobres dos mdicos! 
Queixam-se deles. Ah! Se tivessem na sua farmacopia certas drogas preciosas, como o amor, a ambio, a glria, que de curas milagrosas no fariam!
Quando se tratou de escolher o arrabalde, Guida pediu a Tijuca; no que ela esperasse tirar proveito para a sade. Bem longe disso; era um desejo recndito de rever 
aqueles stios, e saciar-se das reminiscncias que eles guardavam. Matassem embora essas rvores, como a mancenilha; queria embriagar-se de seus perfumes.
Lembrava-se da Africana que vira representar ultimamente; e invejava aquela morte, ela que dois anos antes, naquelas mesmas montanhas, zombava de Safo, a mais ilustre 
entre as mrtires do amor.
Guida trajava naquela tarde um vestido cinzento e, sobre ele, um casaco preto guarnecido de marta. A alvura imaculada de seu rosto destacava-se nesse trajo escuro, 
entre os negros cabelos, com uma lividez que assustava: parecia o perfil de uma esttua em alabastro.
Reconhecendo Ricardo, teve a moa uma violenta comoo, e tomou para suster-se o brao da mestra, que atribuiu o choque a susto e debilidade da molstia.
- No sabia que estava na Tijuca, disse Ricardo.
- Viemos h oito dias.
- Ela tem andado doente; o doutor mandou tomar ares, disse Mrs. Trowshy em portugus arrevesado.
- H de fazer-lhe bem a Tijuca, tornou Ricardo.
-  sade?... perguntou Guida.
E abanou a cabea desfolhando um triste sorriso. Foi ento que Ricardo reparou o estado de abatimento da moa. O talhe, to esbelto e grcil, retraa-se como o clix 
do lrio do vale quando fana-se, e os olhos de embaciados, s intercadentes, como o trepidar da estrela, rutilavam para desferir lampejo febril.
No se concebe a comiserao que sentiu Ricardo notando aquele deperecimento lento de uma beleza, que ele vira to esplndida. Lgrimas umedeceram-lhe os olhos; 
e teve impulso de ajoelhar-se aos ps da mrtir, sacrificada ao paganismo social.
Lembrou-se da conversa que tivera com a moas dois anos antes, pouco distante daquele stio. Guida era uma das vtimas desse martirolgio da famlia, que poucos 
sabem e ningum compreende. Nascera rica; educaram-na para a opulncia; e a grandeza sufocava.
Havia um meio de salvar-se; era esfarfalhar sua alma pelas salas em afeies efmeras; tornar-se a moa da moda, faceira, namorada, perseguida e disputada por um 
enxame de adoradores. A dignidade inata fechou-lhe essa vlvula do corao.
Guida o guardara virgem e intacto para o seu primeiro amor; porm este no o encontrara no mundo. Por qu? No havia um homem que a merecesse? Guida estimava o homem, 
mais do que ele valia, porm na pureza do ideal; por isso os indivduos da espcie lhe pareciam escoros, seno caricaturas.
- Por que no sou eu o homem que ela sonha, disse Ricardo; por que no me deu o criador um raio do fogo sagrado para reanimar esta vida que se extingue, para reter 
na terra esta bela mulher que se est transformando em anjo?
Guida sentara-se  beira do caminho, numa leiva coberta de relva, e acompanhava o recorte das nuvens com o olhar mrbido, que s vezes eclipsava sob os longos clios 
e volvia rpida e sutilmente ao rosto de Ricardo.
- Deve passear! disse Ricardo para romper o silncio.
- Ela no gosta mais de sair como dantes, observou Mrs. Trowshy.
- Fatiga-me tanto! tornou Guida. J trs vezes viemos para este lado; e ainda no pude chegar at a outra volta.
- Quando estiver mais forte.
- Tenho tanta vontade! Mas hoje hei de ir; j descansei. Venha conosco! disse pousando o olhar splice no semblante do moo.
No era longe a volta a que a moa desejava chegar.
- Lembra-se? perguntou a Ricardo. Aqui nos encontramos pela primeira vez.
- No esqueceu?
- E a nossa flor... Ainda estar no mesmo lugar?
Ricardo rompeu o arvoredo, e procurou:
- Aqui est ela!
Guida aproximou-se.
O arbusto, reverdecido com as guas do inverno, comeava a florescncia. Nas pontas dos renovos germinavam j os lindos clices de ncar, com os pjngos douro.
Roou Guida as mos pelas folhas glabras do arbusto como para sentir-se acariciada pelo doce frolido:
- Sonhos douro! murmurou.
-  verdade! exclamou Ricardo sorrindo.
- Nem se lembrava! disse Guida com leve exprobrao.
- No culpe a pobre florinha, se o vento da tempestade a mirrou e cobriu de p, tornou Ricardo apanhando os secos despojos da passada florao.
- Estes morreram, murmurou Guida olhando as flores murchas, mas vo nascer. E os meus?
A voz da moa expirou nos lbios, e exalou-se em um suspiro:
- Os meus nasceram aqui tambm, porm morreram para sempre!
Ergueu Ricardo surpreso os olhos, e viu o semblante da moa banhado em lgrimas.
- Guida! exclamou ele.
E cingiu-lhe a cintura com o brao para ampar-la, porque a via desfalecer.
- Eu queria morrer aqui! balbuciou ela descaindo-lhe a fronte ao ombro de Ricardo, e reclinando o talhe ao peito onde conchegou-se hirta, sem movimento.
Mudo e esttico, Ricardo no sabia o que fizesse; no tinha foras para separa de si o corpo desfalecido, nem ousava observar-lhe o semblante, temendo nele ver a 
mscara da morte.
Foi rpido o lance, e durou enquanto Mrs. Trowshy, que duas vezes investira com o arvoredo, mas fora repelida por causa da sua rotundidade, fazia volta para aproximar-se.
- Guida! repetiu Ricardo aflito.
A moa ergueu a fronte e engolfando-se no olhar que banhou o rosto do mancebo, sorriu:
- Cuidei que morria... e era feliz!
Ricardo pousou um beijo casto na fronte da moa.
- H de viver!
- Para quem?...
- Para mim!
- Por ele e para ele, meu Deus! disse ela ajoelhando com as mos erguidas ao cu.
- What!... gritou a mestra vendo Guida naquela posio.
Ergueu-se Guida com um sorriso:
- Estava agradecendo a Deus a bno que me enviou.
E abraando-a com efuso, cobriu-a de beijos.
- Child! Dear child!... exclamava a inglesa esmagando as lgrimas nos olhos.

                                                     ***

 ltima hora.
O casamento de Guida com Ricardo efetua-se qualquer destes dias.
O Bastos consolou-se com a sociedade que lhe deu o Soares em sua casa bancria.
O Bencio anda em uma dobadoura: da modista para o Carceler, da florista para a cocheira. Ningum lhe encomendou cousa alguma; mas ele se julgaria desonrado se no 
tomasse parte ativa no grande acontecimento.

FIM DO FIM


OS SONHOS DOURO

Suscitou este livro, recentemente publicado, duas censuras ao distinto folhetista do Dirio do Rio.
Nada aproveita mais  propagao das boas letras do que seja a crtica leal e inspirada pelo sentimento artstico. A mim deleitam os certames literrios.
Argi o ilustrado crtico de personagens estrangeiros as duas figuras principais do romance.
Guida, a jovem caprichosa e aristocrtica, Ricardo, o homem dos devaneios e do orgulho intelectual, so tipos naturais da nossa sociedade ntima, to franca e democrtica?
Eis sob a forma da interrogao a primeira censura.
Antes de tudo, no disse o autor que ia esboar os seus personagens pelo prisma da vida ntima. Bem ao contrrio, os apresenta ele a maior parte das vezes fora da 
intimidade da famlia, em passeio ou na convivncia de pessoas estranhas.
Feita esta observao, entro com a crtica.
Por que razo no apresentar nossa sociedade, a mundana ou a ntima, o tipo de uma menina caprichosa e aristocrtica?
No h capricho no Brasil?
Aqui as rosas so, como dizia Mlton das do den, sem espinhos (without thorn)?
Tambm ser deserdada de toda superioridade esta raa brasileira, a ponto de no sentirem os espritos elevados quaisquer assomos da aristocracia natural que no 
vem da linhagem, mas de alguma preeminncia social, chame-se esta dinheiro, talento ou posio?
Desconhece a vida fluminense quem negar a existncia do que se chama entre ns a alta sociedade, embora sem o esplendor do grand monde em Paris e da high life 
em Londres.
Se o ilustrado crtico chegasse  janela da sua tipografia em um dia de festa, veria passar-lhe diante dos olhos no uma, seno muitas moas mais caprichosas e aristocrticas 
do que a Guida.
Mas onde est a aristocracia de Guida?
No nos diz o ilustrado crtico, e pois fora-nos a conjeturar, o que ser longo e fastidioso. Podia forrar-nos a esse trabalho apontando os fatos.
Estar a aristocracia de Guida no passear na Tijuca em cavalo do Cabo? Em trazer roupo de caxemira e luvas de peau de Sude? Em Ter uma governanta e criado estrangeiro 
para acompanh-la?
Creio que a sociedade fluminense em peso protestaria contra semelhante apoucamento de nossa corte. No  preciso ser filha de capitalista para ter semelhante tratamento.
Talvez que o severo crtico sentisse o ressaibo de estrangeirismo no fato de trazer Guida em sua carteira uma nota de cinqenta mil-ris para fazer com ela uma esmola 
disfarada por uma travessura.
Se ainda no desapareceu em todas as zonas da sociedade fluminense o tempo do papai me d um vintm, no  menos certo que um melhor princpio de educao domstica 
j condenou aquela tacanha e mesquinha inquisio familiar, que excedia-se em preparar a massa dos hipcritas, dos avaros e dos perdulrios.
 indispensvel habituar um homem desde criana a lidar com esse txico perigoso, que se chama dinheiro; do contrrio corre o inexperiente o risco de embriagar-se 
com ele; e essa embriaguez produz em de dous efeitos: o delirium tremens da prodigalidade, ou o idiotismo da avareza.
Atualmente  comum das famlias ricas terem as filhas seus alfinetes, e nas pobres, quando as posses dos pais no chegam para essa verba, as moas laboriosas formam 
com os seus trabalhos de agulha os pequenos peclios, com que vo acudindo s exigncias do toucador, sem a necessidade e o vexame de estarem a cada instante importunando 
os pais com o pedido de dinheiro para uma fita, um grampo, um crochete. (Deixem passar essa aclimao que  irm do colchte, melhor do que croch.)
Que resta da inculcada aristocracia de Guida?
Uns desperdcios feitos pela moa, que dava chocolate a comer ao seu cavalo e mandava-o lavar com vinho em vez de aguardante.
Estas e outras extravagncias no so ditas pelo autor, mas referidas por uma das personagens, em cujas palavras ele por certo no jura. Bastava este simples reparo 
para no se tomar a rigor aquelas coisas, dando ao contrrio o desconto  exagerao habitual dessa murmurao social que serve de tema s palestras.
Mas prescinda-se da atenuao. Em um pas onde tanto se esbanja com extravagncias, onde homens srios queimam centenas de contos em baboseiras, no se concebe que 
a filha de um banqueiro pudesse ter quejando capricho? Ser necessrio ir s sociedades da velha fidalguia para encontrar exemplos dessas dissipaes?
Ao contrrio, o trao brasileiro est a se revelando. Desses caprichos no se lembraria Guida se, apesar de rica, no se ocupasse com os arranjos de casa e no 
tivesse as chaves da despensa.
Passemos a Ricardo.
Em que  que os devaneios e o orgulho intelectual repugnam com a sociedade brasileira, aponto de no poderem germinar em seu seio?
No nos disse a crtica e era o essencial.
Neste pas dos trpicos, onde a prpria natureza devaneia nas cambiantes da luz, no capricho das formas, nos contrastes do belo; nestas naturezas meridionais de 
imaginao vagabunda, cismar ser acaso uma aberrao?
O orgulho da inteligncia tambm no vinga nesta terra onde ele se ostenta todos os dias desde o legtimo brio do talento laborioso at a fofa vaidade da suficincia 
lerda e obesa, que refocila na reputao mal ganha?
Nem um nem outro destes dois senes tinha-os Ricardo que entretanto, como homem ou como personagem, no estava isento de defeitos.
Longe de ser o homem dos devaneios, Ricardo  o homem prtico, preocupado dos interesses positivos da vida, compenetrado de sua grave responsabilidade como chefe 
de uma famlia no pequena e pauprrima que tem nele o nico arrimo.
Professa a advocacia, donde espera tirar recursos; luta com uma corajosa tenacidade contra as dificuldades do tirocnio. Nas horas de lazer no faz verso, desenha, 
como eu costumo fazer s vezes,  toa e por desfastio, sem nunca ter aprendido; e confesso que esses grosseiros empastes me divertem.
A vai esse neologismo, feito com a nossa moblia c de casa (do verbo empastar) para traduzir o pastiche, que os franceses trouxeram do italiano pasticcio.
Quanto a orgulho de inteligncia,  coisa de que o moo no tinha nem sombras. Em suas palavras no h uma aluso  sua capacidade; no trai aspiraes literrias 
nem polticas; no sonha com a glria. Sua preocupao , para o corao, o amor da famlia e a afeio de uma moa; para a razo, a posse de vinte contos, necessria 
para assegurar o bem-estar dos seus.
So dois colegas que de passagem e em ocasies diversas fazem aluso a seu talento; pois ele o tinha, se o autor no se enganou em dar o nome a alguma dessas fosforescncias 
que usurpam a pelo mundo esse ttulo.
Creio ter exaurido a primeira pecha de estrangeirismo; e se alonguei-me foi pelo sistema da crtica, incmodo e laborioso para o autor, que deseja defender o seu 
livro, pois, alm da tarefa de arcar com a habilidade do crtico,  obrigado a adivinhar-lhe os motivos.
Tachando as duas personagens principais de estrangeiras, deu a entender que destoavam da nossa sociedade franca e democrtica.
Mas no ser franca e democrtica a sociedade onde se passam as cenas do romance? Onde dois moos pobres e desconhecidos so convidados a jantar, logo depois de 
rpido conhecimento, feito pela manh em um encontro? Onde a fidalguia  representada por titulares de carregao, como um baro que foi tropeiro, um visconde que 
foi belchior, e um conselheiro que tem casa de consignaes?
Uma observao ainda.
No romance de costumes, e no sei se os Sonhos douro podem levar to alto suas pretenses, nem todas as personagens so tipos, nem todas figuram na comdia social, 
de que o autor aproveita um ato ou um trecho.
As principais na grande parte dos casos so atores no drama, que formam o esqueleto do livro, e lhe tecem o enredo, fibra vital dessa espcie de obra cujo fim  
antes de tudo o conto, a fbula, que pretende o esprito e o deleita.
Divaguem como queiram os modernos discpulos de Aristteles: aquele  o escopo do romance, o mais no passa de acessrios e ornatos, s vezes  certo, de to subido 
preo, que sobrepujam o todo, como os diamantes de que se bordam as vestes.
Nem Guida, nem Ricardo so tipos, mas caracteres formados pelas nossas condies sociais, idiossincrasias, como outras que a esto se reproduzindo ao infinito, 
sob a influncia de um concurso qualquer de circunstncias.
A diferena entre um tipo e um carter no careo de a determinar, pois no a ignora o ilustrado crtico. O tipo  moral; o carter  psicolgico. Este s contraste 
basta: d-nos ela outra importante aferio. O tipo forma-se exteriormente pelo molde social; o carter  uma criao espontnea, que se produz internamente pelas 
modalidades da conscincia.
O marinheiro, o soldado, o estudante, o advogado, etc., so tipos de maior ou menor relevo. O avaro, o egosta, o ambicioso, so caracteres que variam como as folhas 
de uma rvore e os logaritmos de uma mesma forma natural.
Fazendo aplicao destes prolegmenos da crtica a nossas personagens, no ser difcil discernir o que pertence ao carter e o que ao tipo, em cada uma delas.
Em Guida a altivez do gnio, a elegncia fidalga, os caprichos dissipadores, a iseno da alma, tudo isto  do carter, no qual sente-se a leve impresso da educao 
inglesa. O que h de tpico nessa figura  a forma de que se revestem suas travessuras, a garrulice brasileira desse lbio malicioso, o impulso de caridade que se 
expande traquinando, o modo por que apesar da riqueza vive sem luta no meio de uma sociedade que lhe no convm.
Em Ricardo o carter revela-se nos escrpulos de probidade e no pudor da pobreza, que os afasta dos crculos onde arrota-se ouro, no por orgulho ou inveja, mas 
pelo recato da dignidade.
O homem que no jantou, curte sua fome em casa e no vai espiar a mesa farta dos ricos, sob pena de ser um mendigo de casaca. A vida  um banquete, onde nem todos 
so convivas, como disse com lgubre ironia o infeliz Gilbert; porm muitos ficam  porta.
Ricardo pensava por esta forma; se bem, se mal,  o que a crtica filosfica devia decidir, mas absteve-se.
A profisso de advogado, nica esperana de decente ganha-po para ele que no tinha protees, nem se encaminhara a outras profisses igualmente independentes, 
como o comrcio e a indstria; as recordaes de S. Paulo e as amizades e os amores ali tecidos com as noitadas do tempo de estudante; o tom da amizade escolstica 
e fraternal que o liga a Fbio; o seu modo de viver; eis o que h de tpico em Ricardo, e no o viu o ilustre crtico por estar sob o domnio de uma preveno.
Havemos de chegar a ela, a seu tempo.

Snio

11 de setembro de 1872.
